A hora de cruzar o mar
Hoje meu primo me escreveu. Ele trouxe um cansaço que não era do corpo, era um cansaço de dentro, daquelas pessoas que passaram a vida…
A hora de cruzar o mar

Hoje meu primo me escreveu. Ele trouxe um cansaço que não era do corpo, era um cansaço de dentro, daquelas pessoas que passaram a vida carregando pedras que não eram suas. Falou de gente estourando, de colegas que acordam mas que parecem que não dormiram, dessa coisa moderna que chamam de burnout, esse mal de quem deu tudo e esqueceu de guardar um pouco para si. Enquanto o lia, eu ouvia o eco de uma conversa antiga. Eu já tinha dito aquilo a ele. Há tempos. Sobre o esgotamento. Sobre a roda de moer gente. Mas naquele tempo ele não ouviu. Precisava comprovar. Precisava ver com os próprios olhos o que os meus já tinham visto. Há coisas que só a experiência nos conta. Essa professora cruel chega sempre depois da hora da aula.
Fiquei pensando, depois que terminei de ler a mensagem, nessa mania que temos de trocar o ouro por espelhos. As pessoas buscam a estabilidade como se salvação fosse. Um emprego seguro, um salário no fim do mês, um contracheque que justifique a alma. “Trabalha para o governo que nunca mais precisarás trabalhar”, dizem. Frase terrível, dessas que a gente escuta e torce o nariz. Mas o que é trabalhar? Talvez seja colocar o mundo em movimento com as próprias mãos. Se somos co-criadores, imagem e semelhança do Criador, parece fazer sentido. Se a mão não tem talento, se o que move o dia não move o coração, então não é trabalho, é pena. E pena, é como um castigo.
É que tem uma hora que a gente descobre, às vezes tarde demais, que agradamos a tantos que esquecemos de agradar a nós mesmos. Não apenas aos pais, que queriam um filho doutor, engenheiro, funcionário público, mas também aos filhos e às pressões e cobranças, inerentes à responsabilidade que se espera em nossa posição. E a gente vai. Vai, vai, vai. Até que um dia chega. Chega no cargo, no salário, na estabilidade. Em algum lugar. E aí senta e olha pela janela e pensa: “E agora? É isso?”. Por dentro, uma coisa aperta. É o dom, o talento, essa coisa que a gente trouxe de outras vidas — para quem acredita nessas viagens da alma — ou simplesmente essa coisa que a gente ama fazer e que, quando faz, esquece da hora, esquece da fome, esquece do mundo. Ele está ali e nos cobra de diferentes formas. Silencioso, discreto, não compete, apenas se manifesta. Constantemente.
Mario Saban, um professor com quem tenho classes há alguns anos, explica que temos uma batalha interna entre o Ruaj e a Neshamá. O Ruaj é a nossa casca, os condicionamentos, a educação, o que esperam de nós. É repetitivo, é seguro, é o caminho já trilhado. A Neshamá, porém, é o sopro. É a alma em estado puro, que veio para cumprir uma missão, e que só sossega quando a cumpre. E o drama é que a Neshamá grita. Ela faz “toc, toc” na porta do peito. E quem não atende, vive em permanente estado de sítio. Não creio que seja ela a provocar o efeito de esgotamento (burnout), mas sim sua ausência.
O mundo, esse grande tirano, nos empurra para a correria. Horas em claro, compromissos, pressões. E o talento, o dom, a Neshamá? A gente coloca debaixo do tapete. “Depois eu cuido disso”, a gente pensa. “Quando eu me aposentar, eu escrevo meu livro”. “Quando sobrar um tempo, eu pinto meu quadro”. Mas o tempo é um líquido que escorre entre os dedos. Não á toa Bauman cunhou o conceito de modernidade como líquida. Um ano vira dois. Dois viram quatro. Quatro viram oito. E o tapete vai ficando gordo, cheio de poeira, até que um dia a gente tropeça nele e cai. E aí, no chão, a gente percebe que o que estava ali debaixo não era um hobby, era a própria vida pedindo passagem.
A cabalá chama de Tikún essa retificação, esse conserto da alma. A vida é um constante processo de buscar equilíbrio. O universo não suporta o desperdício de energia. Colocar a força em um lugar que não é o seu é adoecer. É guerra. É cansaço. O burnout não é um acidente de percurso, é um grito da alma que diz: “eu não sou isto”, como um talento desperdiçado.
Há quem consiga o milagre do casamento, ou seja, fazer do dom o ganha-pão. Dizem que esses não trabalham nunca, porque vivem do hobby. Mas a maioria de nós, não. A maioria de nós precisa de duas mãos: uma para segurar o sustento, outra para não largar o sonho. E o segredo, talvez, seja a constância. Mesmo que o trabalho não seja o dom, não se deve deixar de fazer o dom. Mesmo que seja meia hora por dia. Uma hora de reclusão, como ensinam os cabalistas. Para ler, para meditar, para caminhar sozinho, para pintar um quadro, para escrever uma palavra. Porque quem não teve tempo para si mesmo, naquele dia, não viveu.
Olho pela janela. A tarde cai sobre esse pequeno lugarejo, sobre todas as cidades onde gente corre atrás do que não sabe. Meu primo tem o tempo dele. Apesar de tê-lo comentado tempos atrás, entendo que cada um tem a sua hora de cruzar o Mar Vermelho. Moisés cruzou. Mas antes ele teve que acreditar que era possível. A gente também.
O tempo voa. A frustração cobra. E a Neshamá não se contenta com tapete, não se contenta com poeira, não se contenta com menos. Ela quer é o mar. E mar, a gente sabe, é para ser navegado. Mesmo com medo. Mesmo sem comprovação. Mesmo que o primo ainda não acredite.
메타데이터
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