Chico Bento em: De Volta para o Futuro
Uma crônica sobre futuros sustentáveis, exclusões elegantes e o desconforto de quem não aprende a caber

Odete — a galinha
Chico Bento em: De Volta para o Futuro
Uma crônica sobre futuros sustentáveis, exclusões elegantes e o desconforto de quem não aprende a caber
Dizem que o futuro chegou de mansinho — plantado em canteiros de agrofloresta, com saneamento biológico e regado a kombucha artesanal.
Foi nesse lugar — uma ecovila solar punk autossustentável, espiritualmente elevada e esteticamente impecável — que Chico Bento desembarcou no futuro com uma mochila desorganizada, uma conta bancária inexplicavelmente abastecida e um histórico emocional que não caberia em nenhuma roda de partilha com tempo cronometrado.
Ele tinha comprado o pacote num anúncio do Instagram, numa madrugada confusa — provavelmente entre o Acre, João Pessoa ou a Chapada Diamantina. Lugares que, segundo ele, “tudo meio que vira a mesma coisa depois da terceira medicina da floresta”.
O anúncio prometia:
“Imersão no Futuro Consciente: reconecte-se com sua essência.”
Chico levou isso ao pé da letra.
O erro começou aí.
A recepção foi linda.
Sorrisos calmos. Abraços com consentimento verbal. Olhos que sustentavam contato visual na medida exata para parecerem presentes, mas não invasivos.
Tudo muito treinado — digo, integrado.
O futuro funcionava como um organismo perfeito:
E, de certa forma, funcionava mesmo.
A terra era respeitada. A água, cuidada como um bem sagrado. O lixo deixava de existir — virava insumo, processo, responsabilidade compartilhada.
As pessoas se escutavam. Ou, pelo menos, tentavam.
Havia ali um esforço real — raro, até — de viver em comunidade sem fingir que o coletivo se sustenta sozinho.
Nem tudo era performance.
Mas nem tudo escapava dela.
Chico achou aquilo o máximo.
— Rapaz… cês tão vivendo no céu e nem morreram ainda!”
Ninguém riu.
No começo, Chico Bento era um projeto.
Um “caso interessante”. Um “campo fértil de desconstrução”. Um “convite ao trabalho interno do coletivo”.
Ele falava alto, ria fora de hora, contava histórias atravessadas de violência, preconceito e contradição — não com orgulho, mas com uma sinceridade que não passava por filtro algum.
Na infância, só lembrava de briga. Na adolescência, exclusão. Na vida adulta, uma coleção de diagnósticos que ele repetia como quem enumera cidades visitadas:
— “Tenho uns negócio aí… autismo, TDAH, bipolaridade… borderline acho que também, mas esse eu esqueço.”
Silêncio respeitoso. Olhares técnicos.
Patrulhamento ativado.
O problema de Chico não era o que ele dizia.
Era como ele dizia.
Naquele futuro, a violência não tinha desaparecido — só tinha ficado elegante.
O machismo, a LGBTQIAPN+fobia e a exclusão social até passaram por algum saneamento biológico — mas ainda estavam ali, no círculo de bananeiras.
Chico ainda praticava o preconceito em versão analógica, explícita, quase ingênua. Um amador.
Seu jeito de existir atravessava o mundo sem respeitar muito bem as bordas invisíveis que organizam o convívio. Na prática, ele operava em outra lógica — menos previsível, menos editada, menos compatível com ambientes que dependem de harmonia constante.
Incluir o diferente é simples — desde que o diferente saiba se comportar.
Não cumpria horários. Não fechava ciclos. Saía no meio das rodas. Nunca terminava uma aula.
Mas aparecia sempre que alguém precisava — mesmo quando ninguém tinha pedido.
Tentou enterrar uma tartaruga morta na praia, sem seguir protocolo. Acendia fogueiras no lugar permitido, sem autorização, só porque achava que “é acender a fogueira que o povo se junta”.
Deixava tudo bagunçado — e depois catava o lixo que não era dele. Esquecia tarefas na cozinha — e lavava a louça que ninguém assumia. Alguns itens sumiam da dispensa — mas, quando ele cozinhava para todos, ninguém se queixava.
E foi aí que começaram os problemas.
— “Chico Bento, a gente precisa falar sobre limites.” — “Mas eu só lavei as panela…” — “Sim, mas você não pode limpar o que não foi acordado.” — “Mas tava sujo…” — “Sim, mas de forma não consensual.”
Ele ficou em silêncio.
Era a primeira vez que alguém explicava que até a sujeira tinha governança.
Com o tempo, Chico virou um incômodo.
Não porque fazia mal.
Mas porque fazia fora do protocolo.
E não há nada mais indigesto para um sistema perfeito do que alguém que faz o bem de forma errada.
E, ainda assim, não era simples.
Havia ali gente tentando — de verdade.
Mas incluir alguém como Chico exigia mais do que boa intenção.
Exigia sustentar o desconforto, abrir mão de controle, tolerar o imprevisível.
E nem todo mundo consegue.
Não porque não quer.
Mas porque não sabe. Ou porque ainda não pode.
E há uma dor silenciosa nisso.
A de perceber — mesmo que de longe — o próprio limite.
A de intuir que o discurso vai até um ponto… mas o corpo, a prática, a vida, não acompanham.
E encostar nesse limite não alivia.
Desorganiza.
As rodas começaram a reorganizar suas energias.
Os convites “orgânicos” deixaram de surgir. As interações espontâneas passaram a ser mediadas.
Seu nome apareceu, com cuidado, em pautas de alinhamento comunitário:
Como lidar com presenças desestruturantes no campo coletivo?
Ninguém citou Chico diretamente.
Mas alguém chorou ao falar dele. Outro agradeceu pela oportunidade de crescimento. Um terceiro pediu licença para não se envolver emocionalmente.
No fundo, havia também um certo alívio.
Toda comunidade, por mais consciente que seja, parece precisar de um ponto de tensão — alguém que absorva o desconforto coletivo.
A psicologia chama isso, às vezes, de projeção.
Outras vezes, de bode expiatório.
Nada muito novo.
Organizar o mundo entre os que “já entenderam” e aquele que “ainda precisa trabalhar em si” traz uma sensação silenciosa de ordem.
E, não raramente, de superioridade.
Um dia, decidiram ajudá-lo.
Explicaram comunicação não-violenta, escuta ativa, linguagem inclusiva, responsabilização afetiva.
Chico ouviu tudo com atenção.
No final, perguntou:
— “Mas se a pessoa tá triste, eu posso só sentar do lado dela ou tem que marcar horário?”
Dessa vez, ninguém respondeu.
Aquilo não estava no protocolo.
Em outra época, dizem, um tal de Sidarta encontrou Gautama Buda e concluiu que nenhuma doutrina substitui a experiência direta da vida.
Chico nunca leu o livro.
Mas, de algum jeito torto, parecia ter chegado lá.
No fim, ninguém expulsou Chico Bento.
Isso seria violento demais.
Apenas deixaram de incluí-lo com consistência suficiente para que ele desaparecesse sozinho.
Uma exclusão sustentável. Regenerativa. Com baixo impacto ambiental.
Antes de ir embora, Chico limpou a cozinha inteira.
Deixou um panelão de comida pronto, sem glúten, sem lactose e — sem querer — sem autorização, de novo.
Ninguém comeu.
Mas todos reconheceram o gesto.
Alguns em silêncio. Outros em vivências posteriores.
O futuro, ao que parece, não é pra qualquer um.
Exige preparo. Vocabulário. Histórico.
Um certo acúmulo invisível de privilégios que se comportam como passaporte — carimbado ao longo da vida, validado por quem já chegou antes.
Um ambiente socialmente homogêneo, economicamente confortável, cuidadosamente isolado — onde o acesso limitado garante, com delicadeza, a permanência dos iguais.
A inclusão acontece, com mais facilidade, entre aqueles que já chegam prontos.
Nada muito diferente de outros futuros que já foram imaginados antes.
Talvez a pergunta não seja sobre Chico.
Mas sobre o tipo de futuro que estamos construindo quando dizemos que queremos incluir.
Incluir quem? E incluir como?
Será que estamos preparados para uma inclusão que não vem educada, organizada e consciente de si?
Ou só conseguimos acolher o diferente depois que ele aprende a parecer com a gente?
Na natureza, diversidade não pede licença, não agenda conversa, não passa por curadoria. Ela invade, desorganiza, compete, adapta — e, ainda assim, sustenta o equilíbrio.
Talvez o que chamamos de futuro ainda seja só uma versão mais sofisticada de controle.
Ou talvez ainda estejamos aprendendo — lentamente — que pluralidade de verdade não é confortável, nem bonita, nem silenciosa.
E definitivamente não é organizada.
Chico foi embora sem fazer barulho.
Voltou pra sua terra.
E lá, como sempre, estavam todos esperando por suas histórias.
Queriam saber do futuro. Das tecnologias. Das pessoas evoluídas. Do tal novo mundo.
Chico pensou um pouco.
E contou da galinha Odete, que dormia no colo dele feito uma gatinha. Dos nasceres do sol. Das fogueiras. Da comida que ele inventava — e que, segundo ele, ia fazer sucesso naquele tal futuro. E da alegria da mulherada quando ele puxava todas pra dançar forró.
Virou pra Vó Ximita e falou:
— Não tem lugar pra mim no futuro, vó. Tô preso aqui nessa disgrama de presente.
A vó, depois de uma cusparada, respondeu:
— A sua condenação é um presente, meu filho.
Chico voltou do futuro do mesmo jeito que foi.
Talvez um pouco mais confuso.
Talvez um pouco mais certo.
Porque, no fim, o essencial continua sendo aquilo que toca a alma.
E o presente — esse sim — ainda é o único lugar onde isso pode acontecer.
Namastê.
Este é um texto de ficção, livremente inspirado em fatos reais.
메타데이터
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