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Domingo na Paulista: um retrato da cultura e da diversidade de SP

Desde 2016, avenida cartão-postal da cidade é fechada para carros aos domingos e feriados; iniciativa faz parte do Programa Ruas Abertas

LabJor in LabJor · 2025-04-07 12:38 · 0 claps · 5.2 min read
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Domingo na Paulista: um retrato da cultura e da diversidade de SP

Desde 2016, avenida cartão-postal da cidade é fechada para carros aos domingos e feriados; iniciativa faz parte do Programa Ruas Abertas

Ana Clara Cottecco

Todos os domingos e feriados, entre 9h e 16h, a Avenida Paulista deixa de ser uma via tomada pelo trânsito e se transforma em espaço cultural. Sem a correria dos carros, quem ocupa o asfalto são pedestres, ciclistas, famílias com crianças, artistas de rua, turistas e moradores. O Paulista Aberta, como ficou conhecido o projeto, se consolida como uma das principais iniciativas de lazer da cidade.

O fechamento da via faz parte do programa municipal Ruas Abertas, criado em 2016, durante a gestão do então prefeito Fernando Haddad. A ideia é que o espaço urbano deve servir também às pessoas, e não apenas aos carros.

Um dos trechos da Paulista visto de cima. Foto: Gabriel Ramos on Unsplash

Um dos trechos da Paulista visto de cima. Foto: Gabriel Ramos on Unsplash

Na Paulista, a iniciativa ganhou força e se tornou um símbolo da cidade. A avenida virou um grande palco ao ar livre que expressa a diversidade, mas também as tensões da metrópole.

Em fevereiro deste ano, fiscais da prefeitura e policiais militares impediram a banda de rock Picanha de Chernobill de se apresentar na Avenida Paulista. Segundo declaração do guitarrista Chico Rigo em vídeo da publicado no Instagram da banda, a polícia os impediu de tocar e informou que não era mais permitida música de rua na avenida.

O episódio gerou críticas nas redes sociais sobre a repressão ao livre uso do espaço público. Mas, de acordo com Rodolpho Fulan, chefe de gabinete da Subprefeitura da Sé — a responsável pela zeladoria e ordem na Paulista — , não houve expulsão ou tentativa de apreensão de instrumentos.

“O que houve foi a tentativa de garantir que a legislação fosse respeitada, conciliando o uso cultural do espaço com o direito de circulação e sossego dos moradores”, afirma. A lei do Artista de Rua proíbe a promoção de shows com divulgação nas redes sociais e estrutura de palco, o que caracteriza “evento”. “O artista pode se apresentar por até quatro horas, com instrumentos como violão acústico ou guitarra com amplificador, desde que respeite os limites de volume.”

Público ocupa a Paulista em dia sem carros. Foto: Monique Carrati/ Unsplash

Público ocupa a Paulista em dia sem carros. Foto: Monique Carrati/ Unsplash

Aos domingos, manifestações artísticas tomam a avenida sem cobrança de ingresso ou curadoria institucional, oferecendo à população contato com música, teatro, artesanato e performance. O Paulista Aberta amplia o acesso à cultura e leva arte a públicos que, muitas vezes, estão à margem dos circuitos formais.

O músico independente Eduardo (nome fictício), de 27 anos, apresenta-se quase todos os domingos na Paulista e diz que a avenida é o melhor lugar de São Paulo para quem vive de música de rua. “Tem movimento, gente que para, escuta, conversa. Isso faz muita diferença.”

Mas ele conta que já precisou interromper apresentações mesmo dentro dos limites de tempo e volume previstos por causa da fiscalização. “Não sou contra ter regras, faz parte, mas às vezes falta diálogo”, reclama, denunciando também desigualdade no tratamento das diferentes. manifestações culturais. “A gente sente que tem uma linha invisível entre quem é convidado para expor no MASP (Museu de Arte de São Paulo) e quem está aqui na rua tentando mostrar o som. Seria legal se a arte de rua fosse reconhecida com o mesmo peso.”

A Paulista reúne algumas das principais instituições culturais da cidade. O MASP, por exemplo, conta com um dos acervos mais relevantes da América Latina, que inclui de obras de Van Gogh e Renoir a Tarsila do Amaral e Anita Malfatti. O Instituto Moreira Salles tem um importante acervo fotográfico e oferece exposições gratuitas de fotografia, literatura, música e cinema. Já o Itaú Cultural promove experiências interativas, além de manter um dos acervos digitais mais completos do País.

O chamado Corredor Cultural da Paulista tem também outros espaços, como a Japan House, que apresenta a cultura japonesa contemporânea em exposições gratuitas; o Sesc Avenida Paulista, com programação diversa e um mirante disputado no 17º andar; o Centro Cultural Fiesp, com cinema, teatro e mostras acessíveis; e a Casa das Rosas, que mantém viva a literatura em um dos últimos palacetes preservados da avenida. Esses locais explicitam o caráter multifacetado da Paulista, onde o lazer ao ar livre se conecta com o acesso à arte e à cultura.

Em uma cidade com tanta diversidade e interesses, o Paulista Aberta não escapa de críticas e controvérsias. Enquanto fãs da iniciativa defendem que o programa seja estendido aos sábados, alguns vizinhos da região criticam o Ruas Abertas.

O morador da região Juliano Mariano de Andrade, de 51 anos, tem outra opinião. Ele vive há mais de duas décadas nas proximidades da avenida e aponta incômodos com o Paulista Aberta. “Para quem mora aqui, nem sempre é tão bom quanto parece. Desde que começaram a fechar a avenida, minha rotina de fim de semana mudou. O trânsito nas ruas paralelas piora e tem barulho e bagunça até tarde. Isso atrapalha quem só quer descansar”, diz o morador.

Músico de rua se apresenta na Paulista. Foto: Talles Alves/ Unsplash

Músico de rua se apresenta na Paulista. Foto: Talles Alves/ Unsplash

Apesar das críticas, ele não se opõe ao projeto: “Não sou contra as pessoas ocuparem a rua, acho legal ter espaço para cultura e lazer. Mas falta um pouco de equilíbrio. Pensam muito em quem vem passear e pouco em quem convive com isso todo fim de semana.”

Já o morador da Bela Vista André Duarte, de 64 anos, caminha com seu cachorro pela Paulista todos os dias. Domingo é seu dia favorito. “O Marley fica mais calmo sem o barulho dos carros, apesar da música e do movimento.” Ele diz que costuma aproveitar o passeio para ver uma roda de música ou um grupo de dança. “Todo bairro devia ter algo parecido, não só a Paulista.”

A avenida também atrai visitantes de outras cidades. Natural de São João da Boa Vista (SP), Pedro Antunes, de 19 anos, visitou a Paulista pela primeira vez em março. “Gostei porque tem muita coisa acontecendo. Mesmo com tanta gente, me senti seguro.” Ele diz que espera voltar outras vezes para conhecer mais artistas de rua e ir aos museus.

A estudante paulistana Letícia Leme, de 22 anos, costuma encontrar os amigos na Paulista. “Quando queremos fazer algo mais de boa à tarde, marcamos aqui”, diz. “E o melhor: é de graça. Você aproveita a cidade sem gastar quase nada.”

Por outro lado, quem mora em bairros mais afastados e longe de estações de metrô sofre para chegar à Paulista nos fins de semana, segundo Letícia. Ela aponta a menor quantidade de ônibus e a demora do transporte como um ponto negativo.

Ciclistas, corredores, skatistas e patinadores também disputam o espaço urbano com visitantes e artistas de rua. Atletas amadores ocupam a área entre a ciclofaixa e a via interditada. Para Rafaela Olivo, que corre na Paulista aos domingos, a ausência de carros incentiva a prática de atividade física na cidade e é uma opção a lugares mais concorridos, como o Parque do Ibirapuera. “A Paulista Aberta é uma das poucas políticas públicas recentes que deram certo.”

Segundo o chefe de gabinete da subprefeitura da Sé, o modelo atual é o mais adequado para a realidade do local. “Nosso papel é equilibrar esses interesses e garantir que o uso da Paulista seja democrático e respeitoso para todos”, afirma Rodolpho Furlan.

Ana Clara Cottecco é aluna de Jornalismo da FAAP


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