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OS DESAFIOS DE ATLETAS TRANS NAS CORRIDAS DE RUA

As corridas de rua vêm conquistando cada vez mais espaço no Brasil. Presentes em grandes capitais e pequenas cidades, elas atraem milhares…

Allanymoura · 2026-05-30 23:22 · 0 claps · 15.5 min read
#jornalismo #transexual #reportagem-multimídia #preconceito #transfobia
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OS DESAFIOS DE ATLETAS TRANS NAS CORRIDAS DE RUA

As corridas de rua vêm conquistando cada vez mais espaço no Brasil. Presentes em grandes capitais e pequenas cidades, elas atraem milhares de participantes em busca de saúde, superação pessoal e integração social. A corrida é um dos esportes mais antigos e democráticos do mundo, parte disso vem do fato de que o equipamento necessário para praticá-lo são apenas roupas apropriadas e um par de tênis, nada muito sofisticado e caro.

Entretanto, nem todos os corredores vivenciam esse espaço da mesma maneira. Nos últimos anos, a participação de pessoas trans em competições esportivas passou a ocupar o centro de debates nacionais e internacionais, levantando discussões sobre inclusão, regulamentação, direitos e preconceito. Enquanto entidades esportivas revisam regras e especialistas discutem critérios de participação, atletas trans continuam enfrentando desafios que vão além da preparação física e da busca por melhores resultados. Entre os principais empecilhos estão o preconceito e a discriminação, que as vezes sofrem pelos próprios companheiros (as) de competição. Além dos questionamentos levantados sobre a participação na modalidade pela suposta vantagem esportiva, levando a proibição de disputar as principais competições do mundo e a rejeição da sociedade.

Por isso, tem se tornado cada vez mais importante debater sobre a transfobia no esporte, principalmente no Brasil, onde é considerado uma violação grave e equiparado ao crime de racismo. Esta reportagem busca compreender como a transfobia se manifesta nas corridas de rua e de que forma os atletas trans têm ocupado esses espaços. A partir da análise do contexto esportivo, da legislação brasileira e da trajetória de uma corredora que ganhou visibilidade nacional, o trabalho discute os desafios, as controvérsias e as transformações que marcam a presença de pessoas trans nas pistas brasileiras.

POPULARIZAÇÃO DAS CORRIDAS

A corrida de rua, como conhecemos,surgiu no ano de 1776 a.c nos jogos olímpicos da Grécia Antiga. Além desse evento, temos relatos de corridas no Egito e na Ásia, seja em eventos militares e religiosos ou uma manifestação cultural dos povos africanos. As corridas de rua têm tido crescimento notável no Brasil nas últimas décadas, no ano de 2026 consolidou seu aumento referente aos anos anteriores destacando-se como fenômeno social, econômico e cultural. A principal competição brasileira de corrida de rua é a de São Silvestre, que teve início no ano de 1924 e é realizada no último dia de cada ano. Na cidade de Mossoró esse movimento reflete sobre a prática esportiva e o hype que têm ganhado os hábitos de cuidado com a saúde e bem-estar, a expansão do calendário de provas que acontecem no município demonstra como a corrida de rua ganhou força neste cenário.

O Brasil possui atualmente cerca de 15 milhões de corredores, houve também um aumento no número de corridas oficiais que impulsionou o mercado esportivo e o setor de eventos, refletindo financeiramente na realidade do país e o Rio Grande do Norte é um dos estados que acompanha essa expansão, apresentando crescimento contínuo, especialmente, em Mossoró. No território mossoroense a corrida de rua vem ganhando força por meio de eventos esportivos realizados por instituições públicas que demonstram o aumento da participação da população e o fortalecimento do cenário esportivo local, essa melhoria se dá através da descentralização desses eventos. Além disso, existe a iniciativa “Eco Run Mossoró” que combina o esporte com as pautas contemporâneas, promovendo ideias como sustentabilidade e qualidade de vida ampliando o acesso às corridas.

A prática também favorece o desenvolvimento econômico local, movimenta o turismo, comércio esportivo, alimentação e prestação de serviços renovando a cultura onde experiências coletivas assumem cada vez mais seu espaço na sociedade.

INSERÇÃO DE PESSOAS TRANS NAS CORRIDAS DE RUA

Por conta das corridas de rua virem se tornando um espaço cada vez mais diverso nos últimos anos, as pessoas trans fazem parte desse montante de novos atletas amadores e profissionais que estão ocupando esses espaços. A presença dessas pessoas nas competições tem ampliado bastante as discussões sobre o tema, e o debate sobre inclusão e respeito à identidade de gênero. Apesar dos avanços na inclusão dessas pessoas na modalidade, muitos desafios ainda são enfrentados, como o preconceito e a falta de reconhecimento da identidade de gênero. Atualmente, a inserção de pessoas trans em competições se dá principalmente por meio do reconhecimento da identidade de gênero dos participantes durante as inscrições nas provas. Em muitos eventos, corredores trans já podem se inscrever de acordo com o gênero pelo qual se identificam, sem a necessidade de se registrar na categoria correspondente ao sexo em que a pessoa nasceu. Além desse reconhecimento, a crescente visibilidade de corredores trans têm contribuído para o crescimento e ampliação dessas pessoas nas corridas de rua.

Além das mudanças no processo de inscrição desses participantes, organizações e entidades esportivas estão buscando adotar medidas para tornar o ambiente das corridas um espaço mais acolhedor para corredores trans. Medidas como o uso do nome social e a criação de políticas de combate à descriminação, são iniciativas que estão sendo implementadas em diferentes eventos pelo país. Especialistas afirmam que a inclusão de pessoas nas corridas de rua está relacionada à garantia do direito ao esporte e participação social. O fato das corridas de rua serem uma modalidade praticada ao ar livre e normalmente aberta ao público geral, faz com que ela esteja mais acessível a todos os perfis de atletas, vindo a possuir grande potencial para se tornar um importante espaço de diversidade e convivência.

ENTENDA OS TERMOS:

Cisgênero

Pessoa cuja a identidade de gênero corresponde ao sexo que lhe foi atribuído ao nascer. Por exemplo, um homem cis é uma pessoa que foi designada como do sexo masculino ao nascer e se identifica como homem. Da mesma forma, uma mulher cis foi designada como do sexo feminino ao nascer e se identifica como mulher.

Pessoa trans

É o termo utilizado para a pessoa cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo aatribuído ao nascer. Inclui mulheres trans, homens trans e outras identidades trans. Ou seja, uma mulher trans é a pessoa que foi designada homem ao nascer e se identifica como mulher. Homem trans é a pessoa que foi designada mulher ao nascer, porém se identifica como homem.

Transgênero (Trans)

São todas as pessoas que não se identificam com o sexo que lhe foi atribuido ao nascer. Inclui homens trans, mulheres trans, pessoas não-binárias (que não se identificam exclusivamente como homem ou mulher), travestis, entre outros. Ou seja, refere-se essencialmente à identidade e à forma como a pessoa vive e se reconhece no mundo.

Transexuais

É um termo mais específico da transgeneridade. Geralmente, a pessoa transexual sente um forte desejo de alterar suas características físicas originais por meio de tratamentos hormonais ou cirurgias de redesignação sexual, porém esses procedimentos não definem, por si só, a identidade da pessoa.

O QUE É TRANSFOBIA E O QUE A LEI DIZ SOBRE

A transfobia é o preconceito direcionado a pessoas transexuais, transgênero e travestis que rejeita a identidade de gênero que não seguem os padrões de cisnormatividade. Podendo se consolidar diferentes formas como a violência física, psicológica, exclusão social e institucional, invisiabilizando suas vítimas e reforçando esteriótipos.

No ano de 2019, a transfobia foi equiparada ao crime de racismo reconhecidamente pelo Supremo Tribunal Federal mas os percalços que as vítimas desse tipo de preconceito enfrentam se estendem para cenários maiores, como por exemplo o Comitê Olímpico Internacional que vetou a participação de mulheres trans em competições da categoria feminina refletindo diretamente no caso apresentado. Prevista por lei n° 7.716/89 Art. 2º: A Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023) Pena: reclusão, de 2 dois a cinco anos, e multa. Apesar da jurisdição, episódios de exclusão social ocorrem com frequência e necessitam de atenção e reparo.

QUEM REGULAMENTA AS CORRIDAS DE RUA?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, nem todas as corridas de rua seguem exatamente as mesmas regras. Embora a modalidade seja amplamente praticada em todo o país e reúna milhares de participantes todos os anos, a organização e a regulamentação dessas provas podem variar de acordo com o tipo de competição, o nível dos atletas envolvidos e as entidades responsáveis pelo evento.

No Brasil, as competições oficiais de atletismo estão vinculadas à Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), entidade responsável por organizar e regulamentar a modalidade em âmbito nacional. A CBAt, por sua vez, segue diretrizes estabelecidas pela World Athletics, federação internacional que define regras para provas de atletismo em diversos países. Essas normas abrangem aspectos técnicos das competições, como critérios de participação, categorias, procedimentos de arbitragem e requisitos para reconhecimento de marcas e recordes.

Em eventos de alto rendimento, especialmente aqueles que servem como classificatórios para campeonatos nacionais e internacionais, os regulamentos costumam seguir rigorosamente as determinações dessas entidades. Nesses casos, atletas, organizadores e federações estaduais devem obedecer a critérios previamente estabelecidos para garantir a padronização das competições e a validade dos resultados obtidos.

Já nas corridas de rua de caráter amador, que representam a maior parte dos eventos realizados no país, a situação é um pouco diferente, embora muitas provas sejam registradas junto às federações estaduais ou sigam orientações da CBAt, os organizadores geralmente possuem maior autonomia para elaborar seus próprios regulamentos. Isso significa que questões relacionadas às categorias de inscrição, formas de premiação, critérios de classificação e exigências para participação podem variar de uma corrida para outra.

Essa flexibilidade permite que os eventos sejam adaptados às características de cada público e localidade, mas também pode gerar diferenças significativas entre competições. Enquanto algumas provas possuem regulamentos detalhados e específicos para diferentes situações, outras apresentam regras mais genéricas ou deixam determinadas questões em aberto. Como consequência, participantes podem encontrar critérios distintos dependendo da corrida em que se inscrevem.

Nos últimos anos, essa realidade passou a ganhar maior atenção devido ao aumento dos debates sobre a participação de atletas trans em competições esportivas. Em muitos casos, os regulamentos das corridas de rua não previam de forma clara como deveriam ocorrer as inscrições, classificações e premiações de pessoas trans. A ausência de orientações específicas abriu espaço para interpretações divergentes por parte de organizadores, atletas e do próprio público.

Além disso, o cenário esportivo internacional também passou por mudanças. Organizações como o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a World Athletics revisaram suas recomendações e políticas relacionadas à participação de atletas trans, estimulando discussões sobre inclusão, direitos e critérios competitivos. Como não existe uma regra universal aplicada a todas as modalidades esportivas, diferentes entidades passaram a adotar regulamentos próprios, contribuindo para a complexidade do tema.

Nesse contexto, especialistas em direito esportivo e gestão de eventos destacam a importância de regulamentos claros, transparentes e amplamente divulgados antes da realização das provas. Regras bem definidas ajudam a garantir segurança jurídica para atletas e organizadores, reduzem conflitos durante as competições e oferecem maior previsibilidade sobre os critérios adotados em cada evento. Além disso, permitem que todos os participantes compreendam previamente seus direitos e deveres, evitando interpretações contraditórias após a divulgação dos resultados.

Foi justamente em meio a esse cenário de debates sobre categorias esportivas, critérios de participação e ausência de consenso entre diferentes competições que ocorreu o caso envolvendo a corredora Anna Gabriela. A repercussão nacional do episódio trouxe ainda mais visibilidade para uma discussão que já vinha crescendo no esporte brasileiro e evidenciou como questões relacionadas à regulamentação podem impactar diretamente a experiência dos/das atletas trans nas corridas de rua.

O ROSTO DE UM DEBATE NACIONAL: UMA HISTÓRIA QUE AMPLIOU O DIÁLOGO SOBRE A INCLUSÃO NO ESPORTE

A trajetória de Anna Gabriela ultrapassou as pistas e passou a integrar uma discussão nacional

A trajetória de Anna Gabriela ultrapassou as pistas e passou a integrar uma discussão nacional

Anna Gabriela Mendonça, atleta trans mossoroense de 27 anos e praticante do esporte desde setembro de 2022, começou a prática da modalidade como forma de superar problemas de saúde relacionados à obesidade e ao sedentarismo, além de buscar na corrida de rua, uma forma de conquistar novamente a autoestima diante do espelho. Há pelo menos um ano, se dedica integralmente aos treinos para se consolidar como uma atleta de alta performance, na qual explica que no início do processo os exercícios eram também uma válvula de escape para questões psicológicas e sociais, mas que após perceber os resultados e o bem-estar sentido ao longo dos desafios, tem buscado se aperfeiçoar cada vez mais na área. Odontóloga por formação, atriz de teatro por paixão, resistente desde o nascimento e corajosa como quem luta todos os dias para ter seu seu espaço garantido e direitos preservados, não baixa a cabeça mesmo diante dos preconceitos impostos pela sociedade, e ergue a punho a bandeira da visibilidade trans não somente dentro do seu ambiente de trabalho, mas também nas pistas e competições em que se desafia, não somente por ela, mas também por todas que estão a sua volta.

Anna Gabriela ajuda a ampliar discussões sobre a participação de pessoas trans nos espaços esportivos.

Anna Gabriela ajuda a ampliar discussões sobre a participação de pessoas trans nos espaços esportivos.

Gabs, como é conhecida e chamada, diz que se engana quem acha que para viver as corridas precisa de apenas disposição diária e treinos. Como desafio pessoal de ser maratonista, já ultrapassou a metade da quilometragem que o título carrega, e que já correu 21km seguidos em uma única competição, mas que para isto acontecer, é preciso ter disciplina, acompanhamento psicológico e uma alimentação saudável, além de realizar periodicamente exames para comprovação de que o corpo e órgãos estão em forma para continuar as disputas. Se desafiando com o desejo de ir cada vez mais longe e que como prioridade, a atleta está em fase de preparação para correr 42km ainda no início de 2027, para que alcance o seu sonho.

Recentemente, durante a premiação da Meia Maratona de Mossoró, a atleta enfrentou constrangimentos ao obter a 5ª colocação geral na categoria feminina após a realização da prova. Mesmo estando inscrita e cumprido as metas estabelecidas, a sua participação gerou insatisfação pública por parte da organização do evento ao receber o troféu, que segundo o relato da atleta, o regulamento em nada impedia a participação de mulheres trans e que há uma descriminação velada.

“Um ponto necessário para que chegue não somente a mim, mas também a outras como eu, é dar as mãos e derrubar o preconceito que existe dentro da corrida e do esporte. Hoje, em Mossoró, não existem tantas meninas que correm e entendo todos os cenários. É preciso entender os privilégios. Vejo que igualar e deixar igual, num ponto onde a gente se entende como uma pessoa trans e que nós vamos correr para ocupar este espaço, é um lugar que vejo que seria egoísmo da minha parte querer que elas corressem para ocuparmos juntas”, relata.

[embed]Ouça esse trecho em formato de áudio.

Mesmo diante das dificuldades, a corredora entende a importância e o poder de representação dentro e fora da corrida como forma de resistência e de inspiração para muitas outras meninas e mulheres trans, e que este fator não é um empecilho nem barreira para que haja discriminação nem outras formas de preconceito, e sim como um grito de quem quebra os silencios opressores e que observa o movimento como uma “sementinha que está sendo plantada para que outras possam colher os frutos futuramente”, mesmo sem saber que ela mesma poderá ou não usufruir disto, mas que está fazendo o seu papel enquanto pessoa, corredora e voz que não se cala nem baixa a cabeça.

Gabs afirma que sua trajetória nas corridas vai além de medalhas e pódios.

Gabs afirma que sua trajetória nas corridas vai além de medalhas e pódios.

Para Gabs, há muito tempo a corrida deixou de ser uma busca pelo pódio, onde o desgaste físico e mental muitas vezes esbarra na falta de acolhimento das organizações e demais corredores e passou a ser um ato de existência e autocuidado para que se mantenha a saúde mental em dia:

“Eu corro porque a corrida me mudou fisicamente e psicologicamente. Não preciso provar nada para ninguém, pois a ausência de um troféu não apaga o que conquistei com meu próprio suor. Acho que tudo isso falta ser visto com outro olhar, para além da humanidade e da sensibilidade. Ser visto com um olhar crítico e científico sobre o corpo de uma pessoa trans feminina e sobre o corpo de uma pessoa trans masculina. Então, a gente espera que haja pessoas do CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) ou de outros conselhos de federações esportivas, que vejam e que entendam o organismo de uma pessoa trans, para que a gente possa ser incluída e possa fazer valer o esforço que a gente tem e faz em todos os treinos”

Pontua a corredora, que hoje corre para dar visibilidade aos corpos trans e celebrar o amor pelo atletismo.

[embed]Ouça os relatos de Gabs e sua nova visão sobre o esporte.

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Ainda como forma de dar continuidade às práticas esportivas e encontrar apoio para não desistir da sua própria trajetória, a atleta tem como base fundamental o suporte da família, do noivo, dos amigos e do seu treinador. Esse amparo serviu como âncora. Hoje, mesmo em meio aos problemas, ela escolhe o que não a afeta e compreende que não precisa de aprovação ou aplauso público para ter a autenticação de ser uma boa atleta.

A atleta relembra com carinho o início de sua jornada. Naquela época, ela não conseguia correr nem 1 km, mas hoje, correr distâncias maiores do que imaginava de forma fácil, com respiração adequada e frequência cardíaca linear é motivo de muita alegria e orgulho. Para ela, a evolução está no ato de tentar, e para sentir o sabor da vitória de chegar, é preciso passar pela linha de começar.

Sobre o futuro, Gabs sonha com o respeito que vai além do fato de ser trans. E alerta que ela tem outras características, outras vivências e deseja desfrutar de um ambiente tranquilo, que não diminua seu corpo e permita que ela siga firme no esporte. Questionada sobre o que falaria para outras meninas trans, ela diz:

“Digo que ela comece. Comece, porque o início é o start de tudo. E que, juntas, nós podemos fazer história, podemos mudar o mundo. Eu prometo que todo o esforço e toda a luta que eu tenho travado, mesmo que não sirvam para mim, servirão para ela. Prometo que ela irá desfrutar de um futuro mais tranquilo no esporte”, conclui.

Entre desafios e conquistas, a corrida continua sendo seu ponto de chegada e partida.

Entre desafios e conquistas, a corrida continua sendo seu ponto de chegada e partida.

INCLUSÃO, COMPETIÇÃO E OS LIMITES DO CONSENSO

O caso de Gabs está longe de ser um episódio isolado, nos últimos anos a participação de mulheres trans em competições esportivas, incluindo a corrida de rua, tem sido um dos tema mais debatidos no cenário esportivo internacional. O assunto mobiliza atletas, pesquisadores, especialistas, entidades esportivas, movimentos sociais e até órgãos públicos, revelando um debate que dificilmente pode ser traduzido em uma resposta simples.

Uma das razões para a dificuldade da resolução deste problema é que nos debates diferentes princípios entram em contato, enquanto de um lado estão, o direito à inclusão, a não iscriminação e a dignidade do outro surgem discussões relacionadas a competitividade esportiva e a busca por condições supostamente ditas como justas de disputa. Em muitos momentos esses princípios parecem apontar para diferentes caminhos, o que contribui para a ausência de um consenso. Para defensores da participação de mulheres trans nas categorias femininas, o esporte deve ser um espaço de inclusão e pertencimento, e impedir a participação de atletas com base em sua identidade de gênero pode reforçar processos históricos de exclusão vividos pela população trans. Essa perspectiva ganha ainda mais força quando se observa que os desafios das pessoas trans vão além do ambiente esportivo.

Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

Fonte: Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA).

Dados de organizações da sociedade civil e de pesquisas acadêmicas apontam que pessoas trans são expostas à violência, à evasão escolar, desemprego e entre outros. esses indicadores ajudam a contextualizar pro que a discussão sobre inclusão no esporte costuma ser associada a debates mais amplos sobre cidadania, direitos e acesso a oportunidades. Nesse contexto, a prática esportiva é vista não apenas como uma competição, mas também como um direito das pessoas trans necessitam correr, treinar, participar de provas e estar presente em comunidades esportivas que representam formas de socialização e bem estar. Para muitos atletas, excluir pessoas trans desses espaços significa ampliar barreiras já existentes.

Por outro lado, há quem defenda que determinadas modalidades esportivas exigem critérios específicos para garantir equilíbrio competitivo. Parte dos especialistas argumenta que características físicas adquiridas durante a puberdade masculina podem influenciar o desempenho em algumas modalidades, mesmo após processos de transição hormonal. Esse entendimento tem sido utilizado por federações esportivas para justificar a criação de regras próprias para participação de atletas trans em competições de alto rendimento.

A discussão se torna ainda mais difícil porque não existe uma resposta única válida para todos os esportes, as exigências físicas de uma maratona são diferentes das encontradas na natação, no vôlei, no levantamento de peso ou no atletismo de velocidade. Por essa razão, diversas entidades esportivas passaram a desenvolver regulamentos específicos, levando em consideração as características de cada modalidade.

Nos últimos anos, organismos internacionais abandonaram a ideia de uma regra universal e, em vez disso, passaram a atribuir maior autonomia às federações esportivas para definir seus próprios critérios de elegibilidade. Como consequência, diferentes modalidades passaram a adotar regulamentos distintos, criando um cenário marcado por interpretações variadas e frequentes controvérsias. Para compreender como essas mudanças ocorreram ao longo do tempo, a seguir apresentamos uma linha do tempo da participação de atletas trans no esporte e das principais decisões que marcaram esse debate.

Infográfico elaborado pelos autores com base em documentos e diretrizes do COI.

Infográfico elaborado pelos autores com base em documentos e diretrizes do COI.

Essa falta de uniformidade faz com que o debate ultrapasse os limites do esporte profissional e alcance também as competições amadoras. Embora muitas corridas de rua não possuam o mesmo grau de exigência técnica observado em eventos de elite, discussões semelhantes passaram a surgir nesses espaços. Questões inicialmente restritas a organismos esportivos internacionais passaram a fazer parte da realidade de organizadores, corredores e comunidades locais. Ao mesmo tempo, especialistas alertam para o risco de que discussões legítimas sobre regulamentos esportivos sejam confundidas com manifestações de preconceito. Nem toda discordância sobre critérios de participação configura transfobia. Da mesma forma, nem toda crítica ao preconceito elimina a necessidade de discutir regras esportivas. A dificuldade está justamente em separar argumentos baseados em evidências e regulamentações de discursos que utilizam o debate esportivo como justificativa para discriminação.

É nesse ponto que muitos dos conflitos se intensificam. Enquanto algumas pessoas enxergam a presença de mulheres trans nas competições como uma questão de direitos e inclusão, outras entendem o tema principalmente sob a ótica da competitividade. Entre essas posições, surgem interpretações intermediárias, propostas de adaptação de regulamentos e tentativas de conciliar interesses que nem sempre parecem compatíveis.

O resultado é um debate que permanece aberto. Mais do que definir vencedores e perdedores em uma discussão pública, a questão desafia o esporte contemporâneo a encontrar formas de equilibrar inclusão, respeito, segurança jurídica e critérios competitivos. Independentemente das respostas adotadas por cada modalidade, o tema continua provocando reflexões sobre quem pode participar, em quais condições e de que maneira o esporte deve lidar com a diversidade presente na nossa sociedade.

Enquanto essas respostas seguem em construção, histórias como a de Anna Gabriela mostram que a discussão não acontece apenas em documentos, regulamentos ou decisões institucionais. Ela também se manifesta nas pistas, nas arquibancadas e na experiência cotidiana de pessoas que buscam, acima de tudo, o direito de praticar o esporte que escolheram.

REPORTAGEM ELABORADA POR ACADÊMICOS DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN) PARA A DISCIPLINA DE JORNALISMO ESPORTIVO.

PROFESSOR: FABIANO MORAIS

PRODUÇÃO: ALLANY MOURA E HADIEL MEDEIROS.

ENTREVISTA: HADIEL MEDEIROS.

REPORTAGEM: ALLANY MOURA, HADIEL MEDEIROS, PAULO DANIEL, GERMALLI SOUZA E CRYSLAINE FERREIRA.

FOTOS: ANNA GABRIELA.


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