← Back to list

MEMÓRIAS ANALÓGICAS

Sou de uma época de transições. Lá atrás, a promessa era grande: carros voadores, o skate voador de De Volta para o Futuro, as casas…

J. Victor Fernandes · 2026-04-03 13:53 · 0 claps · 2.6 min read
#nostalgia #analógico #sergipe #aracaju #cultura
Open on Medium ↗

MEMÓRIAS ANALÓGICAS

Publicado no Jornal da Cidade-Se | 03.04.26

Publicado no Jornal da Cidade-Se | 03.04.26

Sou de uma época de transições. Lá atrás, a promessa era grande: carros voadores, o skate voador de De Volta para o Futuro, as casas inteligentes dos Os Jetsons, um amanhã cintilante feito de plástico, neon e progresso.

Cresci com essa sensação de que o mundo estava prestes a acontecer. Porém, eu quase sempre chegava um pouco atrasado. Quando consegui comprar um Super Nintendo, a garotada já tinha PlayStation faz tempo. Quando finalmente tive um walkman, as fitas já estavam sumindo. Quando consegui um diskman, o MP3 Player já dominava. Em algum momento, desisti de tentar acompanhar. Contos da classe média noventista, crise em cima de crise e a vida acontecendo.

Talvez por isso tenha aprendido a valorizar as minhas coisinhas. Era surreal de difícil conseguir um cartucho novo, um disco novo, uma novidade qualquer. Então eu jogava Mario Bros infinitas horas, sonhava com as fases, conhecia cada segredo, cada caminho. Por uma consequência aleatória do tempo, acabava não havendo uma relação superficial com o mundo. Havia repetição, convivência, intimidade. Lembro do Californication do Red Hot Chili Peppers, que ouvi tantas vezes que ainda sei a sequência de músicas de cabeça. E assim era uma forma de pertencer às coisas que nos pertenciam.

Eu fui uma criança desenrolada, muita exposição a novelas que tinham Nuno Leal Maia, Evandro Mesquita e outros, misturado com Marrone (Steve Guttenberg) da Loucademia de Polícia e o Gilmar da TV Colosso. Imbuído dessa energia, caminhava a cidade toda: ia ao Centro de Aracaju, atravessava a Rua Santa Rosa ainda repleta de camelôs, comprava bonecos genéricos dos Power Rangers que viravam a cabeça, depois ia na Huteba e comprava um saco de bolas de gude sortidas — tudo para vender no colégio e na rua. Com esses trocados, patrocinava horas na locadora Focus Game, que ficava ali pelo bairro Salgado Filho, e outros pequenos prazeres da infância.

Hoje, por vários motivos — incluindo o colapso de um capitalismo que já cansou de si mesmo — a nostalgia virou a última moda. Muita gente olha para trás como quem olha para um lugar. Um lugar idealizado, sem dúvidas, mas onde ainda parecia possível sonhar. E é difícil sonhar mirando o fim do mundo. Muito se fala do retorno ao analógico como remédio: contra a ansiedade, contra o derretimento lento dos nossos miolos imposto pelas redes sociais. E quem precisa se expor intensamente às redes sabe que há verdade nisso.

Quando penso em música, sinto que temos tudo e, ao mesmo tempo, não temos nada. Quando digo “minha playlist”, estou, no fundo, dizendo que pago mensalmente pelo acesso a um compilado de músicas que organizei dentro da plataforma de outra pessoa. Se há dono, não sou eu. Talvez seja o algoritmo, talvez o mercado, com certeza o streaming.

Sou do tempo da enciclopédia, do xerox, da caneta esferográfica no papel pautado, do corretivo secando sobre os erros, dos colegas malucões cheirando o frasquinho como se aquilo fosse experiência transcendental. Outro dia li sobre alunos de ensino superior indignados e fazendo uma manifestação porque um professor exigiu caligrafia legível. Ri sozinho. Lembrei do professor Landisvalth, da quarta série, do finado Colégio Brasília, me fazendo escrever “assassino” duzentas vezes no caderno de ditado. Sou grato a ele. Melhor assassinar a mão do que assassinar a gramática.

Mas não venho aqui criticar os mais jovens. Eles são sintomas do tempo, assim como eu fui. E mesmo chegando atrasado às tecnologias, aprendi que novidade não é necessariamente avanço. Muitas vezes é propaganda: o capitalismo reinventando a embalagem para vender de novo aquilo que já havia vendido antes. Talvez tenham espremido tanto esse modelo que a grande novidade agora seja justamente o contrário: parar, revelar, esperar, tocar, ouvir, repetir.

É por isso que uma fotografia analógica ainda diz tanto. Porque ela não tenta vencer o tempo. Ela aceita existir dentro dele.


메타데이터
post_id
755d09dbeecf
slug
memórias-analógicas-755d09dbeecf
url
https://medium.com/@joaovictor.azfe/mem%C3%B3rias-anal%C3%B3gicas-755d09dbeecf
canonical_url
https://medium.com/@joaovictor.azfe/mem%C3%B3rias-anal%C3%B3gicas-755d09dbeecf
author_url
https://medium.com/@joaovictor.azfe
status
ok
fetched_at
2026-08-22 09:45:30