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Assombrações

Até que ponto o passado consegue causar tamanho temor?

tiêgo · 2026-06-09 01:55 · 0 claps · 5.6 min read
#autobiography #fiction #escola #adolescence #trauma
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Assombrações

Até que ponto o passado consegue causar tamanho temor?

2009 in a nutshell. Foto minha, acervo pessoal

2009 in a nutshell. Foto minha, acervo pessoal

Tio, pega pra mim?

Um bacurizinho puxa a barra da minha bermuda e aponta para um pacote de jujubas, cintilantes, coloridas e embebidas de um açúcar cristalino e nada convidativo a quem vivia estritamente as ranhuras da reeducação alimentar. Eu me assusto com a abordagem repentina, mas pego o pacote e entrego ao garoto, para receber um sorrisão e um honesto “obrigado”. Ele se vira, corre em direção a outra prateleira, eu o perco de minha vista parcialmente prejudicada pela ausência de óculos e torno a procurar o frasco de stevia que me levava até ali.

Encontro. Eu coloco o frasco minúsculo junto aos demais itens que compunham a cesta já levemente pesada e rumo para o caixa, pensando que teria 40 minutos para 1) chegar em casa, 2) tomar banho, 3) me arrumar, 4) revisar um texto e 5) me preparar para falar sobre ele para alguns colegas e alunos. Recalculo mentalmente o tempo necessário e dou risada. Eu poderia ter faltado à academia para fazer isso tudo com mais calma, mas preferi ir e sentir uma leve dor depois do treino de peito. Tem horas que nem eu me entendo.

Ao passar próximo da prateleira de laticínios, o bacuri das jujubas passa próximo de minha perna, com o pacote do doce aberto e já parcialmente devorado. Ele me nota, mostra o sorriso bonito e pergunta se eu quero. Fico impressionado com a gentileza do gesto e aceito uma, por pura imprudência e educação. Ele me entrega duas, olha para trás e dá no pé ao ouvir o grito grave entoar “ADAM!” pelas minhas costas.

Eu me arrepio inteiro antes de virar e notar quem era o dono da voz. E ele me reconhece imediatamente, para meu absoluto terror.

Não acredito que é tu, mano! Quanto tempo!

Nem eu. Poderia ter sido muito mais tempo. Talvez para sempre. Um nunca mais para sempre.

Bryan.

Um desgosto latente avassala minha expressão. Do alto dos trinta e tantos anos, não consigo mais esconder. Era desesperador lidar com tamanha surpresa desagradável. Bryan vem até mim, aperta minha mão e me puxa para um abraço inesperado. Ele não havia mudado uma vírgula. Era idêntico a como eu me recordava. Eu tremo de leve. Estranho toda aquela cerimônia, sobretudo porque ele aparenta ter esquecido de ir atrás da criança.

Espera. Já volto.

Eu não espero. Perco ambos de vista e caminho para a fila ligeiramente grande no caixa mais amistoso. Sete pessoas até a minha vez. Respiro fundo e torço para que o repente não tenha passado de uma visagem.

Eu preciso colocar esse moleque na rédea curta, diz ele, trazendo um contrariado Adam nos braços. Sorrio para a criança e lembro que ainda tenho duas jujubas na mão esquerda. Ela sua, tempestuosamente. Sou incapaz de controlar. Disfarço, coloco as jujubas na boca e digo que Adam é até bem educado para quem precisa de uma rédea curta.

Bryan ri e bagunça de leve o cabelo do menino. Esse é meu único filho, explica. Foi minha mudança de vida. Nem sei o que seria de mim sem ele.

Meu coração acelera. Até o tom de voz de Bryan muda. Não o reconheço.

Tu tá diferente, Pedro. Tá mais forte, mais bonito. O que tem feito da vida?

Recebo as palavras com o despertar de um transe de alguns segundos. É estranho notar esse nível de interesse por mim. Logo por mim, um saco de pancadas ambulante. Não, havia algo de muito errado. Ou eu estava entendendo errado.

Obrigado, consigo finalmente entoar, envergonhado. Hoje eu sou professor universitário. Bryan parece me analisar, curioso. Minha fala está pausada, entrecortada. Escolho as melhores palavras. Ele parece notar isso. Coloca Adam no chão, puxa o carrinho para perto e diz tu mal parece aquele moleque que corria de mim na educação física, lembra?

Essa memória martela minhas ideias desde que eu me entendo por gente naquela condição esmagadora. Estou na quadra poliesportiva da escola, exercendo um comportamento nada desportivo: dou risada dos erros dos meninos nos fundamentos do vôlei. Eu treino para não passar vergonha e sei que sou bom. Bryan não é e isso me satisfaz em níveis inimagináveis. Eu sou melhor do que ele em alguma coisa. Ele é bom com os pés, chutando em direção ao gol, não com manchetes, saques e bloqueios. Temos a mesma altura e competimos em pé de igualdade, mas eu não poderia esconder a satisfação de ver a frustração estampada no rosto dele e da meia dúzia de garotos corpulentos que o acompanhavam. Bryan nota meu sorriso e eu não faço questão de esconder.

Eu vou socar esse viado.

Corro pela quadra, surpreendentemente rápido para os meus padrões. Minhas pernas compridas servem para algo, afinal. Bryan desiste de me alcançar. Ele sabe que eu vou estar em sala à tarde e que vamos nos encontrar. Eu só paro de correr quando me vejo em frente à sala da banda marcial da escola, da qual também faço parte. Do vidro, enxergo o meu tarol, posicionado bem ao lado do primeiro bumbo, impecavelmente enfeitado por minha amiga Diana. O toque sincronizado da banda ressoa em minha cabeça e tamborilo meus dedos em minha coxa. É quase um sinal para que eu vá embora. Dois minutos depois, o sinal toca. Eu vou. Avisto o ônibus se aproximando e relembro da habilidade de corrida. Corro. Apanho o coletivo, arfando, e vejo Bryan passar emburrado com os escudeiros. Sorrio, por fim. Depois eu me viro para lidar com eles.

Tio, cuidado!

Adam me traz para a realidade porque não percebo o pacote de macarrão integral escapando da cesta. Bryan é quem apara a embalagem e a recoloca. Natureba, todo fit, comenta ele. Disque, rebato. Fico feliz por te ver bem, mano.

Eu queria poder dizer o mesmo com honestidade. Sou incapaz e confesso o fato à mente.

Eu também, Bryan. É muito bom saber que tu viraste um homem de verdade, deixo escapar. Ele estranha a afirmação, mas sorri.

Eu tenho vergonha do meu passado, confessa. A fila anda. Adam caminha à nossa frente e pede para ficar sentado na parte debaixo do carrinho. Eu ando, quase contando os centímetros dos meus passos. Olho para baixo, gesto involuntário. Bryan mexe os pés, impaciente. Toda vez que encontro alguém daquela época, sou obrigado a lembrar de quem eu era e a ter vergonha de tudo aquilo.

Ele encara Adam e sorri, distante. Entoa, por fim: desculpa, Pedro.

Sinto que vou deixar a cesta cair das mãos. Não posso organizar as palavras na mente. Meu cérebro não consegue assimilar o peso daquela palavra, uma mísera palavra, ansiada por mim durante três longos anos. O ensino médio foi uma das piores experiências da minha vida e eu me defrontava com um dos principais responsáveis por tanto trauma ali, estático, pedindo desculpas em frente ao filho e a mim. Inacreditável.

Já se foram dezesseis anos desde o fim da escola, Bryan, falo, comedido. O que tinha para ser esquecido, já foi. Minto. Quem apanha jamais esquece. Eu não esqueço. Rememoro a violência com frequência. É ela quem me impulsiona a jorrar palavras deste modo. Aprendo a ressignificá-la. Violência e dor. Ele sabia disso melhor do que ninguém.

Eu sei que não foi, Pedro. A fila anda. Noto pessoas atrás de nós. O celular de Bryan vibra nas mãos de Adam. Pai, é a mamãe. Eu leio Pétala e um emoji de coração no nome do contato. Ele pede licença e atende. Poucos segundos depois, ele puxa o carrinho e diz esqueci de coisas e a mãe dele lembrou agora, frisa. Vou lá, mano. Foi bom te ver, Pedro. Estende a mão. Vamos tomar um café um dia desses e jogar conversa fora. Vai ser bom trocar ideia contigo depois de todo esse tempo. E me abraça.

Eu escuto isso e imediatamente dou risada. Claro, vais saber onde me achar. Meu sobrenome é Sozinho. Pedro Sozinho. Longe de ser o James Bond, mas fui alvo de piadas durante boa parte da vida por conta desse nome. Bryan lembra disso. Sozinho, né? Ele ri. Eu concordo.

Penso nos sentidos de sozinho. Talvez eu não esteja mais tão só. Bryan dá as costas e não percebo quando ele cruza a última prateleira do atacadão, porque meu olhar está tão distante quanto as memórias que me circundam e inundam todos os meus dias. A atendente do caixa chama um sonoro senhor, caixa livre e sou alertado pela senhora atrás de mim.

Eu também queria estar livre.


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