VERDADE? VERDADES!
A QUESTÃO DA VERDADE NO ÚLTIMO LACAN
VERDADE? VERDADES!
A QUESTÃO DA VERDADE NO ÚLTIMO LACAN
Maria Bernadette Soares de Sant´Ana Pitteri

Imagem gerada por I.A.
Verdade, assunto corriqueiro na Filosofia desde a Grécia Antiga, aparece nas disputas dos filósofos com os retóricos e os sofistas, seus principais adversários. Retóricos, numa linha relativista, propunham-se a desenvolver a arte do “bem dizer” — arte da retórica –, ensinando aos alunos como discursar sobre o mesmo objeto, de forma positiva ou negativa, sempre de modo convincente. Impossível não lembrar Lacan que diz ser a ética da psicanálise, a “ética do bem dizer”. Diferença fundamental entre o “bem dizer” da arte da retórica e o “bem dizer” da ética, que se refere ao inconsciente. Os sofistas, professores itinerantes altamente remunerados, propunham-se a desenvolver nos jovens cidadãos a virtude política (arethé), baseada na premissa de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas, das que são como são, das que não são como não são”. Ao relativismo sofístico e retórico, os filósofos opõem a verdade para além de tais relativismos, ou seja, verdade num sentido universal. Para Platão, verdade só poderia ser contemplada, ideal a alcançar, mas impossível de ser colocada em palavras, ou seja, verdade no sentido místico. Aristóteles propõe verdade como correspondência: as coisas devem corresponder às palavras (lógos) e estas ao pensamento. Santo Agostinho explora a questão do significante/significado, o que chamou a atenção de Lacan; no entanto, para Agostinho de Hipona, a verdade é revelada, provém do ser supremo, Deus. Em Hegel, filósofo que influenciou o primeiro ensino de Lacan, a verdade aparece no movimento dialético-triádico: tese, que afirma uma verdade; antítese, que aponta o furo nesta verdade; síntese, que tenta conciliar tese e antítese. Ou seja, a síntese conserva algo de tese e de antítese para ascender a um nível superior, o que transforma a síntese imediatamente numa nova tese. Kant, por outro lado, postula que a conformação mental do ser humano só lhe permite acesso ao fenômeno da coisa; no entanto, a coisa em si, isto é, a verdade da coisa em si, está fora do alcance do ser humano. Mas como pensar a verdade em época de pós-verdade, que nega os fatos, em época de fake news, que cria fatos? Nos tempos atuais, não se vislumbra uma possibilidade de definição universal de verdade. Estamos vivendo uma nova era da Sofística, no sentido em que esta relativizava a verdade a partir do humano que a proferia? Para Jacques Lacan, em seu retorno a Freud, a verdade tem outro estatuto — a verdade opera a partir do inconsciente, deixa-se mostrar através das formações do inconsciente: sonhos, atos falhos, chistes, sintomas. No texto A Coisa Freudiana de 1955¹, Lacan, no parágrafo “A Coisa fala de si mesma”, afirma que “Eu, a Verdade, falo”, quer dizer, o sujeito não é o dono absoluto de sua fala, pois é a verdade que fala nele. Ou, como disse Freud, “o homem não é senhor em sua casa”, em Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917). Neste texto, Freud argumenta que a humanidade teve seu amor- próprio ferido por três grandes descobertas científicas: Copérnico com a chamada “revolução copernicana”, desloca o planeta Terra do centro do universo que era a crença da época, e coloca o Sol em seu lugar, passando do geocentrismo ao heliocentrismo; Darwin descreve a teoria da evolução em “A Origem das Espécies”, onde propõe a seleção natural: indivíduos com características mais vantajosas para o ambiente, sobrevivem, reproduzem-se e transmitem essas características aos descendentes. Além do mais, o que foi um escândalo, todos os seres vivos compartilhariam um ancestral comum, explicando a diversidade atual como resultado de ramificações e modificações ao longo de milhões de anos, o que contradiz frontalmente a criação veiculada na Bíblia Sagrada. A psicanálise, inventada por Freud, demonstra o inconsciente, demonstra que a verdade emerge do inconsciente, contornando os limites da linguagem. Quem fala é o inconsciente, que se manifesta em suas formações: a verdade tem estrutura de ficção e emerge nos intervalos do discurso. A verdade não é algo a ser descoberto ao final de uma análise, mas a força motriz que causa o sujeito e provoca o desejo surgindo como efeito do real — a dimensão do impossível, isto é, o que não pode ser dito e resiste à simbolização. Já que falamos de real, torna-se importante fazer uma distinção entre verdade, real e simbólico. Para Lacan, a distinção entre verdade e os registros do real e do simbólico é fundamental para entender como o sujeito se posiciona no mundo e na linguagem. O simbólico é o campo da palavra, das leis, da cultura, dos signos funciona como uma rede que tenta dar sentido a tudo. É o lugar onde a verdade habita, pois a verdade só existe se for dita, mesmo que mentirosa. O real é o que escapa à linguagem e ao sentido; não é a “realidade” como a entende o senso comum, mas o que resiste a ela. Ou seja, o real não é o verdadeiro. A verdade possui uma estrutura de ficção construída no simbólico; não é um fato concreto, mas uma narrativa que o sujeito cria sobre sua história. O motor da verdade é o real — a verdade surge para tentar contornar ou responder ao impossível do dizer. Enquanto o real é inacessível, a verdade é a fresta por onde esse real se manifesta na fala, através das formações do inconsciente. Lacan dirá no final de seu ensino que só há acesso a “pedaços de real”. VERDADE COMO FICÇÃO A verdade, em sua estrutura de ficção, está inserida na linguagem comum; com a decadência da verdade impõe-se recorrer ao real, que não tem estrutura de ficção, não é absorvido pelo simbólico. O privilégio da psicanálise lacaniana é a relação que sustenta com o real. Como diz Miller:
“que a verdade tem estrutura de ficção é algo completamente certo, mas, de uns tempos para cá, a estrutura de ficção cobriu a verdade, a incluiu, a absorveu. Sem dúvida, a verdade prospera nela, se multiplica, se pluraliza, mas está quase morta. Ante a decadência ficcional da verdade, impõe-se recorrer ao real como o que não tem estrutura de ficção².
O “caso Dora”, de Freud, descrito e analisado por Lacan em Intervenção sobre a Transferência ² exemplifica a verdade como estrutura de ficção. Dora chega a Freud e conta uma história convincente — a verdade estruturada como ficção –, ou seja, é a história que corresponde à “realidade” e que ela conta para si mesma e para o analista, tentando dar sentido a seu sofrimento. Essa verdade habita o campo do simbólico. Durante a sessão, ao fazer seu relato, Freud a confronta com sua posição na história que ela conta e na qual surge como se não tivesse qualquer participação, o que Hegel chamou de “bela alma”. Isso a faz retomar a história de outro modo, ou seja, a palavra do analista rompe a narrativa, trazendo algo que ela não conseguia formular nem admitir para si mesma. Ao pontuar a posição de Dora e a posição em que a mesma se colocava, Freud promove uma reviravolta, como disse Lacan; com esta intervenção, a afirmação da verdade que ela trazia se desmorona. Dora não é mais apenas a vítima passiva, o objeto de troca entre o pai e o Sr. K para que seu pai e a Sra. K continuem sendo amantes, mas se depara com sua própria implicação no sofrimento que apresenta. A palavra do analista rompeu a ficção e a forçou a construir uma nova verdade sobre o seu desejo: é o momento em que aparece a figura da Sra. K. VERDADE COMO CAUSA O conceito de verdade como causa aparece com clareza no texto “A Ciência e a Verdade” de 1965³ e também no Seminário 11⁴, aonde Lacan dialoga com a filosofia e a ciência. A verdade opera como causa material do sujeito do inconsciente. O sujeito é causado pelo fato de ser um “ser de linguagem”, o que mais tarde ele chamará de parlêtre (falasser). A verdade tem uma estrutura de ficção, mas é o motor da busca do sujeito. O sintoma, nesta época, é visto como uma mensagem cifrada que busca deciframento — revelar a verdade do sintoma significaria decifrá-lo. Nesse momento do ensino de Lacan, pode-se dizer que a análise caminha na direção de fazer o sujeito assumir a verdade sobre o seu desejo inconsciente, desejo recalcado. VERDADE SEMI-DITA Lacan, ao contrário dos filósofos, abordando a questão de um ponto singular, o ponto que importa à psicanálise que é o do sujeito, diz que:
“Sempre digo a verdade: não-toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível, materialmente: faltam palavras. É por esse impossível, inclusive, que a verdade tem a ver com o real⁵”.
A verdade não é o real, e o significante articulado apenas contorna o real; o real é o que é buscado pela verdade, busca impossível, por sinal. Se a verdade é da ordem do simbólico, do impossível de tudo dizer, se é não-toda por estrutura, está condenada a mentir. VERITÉ/VARITÉ — VERDADE/VARIDADE Há em Lacan a sugestão de que se alcance “a verdade”? Nenhum pretensão! Se a verdade é não-toda, a mentira fatalmente entra na linguagem, e a verdade se torna mentirosa. Lacan vai falar de varidade, de verdade variável, no Seminário 24⁶.
“O que um enunciado tem a ver com uma proposição verdadeira? Seria preciso se esforçar, como enuncia Freud, para ver sobre o que está baseado esta alguma coisa na qual está suposta a verdade. Seria preciso se abrir à dimensão da verdade como variável, o que chamarei varidade, com o ‘e’ de variedade engolido⁷.”
O conceito de varidade (varité) aparece de forma explícita na lição de 19 de abril de 1977 do Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Este título do Seminário 24 é um complexo jogo de palavras e de homofonias, sendo praticamente intraduzível. Baseia-se em jogos de sonoridade da língua francesa: L’insu que sait: o não-sabido que sabe, soa no francês como l’insuccès (o insucesso); de l’une-bévue: de um equívoco, soa como l’Unbewusst, termo alemão para inconsciente; s’aile à mourre: cria, lança suas asas em direção à morte, soa também como c’est l’amour (é o amor). Trata-se do último Lacan, que privilegia o equívoco na análise. Nesta lição (10 de 19/4/1977), Lacan introduz o neologismo “varité”, juntando vérité (verdade) e variété (variedade); condensando as duas palavras, ele engole o “e” para denotar a variedade da verdade. Lacan propõe, nesse momento de seu ensino, que, para entender o que Freud fundou sobre a verdade, é preciso “abrir-se à dimensão da verdade como variável”. Para ele, o analisante não conhece a sua verdade e não pode dizê-la por inteiro, pois fala sem saber o que diz; o que impede a verdade total de ser dita é o impossível, o real, o que escapa à linguagem e à representação. Diante disso, Lacan conclui que “o que o analisando diz, esperando verificar-se, não é a verdade, é a var(ie)dade do sinthoma”. Nesta lição ainda, Lacan diz que o analista deve aceitar as condições do mental, colocando em primeiro plano a debilidade, definida como a impossibilidade de manter um discurso contra o qual não haja nenhuma objeção. O discurso humano é, por natureza, falho e variável. Ele mesmo se diz um débil, como todo mundo. Resumindo. na “verdade como causa”, buscava-se a verdade oculta atrás do sintoma: o sintoma era a máscara que ocultava a verdade do sujeito. Com o conceito de “varidade”, o sintoma torna-se sinthoma e é o que há de mais real e permanente no sujeito, ou seja, não se trata de eliminá-lo. A verdade é apenas a variação narrativa (varidade) que o sujeito cria ao redor desse sinthoma; é o simbólico que contorna o real para conseguir com o impossível. A diferença central entre a “verdade como causa” (do início/meio do ensino) e a varidade (do Seminário 24) marca a transição de um Lacan focado no poder da fala e do simbólico para um Lacan que se volta para o real do gozo, para teoriza os nós e o sinthoma. Em sua teoria clássica, a estrutura do sujeito dependia do Nome-do-Pai que mantinha juntos Real, Simbólico e Imaginário (RSI). Analisando a obra de James Joyce, Lacan subverte a própria teoria, comete o que ele chama de heresia — o abandono da ilusão de que existe uma lei universal que pacifique o gozo do sujeito. O Nome- do-Pai é rebaixado ao status de mero sintoma e introduz o quarto nó — o sinthoma. O sinthoma (com a grafia arcaica) é a solução que Lacan encontra ao estudar James Joyce — não é algo a ser curado, mas sim a base da estrutura do sujeito, o resto incurável. Sinthoma, amarração, quarto nó, é o que Lacan chama de heresia teórica e clínica. Trata- se de um saber fazer próprio a cada sujeito singular e substitui a necessidade do referencial paterno e divino pela invenção do próprio sujeito — como foi a escrita para Joyce. Ao falar de heresia no final de seu ensino, especialmente no Seminário 23, Joyce, o Sinthoma, Lacan resgata a raiz etimológica da palavra grega hairesis que significa escolha, ato de escolher por si mesmo. Desse modo, ser herético em relação ao sinthoma significa abrir mão de uma verdade universal ou de um padrão provindo do Outro; trata-se de abandonar a ilusão da verdade como totalidade e passar a sustentar uma solução singular, uma invenção para o gozo próprio, que não se cura, mas pode, no máximo, ser realocado. O sinthoma nada quer dizer, não esconde uma verdade recalcada — é um bloco opaco de gozo. A escrita de Joyce em Finnegans Wake não visa contar uma história que seja compreensível, mas apresentar a materialidade da letra vazia de sentido. Joyce não escreveu para ser decifrado, mas para se “fazer um nome” na literatura⁷. O sinthoma herético dispensa o aval, a aprovação ou a interpretação do Outro. O sinthoma não se desfaz com a interpretação, é o mais íntimo do sujeito. A heresia do sinthoma é a emancipação do sujeito em relação ao Outro. Ao invés de se pautar por um sentido ou uma verdade universal, o sujeito (herético) assume a autoria de sua própria amarração existencial, reconhecendo que o que importa é a “varidade” de sua própria invenção singular. A diferença fundamental entre o sintoma neurótico clássico, do início do ensino de Lacan, e o sinthoma herético do final de seu ensino (extraído da leitura que faz de James Joyce) reside no modo como o sujeito se relaciona com a linguagem, com o sentido e com o gozo. Na clínica do final do ensino de Lacan, o objetivo não é transformar o sujeito em alguém sem sintomas, mas sim levá-lo a abandonar o sofrimento provocado pela neurose para que alcance o sinthoma herético, sua invenção própria e singular, o saber-fazer aí (savoir-y-faire) com seu gozo. Se a verdade se localiza no simbólico e gira em torno do incurável do sinthoma, o final da análise não pode ser a “descoberta de uma verdade final”, mas a mudança de posição de “querer compreender” o sintoma para manejar o sinthoma (savoir-y-faire). Ao final da análise, com o advento do saber-fazer aí, o sujeito descobre que a linguagem é fundamentalmente falha, o que Lacan chama de debilidade mental. Resta saber operar com o resto. E neste sentido, o sinthoma é o próprio de cada um, do absoluto singular, não se está mais no regime da verdade que passeia pelo simbólico, mas no real do gozo.
¹ Lacan, J. A Coisa Freudiana. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. ² Lacan, J. Intervenção sobre a transferência. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. ³ Lacan, J. A Ciência e a Verdade. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. ⁴ Lacan, J. O Seminário, livro 11 — Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. ⁵ Lacan, Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 508. ⁶ Lacan, J. Seminário 24, Lição 10–19/4/1977 — inédito. ⁷ Joyce, na interpretação de Lacan, tinha uma falha, uma fragilidade no imaginário. Seu sinthoma — o ato herético de escrever e manipular as palavras de modo próprio — foi o quarto nó que funcionou como um grampo artificial que amarrou o real, o simbólico e o imaginário.
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