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Quando o surfe deixa de parecer surfe

O surf vem crescendo. Mas a que custo?

João Gandara · 2026-07-02 14:50 · 2 claps · 3.1 min read
#surf #medium-brasil #brasil #opinion #sports-culture
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Quando o surfe deixa de parecer surfe

O que aconteceu em Saquarema levanta uma pergunta incômoda: o surfe pode continuar crescendo sem perder a cultura que o tornou único?

Saquarema durante a WSL | Foto: World Surf League

Saquarema durante a WSL | Foto: World Surf League

O surfe sempre vendeu algo muito maior do que performance.

Vendeu uma ideia.

Um estilo de vida construído sobre liberdade, respeito, comunidade e uma relação profunda com o oceano. Muito antes de títulos mundiais, transmissões ao vivo e grandes patrocinadores, o esporte era definido pelas pessoas que viviam essa cultura todos os dias.

Hoje, essa identidade parece estar sendo colocada à prova.

A World Surf League levou o surfe a um patamar que poucos imaginavam. Mais audiência. Mais patrocinadores. Mais investimentos. Mais cidades interessadas em receber uma etapa do circuito mundial.

Do ponto de vista comercial, o surfe nunca esteve tão forte.

Mas o que acontece quando o negócio cresce mais rápido do que a cultura?

Saquarema nem sempre foi assim

Itaúna, Saquarema | Foto própria

Itaúna, Saquarema | Foto própria

Durante décadas, Saquarema foi muito mais do que um palco de competições.

A cidade se tornou um símbolo do surfe brasileiro. Sua rotina sempre esteve ligada ao oceano, às praias, aos surfistas locais e ao clima tranquilo que fazia parte da experiência de quem a visitava.

Quem chegava à cidade encontrava um ritmo diferente. Pessoas caminhando pela orla, surfistas entrando no mar ao amanhecer, moradores que se conheciam pelo nome e turistas que voltavam todos os anos justamente pela sensação de paz que Saquarema transmitia.

Era uma cidade onde o surfe fazia parte da identidade local, e não apenas do calendário esportivo.

Saquarema durante Wsl | Foto World Surf League

Saquarema durante Wsl | Foto World Surf League

Com a chegada da etapa do Championship Tour, porém, essa atmosfera começou a mudar.

Nas últimas edições, relatos de assaltos, furtos, perseguições de motocicletas, praias superlotadas, trânsito intenso e episódios de desrespeito passaram a fazer parte da conversa de moradores e visitantes. Em vez de falar apenas sobre as ondas, muita gente passou a discutir segurança e a sensação de que a cidade deixava, ainda que temporariamente, de ser reconhecida por sua própria essência.

É impossível ignorar os benefícios econômicos.

Hotéis lotam.

Os restaurantes recebem mais clientes.

O comércio vende mais.

A cidade ganha visibilidade internacional.

Mas esses benefícios vieram acompanhados de um custo que se tornou cada vez mais difícil de ignorar.

Estrutura da World Surf League | Foto: Prefeitura de Saquarema

Estrutura da World Surf League | Foto: Prefeitura de Saquarema

O debate não é sobre a WSL

Este não é um texto contra a World Surf League.

Também não é uma crítica aos atletas.

Muito menos ao crescimento do esporte.

A questão é outra.

Até que ponto o crescimento do surfe pode acontecer sem que sua cultura fique em segundo plano?

Quando uma cidade passa a ser lembrada mais pelos problemas enfrentados durante um evento do que pelas ondas que sempre a tornaram especial, talvez seja o momento de refletir.

Não sobre o futuro da WSL.

Mas sobre o futuro da cultura do surfe.

Arte feita com IA

Arte feita com IA

O surfe sempre foi um esporte construído sobre valores.

Respeito ao mar.

Respeito à natureza.

Respeito aos moradores.

Respeito entre quem divide uma onda.

Esses princípios fizeram parte da história da modalidade muito antes de existirem rankings mundiais ou contratos milionários.

Talvez por isso a discussão seja tão importante.

Porque ninguém é contra o crescimento.

O que preocupa é quando esse crescimento começa a apagar justamente aquilo que tornou o esporte especial.

Itaúna, Saquarema | Foto: Prefeitura de Saquarema

Itaúna, Saquarema | Foto: Prefeitura de Saquarema

O oceano continua o mesmo.

As ondas continuam quebrando.

Os melhores surfistas continuam oferecendo um espetáculo dentro d’água.

Talvez o que esteja mudando seja a forma como estamos vivendo o surfe fora dela.

E preservar essa essência talvez seja o maior desafio da modalidade nos próximos anos.


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