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Chão de flores (Apresentação — Alessandro Borges Tatagiba)

Você e eu temos em mãos algo que o tempo levou uma vida inteira para germinar, cultivar e desabrochar: Chão de Flores: Haikais e Haibuns…

Fábio Ribas · 2026-08-26 22:15 · 4 claps · 3.8 min read
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Chão de flores (Apresentação — Alessandro Borges Tatagiba)

Você e eu temos em mãos algo que o tempo levou uma vida inteira para germinar, cultivar e desabrochar: Chão de Flores: Haikais e Haibuns sobre o Amor e o Tempo, do escritor Fábio Ribas. A cada página, percebemos como o autor, profundamente íntimo do gênero literário japonês, entrelaça haikai e prosa poética no coração do Cerrado, transformando Brasília em personagem viva. Ipês, lago, andorinhas e figuras femininas compõem uma cartografia afetiva indelével.

A prosa, marcada por imagética intensa e pela fusão entre sujeito e paisagem, aproxima-nos dessa geografia sensível. Os haicais, por sua vez, operam lances luminosos que condensam emoção, memória e epifania. Assim, saboreamos um diálogo intercultural raro entre as estradas percorridas por Bashō no Japão medieval e o chão trilhado por Fábio Ribas, um diálogo que se faz na companhia da família, do afeto e da experiência espiritual que molda sua sensibilidade. O livro, coeso e profundamente humano, oferece uma travessia semelhante à estação dos ipês ou ao florescimento do sakura, uma travessia breve que interroga e transforma. Surge então a pergunta: será que a gênese de uma obra como esta começa, de fato, onde imaginamos?

Se Bashō compôs seus versos mais célebres durante longas jornadas de contemplação da natureza, talvez também imaginemos que Fábio tenha cultivado as sementes deste livro em suas viagens missionárias pelo Brasil, especialmente nas estradas vermelhas do Xingu. É tentador pensar que o primeiro haikai que Deus soprou em seu íntimo tenha germinado ali, entre povos indígenas que nos ensinam que a natureza é um espaço de reverência e coexistência.

Ainda assim, ouso ir mais fundo. Talvez tudo tenha começado naquele instante inesperado em que Deus surpreendeu o futuro poeta, acendendo uma centelha em seu coração e conduzindo-o a um curso de linguística para tradutores da Bíblia, numa época em que ele próprio ainda nem era crente. Não podemos determinar o ponto exato dessa gênese, mas certamente podemos seguir o convite que o autor nos oferece e sentir em suas palavras

a luz do tempo que cai sobre um ramo seco,

uma promessa escondida no inverno de Brasília,

o riso de suas filhas como andorinhas ensaiando voo,

e o perfume que insiste em permanecer, impregnando as reminiscências da mãe.

Ao ativar essas imagens, fui levado às minhas memórias dos cinco anos em que vivi no Japão, especialmente quando estudei a Cerimônia do Chá, o Chadō, na escola Urasenke. Revivi o som do carvão crepitando ao aquecer a água, vi novamente o arranjo floral, o chabana, e senti sob o corpo a textura do tatame. Percebi então que o Chadō e este livro compartilham a mesma alma. Em ambos, a natureza não é convidada, ela é a anfitriã.

Antes de entrar na casa de chá, porém, existe a meia porta, o nijiriguchi, pela qual ninguém passa sem se curvar. Ali aprendi uma lição que permanece comigo: deixar o ego do lado de fora e estar presente e receptivo. Tanto o Chado quanto esta obra transformam a natureza em uma chave para o espírito. Esse caminho espiritual encontra no haikai um aliado, pois ele nos leva a perceber o ins-tante antes que se dissolva. O haikai não narra, ele revela. Não argumenta, ele ilumina. O haibun segue o mesmo caminho. A prosa conduz, o haikai conclui. Bashō caminhava para que a poesia o encontrasse e o haibun mantém até hoje esse caráter de peregrinação e iluminação interior.

E por que o missionário Fábio Ribas se afeiçoaria ao haikai?

Porque ambos comungam do mesmo olhar. O missionário aprende a ver antes de falar, aprende a escutar antes de ensinar.

Entre povos indígenas, Fábio descobriu que a natureza não é cenário, mas parente. Aprendeu que cada folha que cai carrega uma mensagem de gratidão à terra que a sustentou. A vivência no Xingu foi, sem que percebesse, sua primeira escola de haikai. Ali, começou a ler o livro não escrito da cri-ação, onde o silêncio funciona como sintaxe, como nos lembra o Salmo: “Um dia faz declaração a outro dia. Sem linguagem e sem fala, ouvem-se as suas vozes por toda a terra.”

Com este livro, aprendi que o Cerrado também é mestre e traz consigo declarações sobre o amor e o tempo. Ele nos ensina que a beleza pode nascer da secura e que a resistência é uma forma de florir. Aqui, o ipê cumpre a mesma missão da cerejeira no Japão: lembrar que a brevidade é uma lingua-gem da eternidade. Como escreve Fábio:

ipê é tupi

sakura é do japão

aljava e daishô

Ipês e sakuras são irmãs distantes que anunciam a mesma lição. Tudo passa. E porque tudo passa, estar presente diante da graça neste exato instante talvez seja nossa maior sabedoria.

Neste livro, o Ipê do Brasil e a Cerejeira do Japão formam as colunas de um mesmo templo poético. Uma floresce para vencer a aridez. A outra floresce sabendo que cairá ao primeiro vento. Ambas falam do Criador e ambas falam de nós. Esta obra não é acaso, ela é coerência interior. O haikai en-controu em Fábio o solo onde sempre quis germinar.

Por isso, convido você a percorrer estas páginas devagar, caminhando como Bashō ou como Fábio Ribas, como quem atravessa um bosque ao amanhecer. A poesia de Fábio não pede pressa, ela pede presença.

Que estas páginas o alcancem com suavidade.

Que renovem seu olhar.

Que aqueçam seu coração.

Que abram seus ouvidos para a voz que fala sem linguagem e, ainda assim, alcança cada íntimo de forma inefável.

Que a beleza desta leitura seja uma fonte de inspiração para reconhecermos, aqui e agora, a graça diante de nós.

Alessandro Borges Tatagiba

Chado Aprendiz 16ª geração Sen Sōshitsu

Casa de Chá Urasenke — Kyoto, Japão

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