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Árvores, temperatura, parques: Como as áreas verdes impactam a vida em São Paulo?

O ‘LabJor’ visitou três locais famosos da cidade e entrevistou frequentadores e especialista sobre o tema

LabJor in LabJor · 2025-04-08 13:29 · 0 claps · 6.5 min read
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Árvores, temperatura, parques: Como as áreas verdes impactam a vida em São Paulo?

O ‘LabJor’ visitou três locais famosos da cidade e entrevistou frequentadores e especialista sobre o tema

Nicholas Mello

Em uma manhã de sábado na Praça Buenos Aires, em Higienópolis, região central de São Paulo, várias pessoas se encontram para diversas finalidades. Algumas vão caminhar, outras passear com o cachorro, outras relaxar na grama sob as árvores. Mais do que um retrato urbano, a cena ajuda a refletir também sobre a relação das árvores com aspectos como temperatura, conforto e a necessidade de áreas verdes em uma cidade tão urbanizada como São Paulo.

Morador de Perdizes, o advogado Marcos Soares conta que gosta de frequentar a Praça Buenos Aires nos finais de semana para espairecer da semana puxada de trabalho, tomar uma água de coco, caminhar e sentir o prazer de não fazer nada. Ele descreve o ambiente como uma espécie de rompimento de barreira em relação ao ambiente corporativo onde atua ao longo da semana.

Para Marcos, as árvores passam um sentimento de tranquilidade e harmonia e o faz pensar sobre como o homem foi se distanciando da natureza e isso pode ser um problema. Ele relata sentir mais calor na Avenida Brigadeiro Faria Lima, onde trabalha, do que em Higienópolis, o que indica a necessidade de se manter uma mínima estrutura verde em um município tão urbanizado.

Parque Buenos Aires, em Higienópolis. Foto: Nicholas Mello

Parque Buenos Aires, em Higienópolis. Foto: Nicholas Mello

A alguns quilômetros dali, uma hora mais tarde, duas amigas, a estudante de Letras Mariana Pereira e a estudantes de Biologia Fernanda Santos, caminham no Parque Trianon, um pequeno reduto de Mata Atlântica localizado na Avenida Paulista. As duas residem na Grande São Paulo e estudam na USP. Elas contam que vão com frequência à Avenida Paulista e, vez ou outra, dão uma volta no Parque Trianon.

Futura bióloga, Fernanda entende que a qualidade do ar foi se deteriorando com o passar das décadas em São Paulo devido a diversos fatores, como má administração pública, pouco zelo ecológico por parte dos cidadãos e industrialização acelerada. Já Mariana diz que, graças à amizade com Fernanda, pôde entender melhor a necessidade de se ter um ambiente mais sustentável e preservar os recursos naturais.

Parque Trianon, na região da Avenida Paulista. Fotos: Nicholas Mello

Parque Trianon, na região da Avenida Paulista. Fotos: Nicholas Mello

Indagadas sobre questões como conforto e altas temperaturas, tanto Fernanda como Mariana entendem que a presença de árvores no ambiente urbano é um contraponto necessário para equilibrar a relação entre industrialização e meio ambiente. Também afirmam que há cerca de 15 anos não sentiam um ar “pesado” para se respirar.

Cerca de quarenta e cinco minutos depois, no Parque da Aclimação, zona sul da cidade, o casal Francisco Munhoz e Joana Munhoz caminha com o filho João, de 5 anos. Diferentemente dos Parques Trianon e Buenos Aires, o Parque da Aclimação tem um grande lago e os espaços para caminhar são mais amplos. Francisco é engenheiro, Joana é bancária e os dois vão frequentemente a esse parque nos fins de semana. Para eles, as crianças hoje estão cada vez mais vivendo em mundos paralelos do ambiente digital e, por isso, querem mostrar a João um mundo com mais possibilidades de atividades.

O casal também criticou o sedentarismo que vem crescendo no mundo e entende a necessidade de fazer atividades para gastar as energias física e psicológica que o ser humano acumula. Questionados sobre o diferencial de frequentar um parque altamente arborizado, ambos afirmaram que a qualidade de vida proporcionada por uma região com árvores é mais agradável e os ambientes onde trabalham durante a semana faz com que seja necessário terem um momento em contato com a natureza aos sábados ou domingos para renovar as energias.

Imagens do Parque da Aclimação, na região sul de São Paulo. Foto: Nicholas Mello

Imagens do Parque da Aclimação, na região sul de São Paulo. Foto: Nicholas Mello

O botânico e paisagista Ricardo Cardim explica que a Mata Atlântica, o ecossistema em que São Paulo estava inserido até perder a maioria de sua vegetação, está sob grande ameaça. Segundo ele, “restam muito poucas árvores em uma floresta que foi reduzida a 12,4% de seu tamanho original e isso é resultado de 500 anos servindo como matéria-prima para ser um alicerce do Brasil”. “Trata-se da lenha que foi e ainda se usa para mover indústrias, construção de casas, ferrovias e molde de concreto”, afirma. “É uma perda irreparável para o ecossistema de mais de 20 mil espécies vegetais, sendo que temos três mil a mais que no continente europeu inteiro.”

Cardim ressalta que 97% dos fragmentos de Mata Atlântica possuem menos do que 50 hectares e isso tem impactos no clima. A umidade do ar baixou, a forma como os ventos circulam mudou e a biodiversidade foi afetada. Não existem mais animais como antas, por exemplo, e outro bichos que se alimentam de sementes. “São Paulo era a terra da garoa, mas hoje é a terra da garoa sem garoa, pois o calor interferiu de forma decisiva nela.”

Para o botânico, é fundamental que a população entenda o que está acontecendo com a Mata Atlântica, que, mesmo legalmente preservada, não tem a sobrevivência garantida. Também é importante que as pessoas usem e cobrem o uso pela administração pública de plantas nativas no paisagismo e na arborização.

“É possível tornar a cidade de São Paulo mais arborizada, mas a arborização é entendida pela administração pública mais como uma forma de enfeite e estética do que algo para propiciar uma qualidade de vida melhor a quem reside na cidade”, alerta.

Ele cita entre os problemas relacionados à arborização em São Paulo a poda errada, a cimentação da base das árvores, o corte da raiz e o plantio de espécies inadequadas. O paisagista e botânico também defende que se transformem em canteiros vagas de rua para carros — a exemplo do que já foi feito em outros países. “Plantas nativas atraem a fauna originária da região e isso pode ser o início de um novo ciclo completo de natureza”, explica.

Ricardo Cardim criou uma técnica de restauração ecológica da Mata Atlântica chamada de Floresta de Bolso. Baseada em estudos científicos sobre os biomas do meio ambiente, ele leva em conta a diversidade de espécies nativas, o espaçamento adequado entre as plantas e a dinâmica competitiva original das florestas tropicais, fazendo com que tenham um crescimento mais rápido e menor necessidade de manutenção. “Essa técnica pode ser aplicada em cidades e fora delas e, quando bem aplicada, ocupa com eficiência áreas urbanas poluídas e zonas rurais com espécies exóticas intrusas, fazendo com que clima e ecossistema se estabilizem.”

O mapa digital da cidade de São Paulo, que inclui a visualização de lotes, está disponível no GeoSampa. Localizado no extremo sul da cidade de São Paulo, o bairro de Parelheiros é o mais arborizado, com mais de 91% do território coberto por área verde, enquanto Sapopemba, na zona leste, tem apenas 10% de seu território arborizado. Entre as árvores comuns na cidade de São Paulo estão o Alfeneiro, a Tipuana e o Ficus.

Questionado sobre como as árvores influenciam na temperatura urbana, Cardim conta que as árvores fazem a ligação entre o lençol freático e a atmosfera. “Elas levam a água do lençol freático por meio da fotossíntese para a atmosfera, refrescando a temperatura das regiões e diminuindo as ilhas de calor que ocorrem devido ao excesso de impermeabilização e de áreas construídas”, explica. Ou seja, a vegetação é fundamental para o clima urbano, para regular o clima, para atrair chuvas amenas e para evitar eventos climáticos extremos. “São Paulo precisa ter mais parques! São Paulo foi construída sob o poder privilegiado, pelo interesse dos loteadores e de outros tipos de especulação imobiliária.”

Ele defende a criação de parque no terreno do Jockey Club, na zona sul, e a desapropriação de outras áreas para “tornar São Paulo uma cidade verde e digna do século 21”. Questionado sobre o maior desafio na preservação de árvores, pede “equipes exclusivas para a manutenção e o plantio de árvores na cidade de São Paulo, em número suficiente, equipamento suficiente e recursos suficientes”. “Não existem equipes de manutenção de árvores na cidade, apenas em casos emergenciais. As árvores estão muito mal cuidadas e cada vez mais teremos tempestades violentas devido a essas ilhas de calor na cidade”, alerta.

Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a cobertura vegetal do município ultrapassa 54% do território. Entre 2019 e 2020, foi elaborado o Plano Municipal de Arborização Urbana e São Paulo (PMAU) e em 2023 foram plantadas cerca de 61.680 mudas de árvores em ruas, parques e praças. Este ano, destaca a Prefeitura, São Paulo foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das cidades que se destacam no manejo sustentável de árvores e áreas verdes, recebendo o título de “Cidade Árvore do Mundo”.

Nicholas Mello é aluno de Jornalismo da FAAP


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