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sobre a experiência de ver e (m)olhar

— oi. cê pode achar meio estranho, mas te senti tão atento a mim esta noite. faz um tempão que eu não era olhada dessa forma. eu posso até…

Mar · 2026-02-06 15:08 · 2 claps · 1.8 min read
#prosa-poetica #crônicas #mensagem
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sobre a experiência de ver e (m)olhar

— oi. cê pode achar meio estranho, mas te senti tão atento a mim esta noite. faz um tempão que eu não era olhada dessa forma. eu posso até ter visto coisa onde não tem, mas te percebi me acompanhando com o olhar, esboçando atenção aos meus muitos gestos abruptos. eu te olhava atentamente também. tanto que te via sorrir depois de se espantar com meus gritinhos finos de excitação. não minto que por um momento, quando sinto que entendi seu olhar ao meu, comecei a te seduzir. eu te olhava de volta, sempre mais atenta, pra você perceber que eu também te via. e via todas as outras pessoas também, conseguia ouvir o barulho da porta sendo fechada às pressas pelo segurança, mas estava tão inteiramente conectada a você… e, mais uma vez, pode ser que somente eu tenha vivido isso e é até bom que o tenha sido, mas naquele instante, em algum lugar no íntimo de mim, senti-me vista com interesse, como se fizesse sentido que eu estivesse ali com aquele macacão listrado e aquela blusa de tule furta-cor transparente, evidenciando, quase que metaforicamente, que eu estava desnuda diante de alguém que, não satisfeito em me olhar, também me via. agora, enquanto te escrevo, pouco importa se você de fato me olhou assim, porque pensar sobre isso me fez querer ser vista. quero que me vejam como você me olhou hoje, vendo-me sempre e constantemente pela primeira vez, como se nunca antes tivessem visto, e, por isso, é grata a surpresa que se desfruta, como algo doce e úmido, como se eu, além de transparente, pudesse também molhar. a depender do mergulho, das braçadas, da disposição para nadar. a depender da vontade, da sede que bate, do que se quer alcançar. quero poder ser vista como se sente, fruto da experiência, do envolvimento. quero ser vista pelo contato, empiricamente. mas não te quero etnógrafo, não. eu te quero nativo e, por isso, disponível para ver sempre mais e melhor. com calma, sem afobação. sem o tique-taque do relógio, a hora de voltar pra casa, o medo de não conseguir acordar amanhã. eu quero ser vista e te ver também, olhar pra você até que você se veja refletido. não desejo Narciso afogado, quero um beijo molhado, gosto e presença de mar… a essa altura do campeonato, você deve ter percebido que não me importa ter sido olhada por você, porque definitivamente fui eu quem te olhou assim. e foi dessa vez que olhando pra alguém eu consegui primeiro me ver. e talvez por isso só agora eu consiga escrever que ser vista por mim finalmente ecoou no olhar de alguém. daqui em diante, eu posso ver qualquer coisa.

— oi. sim, eu te olhei e te vi. espero que a gente possa se ver mais.


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2026-06-23 17:05:31