Só um detalhe [2020]
Crônica escrita durante a pandemia.
Só um detalhe [2020]
Crônica escrita durante a pandemia.
São 2 para uma da tarde. Hoje eu acordei tarde mesmo. Só porque decidi ver mais três episódios quando falei que seria mais um. Aqueles episódios romantizados daquela série romântica que desde o princípio falei: nossa, realmente força muito.
Os três primeiros capítulos: gratuitos. O resto precisava assinar. Sempre gostei de histórias de piratas.
Tudo começou porque ouvi: “tem um personagem que me lembra você nos trejeitos”. Sabe de quem? Da terapeuta. E aí tive que fazer uma segunda sessão prolongada.
Já tô no sexto. Até agora não gostei, mas, caramba! Tem uns traços naquele personagem… Parece que eu quem rabisquei. No pacote completo somos bem diferentes, é nos detalhes que eu fico pasmo, combina.
Onde começou naqueles três gratuitos, agora são cinco ou seis e eu tô pagando o preço: me analisar no personagem. Mas, nos detalhes. Ali ó! Pauso e fico sentindo o golpe do reflexo.
Tudo acontece nos detalhes. O detalhe é a rima, é a poesia. Mas, é também o texto corrido. Afinal, o completo é completo de detalhes.
Faz vinte minutos que eu sentei na varanda.
Café preto, livro de sociologia. Um bom café é bom no detalhe. Um bom livro também. Panqueca malfeita, chocolate meio amargo. Esse meio dá um detalhe todo especial. Uma “pós-manhã-bonita-ensolarada-de-domingo-no-rio-de-janeiro-com-céu-azul” em tempos de quarentena é algo meio amargo. Acabei trazendo o rádio também.
Que coisa magnífica é o rádio. Num segundo me vem uma onda em alta frequência de palavrões: os idiotas que, em vez de reconhecerem o meio amargo necessário do isolamento, azedam a realidade. Nada azeda sem querer.
Noutro segundo escuto aquela música que me lembra do abraço dela (não sei se é a música gostosa ou a lembrança da sensação do corpo dela que me esquenta mais, as duas juntas ficaram ótimas por sinal).
Talvez por esse entrelaçado de sensações e detalhes é que rádio e futebol combinem tanto.
Já tem trinta minutos que sentei aqui.
Quando eu era criança achava que o beija-flor nunca parava de voar. Tem um aqui parado na minha frente, na árvore que invade a varanda no quarto andar. Eu tinha sentado para tomar café e ler enquanto comia. Já tomei, já comi e esqueci que vim aqui para ler. Mas, era só um detalhe.
Agora eu posso ler isso aqui para ver se ficou bom.
André Farias 31/05/2020, 13h38 Rio de Janeiro
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