E se a adolescência fosse algo a mais?
O episódio de abertura é tão moroso, que logo fez com que eu entendesse exatamente o que a série queria de mim. Realmente eu não iria sair
E se a adolescência fosse algo a mais?

imagem por: NSC Total
Minha primeira reação quando a minissérie “Adolescência” (2025) apareceu no catálogo da Netflix foi um completo desinteresse, porque o nome não me chamou atenção. Sim, a minha geração é fútil assim, a gente julga o livro pela capa.
Passado um tempo e algumas indicações (veja, novamente, fútil: somos facilmente influenciados), eu decidi assistir. E em menos de uma noite finalizei os 4 episódios de 1h, enfim indo contra o imediatismo de vídeos curtos, barra de rolagem infinita e conteúdos instagramáveis da minha própria geração. E, já dando um spoiler do final do meu texto, é exatamente isso que a série retrata: como o movimento de toda uma geração (que, neste caso, é duas mais recentes que a minha) pode influenciar num incidente tão brutal quanto o assassinato cometido por Jamie, o garoto de 13 anos, que matou Katie, sua colega de escola.
Seguindo a minha linha de raciocínio geracional, ao terminar o último episódio eu fui fazer o que nós, millenials, sabemos fazer de melhor: investigar toda possível informação existente sobre a série. E, para a minha surpresa, quando cheguei nas avaliações eu vi uma quantidade dividida de opiniões: quem não gostou, criticou exatamente a falta do dinamismo tiktoker da série, bem como o fato de não ter explicações “de mão beijada”, exigindo bastante pensamento crítico. Mas quem gostou, entendeu que o ponto-chave da série realmente não era esse. Seu objetivo não era entregar respostas fáceis sobre o crime, nem refazer a relação entre Jamie e Katie ou detalhar o julgamento do garoto; mas, sim, explicitar os elementos que, sim ou não, poderiam talvez quem sabe ter relação com o assassinato.
Família disfuncional? Não. Agressão, álcool e drogas? Não. Peer pressure? Não. Bullying e vingança comprovadamente identificados? Não. Transtorno mental diagnosticado? Não. Então o quê? Pois é! Eu também não sei. Lembra que esse não era o objetivo da série?*
*Peer pressure: pressão dos colegas

imagem por: Correio Braziliense
O episódio de abertura é tão moroso, que logo fez com que eu entendesse exatamente o que a série queria de mim. Realmente eu não iria sair dali com um veredito (justo eu, psicóloga, acreditei na inocência do menino até o último segundo, não importavam os fatos); o que iria acontecer ali era passar por cada momento, cada agonia dos pais, cada angústia do adolescente, cada burocracia da polícia britânica — não muito diferente da norteamericana ou brasileira —, cada impacto do mundo digital e cada violência física ou verbal dos professores e colegas sem cortes. Literalmente sem cortes. Porque a ideia de realizar a série em plano-sequência foi o mais genial da produção inteira, haja vista que só dessa forma conseguiríamos focar no ângulo (de novo, literalmente!), em vez de no resultado final.
Fosse a culpa do adolescente que só apareceu quando foi pego, que poderia estar relacionada a algum transtorno mental. Fosse a escolha dele por ter o pai do seu lado, e não a mãe — inclusive ignorando a presença feminina a todo momento —, que poderia estar relacionada a socialização masculina. Fosse o ato falho que Jamie teve na conversa com a psicóloga, que poderia estar relacionado às relações humanas. Fosse o significado dos emojis* nas legendas do instagram, que poderia estar relacionado aos perigos da comunicação virtual atual. Então o quê? (A essa altura do campeonato você já sabe o que vou dizer.)*
A série nos incita a pensar menos na causa-consequência, e mais no trajeto que todos nós percorremos com os erros que cometemos. Erros, estes, que às vezes são criminosos e precisarão de punição. Outras vezes, que serão apenas uma ponte para futuros aprendizados. E, em outras, que podem passar despercebidos, se o telespectador não reparar naquele ângulo específico.
No fim das contas, se prestarmos atenção na série pela ótica do trajeto, poderemos iniciar discussões sobre masculinidade, misoginia, internet, bullying, psicopatia e, acima de tudo, sobre adolescência. E a adolescência é aquele período da vida em que tudo isso acontece ao mesmo tempo, com pouquíssima experiência trazida da infância e raramente sob o olhar inteligente de um adulto. A gente nem percebe quando é que a adolescência acaba de fato!
Talvez por isso que o nome da série me desinteressou tanto — porque ele não me disse nada, assim como ninguém me dizia nada nos meus tempos de adolescente. Ninguém, também, sabia como lidar com o boom do virtual, com o bullying “que na época nem se chamava assim” ou com rejeições amorosas.
Olhando para trás, a maior diferença entre minha geração e a geração do Jamie, a Alpha, seja a forma como lidamos com a incerteza proveniente disso: nós, millenials, crescemos tentando dar sentido ao mundo com referências que mudavam rápido demais; já a geração de Jamie cresce em um cenário de hiperconectividade e imediatismo, sem sequer a ilusão de controle, sem explicações definitivas pra nada, num ambiente em que tudo pode ser questionado, mas não necessariamente há espaço para refletir.
No fim, talvez estejamos todos tentando a mesma coisa: entender como chegamos até aqui e o que fazemos com isso. Mas os limites entre o real e o virtual estão cada vez mais confusos — e é aí que mora o perigo.
Será mesmo que é tênue a linha entre eu ter conseguido me tornar uma adulta madura e sem grandes erros, e os adolescentes que cometem atrocidades com a de Jamie?
메타데이터
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- 2026-06-28 04:42:08