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Não tão plural

Pluribus apenas reflete a normalização de mais um erro gigantesco que um homem pode cometer.

Chris Calvet · 2026-01-19 14:27 · 0 claps · 4.1 min read
#pluribus #critica #critical-thinking
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Wiki topics: HUM · Humanities · General

Não tão plural

Pluribus apenas reflete a normalização de mais um erro gigantesco que um homem pode cometer.

Cadê o ponto que estava aqui?

Cadê o ponto que estava aqui?

Desde as últimas baterias de vacina da Covid-19 tenho cometido o mesmo erro: não tomei mais a vacina da gripe. Não porque não quis (negacionismo de vacina passou longe de mim), mas porque por alguma obra imperfeita da minha cabeça, vou procrastinando e adiando. E quando o vírus chega, bem, para alguém em um nível de estresse radical e recorrência eterna de pouco sono como eu possuo, pode-se dizer que o vírus tem um playground perfeito para brincar. Meu corpo desfalece radicalmente na cama por dias, o que me faz esquecer dos livros e finalmente maratonar séries. Assim o fiz com Pluribus, a série mais comentada dos últimos 20 minutos no mundo hoje (20 minutos nos mundo hoje é uma eternidade, dá para construir recortes históricos imensos sobre tudo).

Não assisto praticamente a mais nenhuma série hoje em dia. Eu tento, juro, que tento, mas desisto. Esse vírus das séries não me pega mais, vai entender… algumas eu acompanho, mas são poucas e sem qualquer engajamento maior. Por exemplo, se eu cochilar, é muito provável que deixe pra lá o que perdi. No strings attached com seriados mais.

E Pluribus tentei acompanhar. Na primeira semana recebi várias mensagens no estilo: SÓ VEJA! Ok, vi o primeiro episódio. E QUE PRIMEIROS TRINTA MINUTOS! São trinta minutos brilhantes, numa coreografia visual, acachapante da descoberta de uma frequência do espaço que se torna um vírus e que transforma todos os humanos em “zumbis”, controlados por algo maior. Para mim que tenho tatuado todos os pôsters de Invasores de Corpos na virilha e no reguinho, é um espetáculo. Não tinha nenhuma novidade, mas quem quer novidade depois daqueles primeiros trinta minutos de série?

O vírus já tinha sido um elemento importante na ficção científica: os colossos tripés de Guerra dos Mundos são derrotados por falta de imunidade a eles. Em Pluribus a humanidade é dominada por uma falta de imunidade ao vírus alienígena. Bacana! Mas o vírus parece pegar a própria série. Fuén.

Em pouco tempo a série determina seu espaço nada sideral: vai se ocupar da rotina da sobrevivente em torno de um super cuidado dos invasores até que eles consigam transformá-la em um deles.

E não é que a série cozinhe em fogo baixo, em um ritmo lento que me incomode. A série simplesmente se transforma em um espetáculo em demonstração de força de produção: em gastar rios de dinheiro para o nada. Para nada não. Para mostrar que pode tudo. Quem pode tudo? Leia-se Apple, o seu criador e showrunner, sua produtora, Hollywood, Trump, sei lá… todos mostrando que podem mover rios de dinheiro pra mostrar seu ponto. Mas que ponto? O ponto ficou lá no primeiro episódio e não voltou mais. Perdão, voltou. Voltou muito. O mesmo ponto, travestido de tudo quanto é coisa, das mais gigantes possíveis para não sair do mesmo lugar. Cheguei a questionar se tinha a ver com Lost, quando o ponto parecia caminhar para muitos lugares e por não haver conclusão, bastava continuar caminhando. Mas ali em Pluribus não. O ponto não caminha. O ponto fica por oito episódios mostrando seu ponto, sem qualquer traço de um bom diálogo. Não, não há um único bom diálogo na série inteira. Nenhunzinho. Rosca. Zero. Mas tem esforço de produção. E vai pra cá, vai pra lá, abre cenário, fecha cenário, e voa pro outro lugar do mundo, volta mas o ponto fala: eu sou um ponto.

Não fosse o meu vírus da gripe eu teria desistido da série mas ficar na cama e olhar aqueles thumbnails infinitos dos apps de streaming é ainda pior.

Mas e aí? Não há camadas? Discussões em torno da temática? Tem. Muitos. E vamos a elas. Olhando de uma produção dos EUA, não temos como tirar uma conclusão muito ambígua: por um lado parece ser uma obra hiper neoliberal, que parece caricaturar sociedades mais igualitárias, menos individualistas, parece que tirar a alma das pessoas comunis é a solução. Refutei essa camada. Vamos a outra que pensei aqui: uma sociedade algorítmica, padronizada, normalizada, mais próxima do que Adam Curtis previu ali em hiper normalization. Uma sociedade algorítmica é regida numa frequência diferente, sob a égide de uma hiperconsciência, e que talvez esteja falando ali sobre IA e suas consequências nefastas para o nosso desenvolvimento subjetivo, intelectual e emocional. Uma sociedade algorítmica nos torna mais autômatos, com menos empatia. Me pareceu boa. Sigo aqui.

Não que eu esteja esperando um confronto existencial nível O Sétimo Selo na série, mas a nossa protagonista, uma sociopata mimada, alcóolatra e chata para os infernos, dá lampejos de questionamento filosófico, mas infelizmente o roteiro só tem um ponto. Não tem dois, nem três, nem meio. Tem um só. E entra no loop da gravação, se protege por 8 episódios até o derradeiro encontro entre pólos opostos (sul e norte) para mostrar que confiança não existe, o que existe mesmo é interesse e se não der pra resolver, tem uma bomba atômica aí.

Oi? Bomba atômica? Isso é a grande piada do final da série. Uma estadunidense falando: se tudo der errado eu solto essa merda aqui. Era pra rir. Parece que era. Mas quem ri não entendeu porra nenhuma de nada, desculpe o segundo palavrão no mesmo parágrafo. Bomba atômica em um filme de zumbi já foi usada brilhantemente em A Volta dos Mortos Vivos, terror cômico, pop, claustrofóbico, alucinado de 1985, que me assusta até hoje. Aquele final que acaba com o filme, me mostrou com 12 anos de idade (não vi no cinema, obviamente), que o mundo pode acabar e se tudo acabar, acaba tudo. Não, senhor Vince Gilligan, isso não é uma piada e o senhor não tem um ponto. Achei até que tivesse mas não tem. O senhor tem é dinheiro pra gastar ad infinitum, em uma produção vazia, platônica, muito metafísica, não apenas sobre essa hiperconsciência mas acima de tudo sobre a força de que ideias vazias podem ser preenchidas com muito esforço de produção e ganhar fãs com muito pouco esforço de reflexão.


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