Que tipo de bar fecha às cinco?
A memória que eu tenho é assim: de repente, como num sonho que já começa do meio, nós estamos andando pela Tijuca, de mãos dadas porque eu…
Que tipo de bar fecha às cinco?

A memória que eu tenho é assim: de repente, como num sonho que já começa do meio, nós estamos andando pela Tijuca, de mãos dadas porque eu quis, em busca de um bar. Eu não sei se a minha primeira sugestão fracassou e ficamos sem rumo, mas eu tenho certeza de que a sugestão foi minha, porque sempre é. Porque conhecer lugares e querer impressionar e criar memórias é meu. Mas, pensando um pouco melhor, acredito que você tenha sugerido que as minhas listas obsessivas fossem pro caralho e que a gente parasse num bar de forma aleatória, ou porque você é um psicólogo e eu uma neurótica, ou só porque isso é seu, ou talvez os dois. Um terror. Uma disrupção no meu cronograma-personalidade. Acontece. Mas minha obsessão é muito forte, não poderia ser em qualquer lugar. Eu não te achava qualquer pessoa, então não poderíamos ir a qualquer lugar. Eu te faço andar da rua das flores à Varnhagen e, só então, paramos num bar. O bar é perfeito, antigo, com cheiro de tradição e cachaça mineira, o vento é particularmente delicioso e eventualmente nos faz ter que sair do lado de fora porque tá tudo voando. E quanto mais a gente conversa, mais eu tenho certeza de duas coisas:
- que eu odeio te conhecer em um momento tão caótico;
- que acabaria rápido, mas não por mim.
Mas o bar fecha às cinco da tarde. Que porra de bar fecha às cinco? No meu lado do subúrbio isso não acontece. Vamos andando bêbados e sem rumo para uma rua ao lado. Você me beija. Talvez não tenha sido muito bom, mas disso eu não me lembro. Primeiro beijo sempre me deixa nervosa, eu não tive muito espaço pra treinar na adolescência e é um problema que eu tenho que lidar agora na vida adulta. Mas talvez eu só fique nervosa quando eu me importo e meu corpo acaba por traduzir em tremor o medo da efemeridade. “bruta, bruta flor / tenho medo de por entre meus selvagens dedos / destruir as pétalas do amor” escrevo numa música, anos depois.
A gente vai à feira de São Cristóvão, e eu não sei porque, me parece que fomos lá duas vezes. Talvez seja a parte da memória que antecede a nossa andança, da qual eu não me lembro. De todo modo, lá eu te levo no meu bar de sempre. Que não é o mais foda, não é o mais gostoso, mas é onde eu vou e as luzes vermelhas me fazem sentir algo. Você queria cantar uma de uma banda brasileira que tem nome de banda gringa, a qual não me recordo. Eu não sei se cantei, mas eu sempre canto e eu sempre canto Eva — Rádio Táxi, porque ela nutre tanto o meu desejo de agradar a plateia, que sempre vai ao êxtase, quanto o meu particular receio do fim das coisas.
Nós conversamos todos os dias. Todos os dias dentro de um período de 1 mês e, sendo generosa, poucas semanas. Me lembro de sair de uma exposição com um amigo e você perguntar por onde eu tava. Sua namorada tinha saído com o outro namorado dela e eu queria te ver. Dois coelhos. A gente vai pra Lapa, come uma pizza e vai pra um motel, que hoje já não existe mais, mas talvez não devesse ter existido nunca. Batidas na porta encerram a nossa noite. Você volta pra casa com as sobras da pizza que eu também paguei. Acontece.
Na última vez em que saímos, decidimos ir pra Rocinha. Eu aceitei a aleatoriedade dos locais, a falta de planejamento e o preço foi comermos num estabelecimento terrível, bebermos em algum bar nada demais e ir parar um motel melhor do que o último. Deitada na cama, tentando enxergar o meu reflexo no espelho de teto em meio a escuridão, pensei que tudo parecia dizer que era uma despedida.
Você se lamentou sobre o mesmo assunto que lamentava em todos os nossos encontros. Fomos andando pra praia e eu segurava sua mão querendo que você pudesse sentir no meu toque a minha saudade e o meu desespero. O mar quebrava na areia com uma violência fora do comum e eu soube que nunca mais iria te ver. Tempos depois, eu recebo uma mensagem dizendo que sentia muito, mas que estava mal demais pra continuar. Acontece.
E, de fato, nunca mais te vi, embora quisesse muito. Embora fosse nos lugares que tínhamos comentado de ir e torcido pra te encontrar, porque isso também é meu e de alguma forma eu queria que isso fosse seu também. Mas, claro, nunca te encontrei.
Eu comecei a namorar, os anos se passaram e você sumiu da minha memória. Então, depois de todos esses anos, eu comecei a ser uma namorada cuzona que não dá atenção à própria relação e se torna uma pessoa amargurada e ressentida, que canaliza as próprias frustrações para o parceiro e começa a ter devaneios delirantes, os quais acometem principalmente os homens de meia idade, mas dos quais nenhum de nós está imune.
O problema é que, quando as coisas acabam de repente, o gosto amargo do “e se?” dá espaço suficiente para elucubrações safadas em momentos de vulnerabilidade. E, então, algo que não é nada além do que foi, se torna cobaia das tentativas de deslocar a própria responsabilidade por um fracasso para o outro. É claro que o problema não sou eu. Se fôssemos nós dois, nada disso seria assim.
Eu nunca vou saber o que seríamos se tivéssemos continuado. Provavelmente eu também teria me cansado de você e você de mim. Provavelmente estaríamos presos entre as frustrações que sempre comentamos e, mesmo que frustrada, eu não dissesse adeus, porque isso também é– era meu. E, mais provavelmente ainda, talvez não fosse tão bom quanto eu tendo a acreditar que seria, porque você é real, assim como eu sou real, e o que eu amei foi amar a idealização que atribuí ao seu rosto e à nós. Entre todos os perigos do se, acho que esse é o pior: ele sempre me dá margem para fazer aquilo que mais me custa desaprender — fugir.
메타데이터
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- 2026-07-09 09:29:37