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São só dois os lados da mesma partida?

Projeto da UFMG sobre probabilidades no futebol conquista a mídia e dissemina a matemática para o grande público

UFMG · 2016-12-05 16:40 · 16 claps · 7.0 min read
#futebol #futebol-brasileiro #probabilidade-no-futebol
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São só dois os lados da mesma partida?

Projeto da UFMG sobre probabilidades no futebol conquista a mídia e dissemina a matemática para o grande público

Entrevista com Gilcione Nonato Costa - Por Marcos Becho*

Lucas Braga/UFMG

Lucas Braga/UFMG

Matemático, pesquisador e apaixonado por futebol, Gilcione Nonato Costa misturou a emoção do torcedor com o conhecimento acadêmico de sua profissão. O professor do Departamento de Matemática da UFMG começou a carreira se graduando em Engenharia Elétrica, em 1994, mas, ao longo da vida acadêmica, se enveredou pela Matemática — área do seu mestrado e do seu doutorado.

Um dos seus trabalhos mais conhecidos, que alcançou repercussão internacional, é o projeto de extensão Probabilidades no Futebol Brasileiro. “Eu sempre tive paixão por futebol. Foi desse interesse que pensei e criei, em 2005, o projeto de extensão com os professores Bernardo de Lima, Renato Martins, Marcelo Cunha e Fábio Martinez. Nosso objetivo era analisar as probabilidades dos resultados de cada time e divulgar a matemática”, conta Gilcione.

Hoje, o projeto se tornou referência para as editorias de futebol da grande mídia em todo o país, que usa os seus cálculos para projetar os resultados das competições nas coberturas esportivas. Em entrevista ao jornalista Marcos Becho, Gilcione relata essa experiência original, envolvendo o esporte e a ciência e como ela pode ajudar a fazer com que a matemática “caia no gosto” das pessoas.

Futebol e probabilidade: essa é uma associação comum?

Sim, é uma associação comum, pois a probabilidade não significa certeza. Um exemplo simples: quando a pessoa tem 90% de cura de doença, não significa que a pessoa vai se curar. Quer dizer que, na normalidade, ela irá se curar. Mas existe uma possibilidade de que ela não melhore. E isso vale também para as loterias. Mesmo com uma pequena possibilidade de ganhar, não podemos dizer que é impossível, apenas improvável.

É o mesmo com o futebol: não sabemos o que vai acontecer, mas a probabilidade nos dá uma tendência. Não é um prognóstico, mas um diagnóstico. Um time ter 90% de chance de ser campeão significa que, dentro da normalidade dos futuros resultados, ele será campeão em 90% deles. Mas isso não quer dizer que ele será. Ele precisa continuar vencendo e se mantendo em uma boa colocação.

Como é feito o cálculo?

Para o cálculo do futebol na probabilidade temos que modelar um time, ou seja, qualificá-lo como um bom mandante, bom visitante, com qual freqüência ele empata, perde e ganha seus jogos. Além disso, é importante saber também quem ele vence, porque se o time vence um fraco, isso não quer dizer muita coisa, mas se ele vence um forte, isso é bastante significativo.

Lucas Braga/UFMG

Lucas Braga/UFMG

Quando modelamos a força de cada time, estimamos a probabilidade de cada time vencer. Suponhamos que um time ‘A’ vença 50% , empate 30% e perca 20% de seus jogos. Suponhamos também que o time ‘A’ enfrente um time ‘B’, que, por sua vez, vença 30% dos jogos fora de casa, empate 50% e vença 20%. Com esses dois dados, qual seria a maneira de estipular a probabilidade do time ‘A’ ganhar a partida?

É algo simples, pegamos a média que o time ‘A’ vence e a média que o time ‘B’ perde. Essa média dará a probabilidade do time ‘A’ ganhar o jogo. Por exemplo, o time ‘A’ ganha 50% dos seus jogos, e o time ‘B’ perde em 20% dos seus. A partir desses dados, pegamos uma média entre os dois, entre 50 e 20. Ou seja, 35% de chance do time ‘A’ ganhar. Eu faço o mesmo cálculo para o empate e para a perda.

Nós fazemos simulações. O que significa isso? Significa que simulamos todos os jogos que não aconteceram. Usando o mesmo exemplo de antes, simulamos dois milhões de vezes o jogo do time ‘A’ contra o time ‘B’ de forma que em 35% das simulações o time ‘A’ vai ganhar o jogo.

Em 35% dos dois milhões de simulações, o time ‘A’ ganha, mas eu faço isso com todos os jogos restantes. E ao final dessas simulações, eu conto quantas vezes o time ‘A’ foi campeão, quantas vezes ele foi rebaixado. Essa freqüência dá a probabilidade de ele ser campeão ou de ser rebaixado.

Nas análises dos jogos, você leva em consideração possíveis acontecimentos fora do campo? Como o acidente que aconteceu há pouco tempo com o Chapecoense, por exemplo.

Os acontecimentos fora de campo, tais como o ocorrido com a Chapecoense não são considerados. Mas os erros de arbitragem são considerados indiretamente, uma vez que podem alterar o resultado de uma partida.

Você usa o histórico do time em campeonatos específicos?

Sim, pois o mesmo time pode ser forte no Brasileirão e fraco na Copa do Brasil. É normal isso. Por isso pegamos os jogos apenas do mesmo campeonato, pois aqueles fenômenos estão restritos ao ambiente. Ou seja, é uma questão de dogmas. Pegamos o que os times já fizeram nos campeonatos e projetamos para o futuro. Por isso falamos que a probabilidade não é um prognóstico, ela é um diagnóstico. Se a tendência for mantida, os fatores irão acontecer, mas pode ser que não aconteça.

São dois milhões de simulações por jogos não acontecidos. Por exemplo, faltando uma rodada para o Campeonato Brasileiro, sobram dez jogos. Então eu simulo os dez jogos restantes. Em uma, o time ‘A’ perderia, outra ganharia e em uma terceira empataria, de forma com que mantenha a proporção. Ou seja, se a probabilidade de um time ganhar é de 35%, então das minhas duas simulações, em 35% delas, o time ‘A’ vai ganhar o jogo, mantendo a tendência colocada. Ao final das simulações eu conto quantas vezes o time ‘A’ foi campeão, e essa será a probabilidade dele ser campeão. Armazeno esse dado e volto a simular as rodadas de novo.

Vocês acompanham a “taxa de acerto” das simulações que fazem?

Como já falei, probabilidade não é previsão. É claro que previsão e probabilidade são coisas muito próximas, mas são diferentes. Se eu digo que o Palmeiras tem 80% de chance de ser campeão, eu estou dizendo que existe o risco de ele não ser campeão, mas, ele é o favorito, e isso é outro fator. No futebol, quando se fala na porcentagem de vitória de um time em relação a outro, ou de empate, pode ocorrer a ‘zebra’. O charme do futebol é esse.

O que é interessante observar é que a probabilidade, o modelo, tem que estar de acordo com o que a gente vê. Não é o futebol que deve se adequar ao modelo, mas o modelo que precisa estar de acordo com o futebol, o objeto em si. E sempre que cada rodada ocorre e os números são colocados, há o questionamento se aqueles números refletem o que está acontecendo. Eu não posso colocar números que pelo bom senso apontam para um fator se os resultados apontam para outro, então quando isso ocorre eu tenho que analisar e ver o que está errado.

Lucas Braga/UFMG

Lucas Braga/UFMG

Conte-nos sobre o projeto de extensão

O principal objetivo é divulgar o conhecimento matemático. Eu sempre observei que havia pouca precisão matemática nos comentários de esporte no Brasil. Os comentaristas de futebol confundiam o que era matematicamente classificado. Probabilisticamente falando, eles cometiam muitos erros. Exemplos: nesse ano, por exemplo, o Cruzeiro chegou a 47 pontos. As pessoas falavam que ele não tinha risco nenhum de ser rebaixado, mas matematicamente ele tinha sim. Havia uma combinação de resultados que poderiam levá-lo ao rebaixamento. Era pouco provável, mas não era impossível. O correto seria falar: existe uma pequena possibilidade de o Cruzeiro ser rebaixado.

Isso ocorreu também em 2009 com o Fluminense. Na época, ele estava com 99% de chance de rebaixamento, faltando 12 rodadas até o final do campeonato. Ele só seria salvo com muito esforço. As pessoas diziam que ele já estava eliminado, desconsiderando a pequena probabilidade de não ser rebaixado. O que aconteceu, de fato. Ele não foi eliminado e as pessoas acusaram os matemáticos de terem errado. Não foi erro, pois existia uma pequena chance de não acontecer. A probabilidade estava lá. Isso não é um erro — 100% é uma coisa e 99% outra.

O improvável também pode acontecer. Algumas pessoas nos criticam falando que queremos transformar o futebol em ciência exata. E não é isso o que queremos. O futebol mexe com paixão e todos temos nossos rituais. O que precisamos entender é que a probabilidade existe: pode funcionar ou não.

De 2005 até agora, como foi o percurso do site do projeto?

Nesse ano de 2016, estamos fazendo uma nova versão do site e estamos felizes com ele. Fizemos previsões de Fórmula 1, assim como de outros campeonatos internacionais, entre eles: Libertadores, Premier League, Liga Espanhola. Vamos tentar fazer um site mais internacional.

Em nosso último levantamento, observamos que são 50 países do mundo que estão nos acessando, tais como: Nova Zelândia, Austrália, Japão, Tailândia e todos os países da América do Sul.

Em 2017 vamos expandir para campeonatos no Chile. Pretendemos fazer uma página nos nossos moldes no Chile com o nome da UFMG.

O que planejam daqui pra frente?

Quero fazer um aplicativo para celulares para as pessoas simularem elas mesmas os jogos.

Mas o meu maior interesse é a divulgação da matemática. Nossa ideia tem como princípio básico divulgar a matemática por meio do futebol. As pessoas nos procuram e questionam, tudo motivadas pelo futebol. Isso é interessante, pois muitas têm aversão à matemática, mas não tem aversão ao futebol. E isso é muito bom na questão de divulgação. É gratificante para um professor ver que existe uma relação entre algo mais concreto, algo mais próximo da vida cotidiana, que é o futebol, com algo que as pessoas acham que não tem relação, que é a matemática. Elas podem, assim, aprender e gostar de matemática por meio do futebol.

Lucas Braga/UFMG

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* Marcos Becho é jornalista multimídia e integra a equipe de Mídias Sociais do Centro de Comunicação da UFMG


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