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Bruxas e sereias — na leitura de um imaginário corrompido

(Pesquisa apresentada no Centro de Humanidades, Fortaleza-CE; nunca publicada)

Bruxa da Biblioteca ~ Lídia Machado · 2025-09-23 03:32 · 5 claps · 4.4 min read
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Bruxas e sereias — na leitura de um imaginário corrompido

(The Call — Remedios Varo. 1961)

(The Call — Remedios Varo. 1961)

(Pesquisa apresentada no Centro de Humanidades, Fortaleza-CE; nunca publicada)

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Uma ode à literatura feminina

Com o intuito de honrar a literatura feminina, filosófica e indagadora, a presente feita se embasou num aprofundar de camadas da literatura da escritora e poeta pelotense Angélica Freitas, as quais se apresentam conectadas a figuras memoráveis do imaginário popular e coletivo, referenciadas nas obras Rilke Shake (2007) e Canções de Atormentar (2020).

As bruxas e sereias, que, no pensamento da autora, surgem como faces orgânicas e honestas do feminino — reinventado de suas comuns amarras — , num dinâmico questionar de papéis e narrativas, literaturas clássicas e comportamentos atuais.

É válido relembrar que, ainda que as sereias sejam figuras tidas, em consenso, como personas mitológicas, a palavra “bruxa” expressa uma forma de existência concreta. Mesmo que a palavra seja mero produto de acusação, ocupa o lugar de termos como “sacerdotisa”, “sábia”, “curandeira”… cientistas do oculto, observadoras de mistérios. Mulheres de inegável força.

A ameaça da bruxa ao sistema de controle

É importante questionar-se não a respeito do perigo da bruxa, mas do iminente risco de uma sociedade que se desgoverna de tempo em tempo, aderindo a formas antigas de controle e, por vezes, usando a contação de história e a mistificação do poder da mulher como ferramentas de controle social.

Em míticas de sereias, vemos comumente a transfiguração feminina enquanto criatura meio-peixe e maleficamente voluptuosa. Nega-se a complexidade de seu eu primitivo, imprimido na metade animalesca do corpo. Elevando, a partir da incompreensão e do distanciamento de seu simbólico, o repúdio e a evitação.

Ofusca-se o simbolismo daquela que traz, em si, parte de uma das primeiras formas de vida: a sabedoria de navegar — com o próprio corpo — pelas profundezas aquáticas, metáfora à profundidade emocional e à compreensão da própria subjetividade e organicidade imaterial.

Ofusca-se a força de seu canto, outrora associado ao expurgo dos males — emocionais, espirituais. Hoje, reduz-se a uma tentativa de atração e dominância do que vem do masculino. Incluem, na mítica, a ideia de que essas respeitam mais as mulheres, sobretudo quando menstruadas, levando-as à margem, como se fossem, elas, criaturas feridas. Reforça-se a construção da imagem de um perigo feminino ante o exercício masculino. E passam a chamar o magnetismo de “canto da sereia”: lábia sorrateira, conversa de forasteira mal intencionada.

A complexidade imaterial que, por direito, é nossa

Vemos, na literatura de Freitas, um repensar desta subjetividade e uma troca de pontos de vista que nos permite o ‘pensar do lado de lá’. Fora da construção metafórica, se fazem presentes semelhantes dilemas nas relações sociais e interpessoais: o temor e repulsa pela corporeidade feminina.

A tentativa de purificação de sua vontade e a defesa incessante da pseudo cumplicidade desta ao masculino — num exercício que não questiona ou desconforta… somente aceita e sempre agradece. Teme-se, nos mitos e literaturas, a magia da bruxa; teme-se, na troca social, o posicionamento argumentativo e o poder de decisão da mulher.

Obras como tais representam um significativo eco de reinvenção persistente das narrativas. Uma resposta às idealizações e construções de uma masculinidade que temia, sobretudo, aquilo que não pôde compreender em si. O temor pelos limites da própria racionalidade e consequências das formas de corrupção que acabam por abraçar, sendo a bruxa ou a sereia mero agente externo a responsabilizar e expurgar. Apaga-se o mal, deixando cinza a se varrer — permanecem os causadores de todo sintoma: o medo, a incompreensão, o interesse financeiro e a sede por protagonismo excludente no poder.

A mulher que irrompe a norma

A mulher à margem, nesta e em outras literaturas, foi tratada como problema social. Como peste a se controlar, cerceando a liberdade e extirpando o poder em prol da manutenção das relações econômicas e dos tratados sociais.

Vemos, ao adentrar o pensamento de Silvia Federici em Calibã e a Bruxa, a conveniência da padronização dos papéis de gênero — sobretudo femininos — para o progresso do capital. A mistificação pejorativa da mulher que irrompe a norma e a demonização de sua expressão são mecanismos de supressão e aniquilação da singularidade feminina.

Literatura: tecnologia de reconstrução

O papel da literatura, quando aliada a uma reconstrução social, é o de refazer a rota das narrativas corrompidas. Não negando os velhos pensamentos, mas, por vezes, fazendo um retorno ainda maior no tempo. Resgatando imagens de força e compreensões mais ancestrais acerca do feminino — que guarda, num só termo, um espectro infindo de faces, formas e timbres.

Compreendendo a importância desta singularidade e, também, o papel de sua permanência ante as constantes tentativas de modulação e controle. Afinal, uma sociedade que acorrenta a espontaneidade, liberdade e subversividade feminina é também uma sociedade que subjuga a própria natureza e a natureza maior.

Faz-se sentir junto ao crescente desrespeito ao corpo da mulher — sobretudo mulheres originárias, negras e quilombolas, mulheres periféricas, mulheres trans — cresce também o desrespeito às florestas e regiões de natureza preservada. Mercantilizam-se tanto uma quanto a outra, numa tentativa concreta e, em certo aspecto, bem-sucedida de antropocentrismo excludente, que se aproxima mais de um androcentrismo.

Resgatando a identidade

Diante disto, surge a necessidade de recosturar as ideias prontas a respeito do feminino. Resgatar as alcunhas “mulher fatal”, “traiçoeira”, “vulgar”, “megera”, compreendendo o lugar de origem de cada uma delas: por vezes, a revolta do dominador ante a revolução da que, por tanto, teve de estar sob dominância.

Ascender novos epítetos, novas nomenclaturas de identidade que respeitem a vida feminina que contraria as imposições seculares, honrando a subjetividade e a ferocidade que é também parte da natureza do ‘ser mulher’.

Ciente de que, mesmo na escrita a respeito das questões femininas, quase sempre esperam o complemento de alguma voz masculina, o psicanalista Lacan respondeu, certa vez, ao pedido de que definisse a mulher com uma simples frase: “A mulher não existe.” Que, por muito, foi incompreendida, mas que, sutilmente, protesta ante a tentativa de definir a completude feminina, como se fossem mero objeto e não sujeito. “A mulher” não existe, pois não há um molde exato do que é ser mulher. Não há uma só definição que abrace todas de uma só vez.

Reinventando

A literatura de Angélica Freitas, dentre diversas autoras, se faz instrumento de reconstrução da ótica, incentivando um reinventar de memórias e associações simbólicas que nos permita olhar para as figuras femininas — para sua liberdade de pensamento — e disposição filosófica para confrontar convicções.

Por Lídia Machado


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