Um abraço em Hannah: sobre enfrentar abusos e violências aceitando ser amada e acolhida
Dicas para enfrentar crises de pânico e tempestades emocionais
Um abraço em Hannah: sobre enfrentar abusos e violências aceitando ser amada e acolhida
Dicas para enfrentar crises de pânico e tempestades emocionais

A amizade entre Hannah Wells e Allie Hayes dos livros de Off Campus: Amores Improváveis
Ouça ao som de:
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Eu tive que quebrar, eu tive que me curvar
Eu tive que me perder pra finalmente ver
Eu sou a garota que eu sou
Por causa da garota que eu costumava ser
Ella Brigth
Eu sou uma sobrevivente, e não uma vítima. Ser uma adulta funcional envolve desafios de gente grande. Sair de casa sozinha, por vezes, é o meu.
Tenho dificuldade para sair do pânico que me dá toda vez que preciso deixar a casa e realizar tarefas que parecem simples. Tenho fobia social e uma sensação de medo ao me ver cercada por pessoas que não conheço.
Ir ao mercado? Ir ao médico? Ir a uma farmácia? Ir para uma praça caminhar? Sair para uma loja comprar algo? Tudo isso é, quase sempre, uma questão de vencer meus traumas. E até mesmo ir para o trabalho às vezes me deixa com pânico. Virar a chave, deixar de lado as certezas de segurança, dar as costas para a porta de um abrigo e ir é sempre uma vitória.
Viajar sozinha e ir ao show de Caetano Veloso e Maria Bethânia foram conquistas que precisei colocar na minha prateleira, mesmo enfrentando as crises que surgiram no processo e na trajetória até essas conquistas.
Com isso, eu também não consigo me abrir facilmente com pessoas que não conheço. A escrita virou o único caminho possível para isso. Mas algumas pessoas se utilizaram do meu dom para transformar minhas vulnerabilidades em armas contra mim e, por um tempo, eu perdi a coragem de deixar a escrita me salvar de tudo isso.
Por vezes, achei que ser escritora havia se encerrado. A vida sempre acha novos caminhos e há uma esperança sempre a apontar, com leve ventania, as direções inolvidáveis.
Todas as vezes em que me abri para me relacionar, eu me machuquei. Então, desenvolvi uma espécie de couraça de solidão e solitude disfarçadas de casulo. Apenas, foi o jeito que encontrei para me defender e me autoproteger, sabe?
Mas eu quero deixar isso na caixa dos traumas superados e, hoje, quero falar sobre crise de pânico e sobre os caminhos que podemos construir para sobreviver a ela. Quero dividir algumas coisas que têm me ajudado e que talvez possam ajudar alguém que esteja lendo isso agora.

E essa inspiração nasceu depois de assistir a Hannah Wells, personagem que ganhou destaque devido à estreia da adaptação oficial em série de TV na Prime Video, Amores Improváveis — Off Campus. O livro faz parte de uma famosa série de romances universitários escrita pela autora Elle Kennedy. O viral mundial faz jus ao sucesso, principalmente para quem ama romances com cara dos anos 1990 e 2000. Fica a dica, caso você deseje se apaixonar também.
Quando me tornei adulta e fui morar sozinha, eu não conseguia sair só para nada. Com a terapia e muitas outras ajudas, fui construindo pequenas pontes até que isso fosse possível e até conseguir ter pequenas vitórias sobre mim mesma. E talvez a primeira dica que eu possa dividir sobre isso seja essa:
1 — Respeite seus pequenos passos
Podem ser passinhos de formiguinha. Eles ainda são passos. Respeite-os. E, se não conseguir dar nenhum passo, acolha-se também. Você está se protegendo. Você está no caminho e vencendo.

2 — A violência sofrida não define quem você é
Voltando a Hannah Wells: preciso deixar claro que ela sofre um abuso sexual durante o ensino médio. Um garoto, filho de gente importante, droga sua bebida e abusa dela. Depois disso, ela enfrenta uma sequência de violências sociais e institucionais que nem cabem aqui. Mas o que mais me atravessou foi perceber como a personagem desenvolve um pânico de ser ela mesma. Isso me fez pensar em como voltamos a caminhar pelo mundo depois que somos quebradas, principalmente quando nossos corpos foram violentados.
O estupro muda a vida de quem vivencia isso. E, infelizmente, homens e mulheres passam por esse trauma ainda muito jovens, às vezes ainda crianças. As marcas ficam. O estresse pós-traumático e os traumas derivados podem desencadear feridas profundas, inclusive crises de pânico.
Os abusos que Hannah sofreu eu não vivi na pele. Mas tenho amigas e familiares que viveram situações parecidas e posso afirmar que: a violência deixa uma assinatura na gente, mesmo depois da vida adulta. Porém, ela não define quem somos. Ainda bem!

3 — Os monstros sempre saem do armário
Tenho minhas próprias cicatrizes. E talvez o que nos una seja justamente isso: muitas de nós desenvolvemos hipervigilância depois da violência. Vivemos em alerta, tentando nos defender o tempo inteiro. Isso cansa e paralisa. Perdemos tantas coisas e vivências por medo de acontecer de novo, ou de algo parecido nos afetar de modo irremediável.
Eu, por exemplo, não bebia até os 26 anos por causa da violência física e psicológica do meu pai, que foi alcoólatra em vida. E isso também me fez pensar nos traumas do namorado de Hannah na série, Garrett Graham. Ele é um dos protagonistas da história, em que ambos enfrentam juntos esses traumas depois que começam um romance falso que, aos poucos, se torna fofo e cheio de cumplicidade.
A narrativa dele também me tocou profundamente. Só que a série mostra outra verdade; não importa o quanto tentemos esconder o passado, às vezes os monstros saem do armário. E aí trememos. Ficamos sem ar. O medo vira pânico.
Não há como construir um futuro sem curar essas dores ou aprender a fazer delas novas narrativas. E a sorte é ter quem acolha isso por perto, sem que sejamos novamente violentados. Bonito é ter pessoas que constroem espaços seguros para sermos apoiados, e não julgados, quando nossos mundos internos transbordam.
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Passar a vida inteira procurando por alguém Para me dar um amor como você
(The Foundation, por Ella Bright)

4 — Você não é culpada
E talvez uma das coisas mais cruéis seja sentir culpa pelo que fizeram com a gente. Como se tivéssemos provocado. Como se pudéssemos ter evitado. Como se fosse nossa responsabilidade impedir a violência do outro. Então, talvez a principal coisa que eu queira nos dizer seja: você não é culpada.
Não se culpe por ainda reagir ao que aconteceu ou pela sua dor mais profunda. Você ainda está aprendendo a andar. Respire, acolha as dores e depois volte para o ringue da vida. Nós estávamos apenas vivendo. Tentando existir. E ninguém merece ser violentado por isso. Siga sendo quem era antes, e também quem se tornou depois daquilo que te fez sangrar. Somos sobreviventes!

5 — Continue jogando a vida com força e coragem
Outra coisa que venho aprendendo no meio das crises de pânico é a coragem de continuar, mesmo com medo. Porque enfrentar o medo não acontece de forma cinematográfica. Às vezes, é só conseguir levantar da cama. Ir à padaria. Sentar sozinha em uma sorveteria. Comprar algo para si mesma e voltar para casa em segurança. Dançar com o que foi feito de nós e aprender a amar a si mesma nessa trajetória. Voltar a respirar depois da tempestade de emoções negativas. Elas passam, e os dias bons chegam. “O sol vai voltar amanhã, mais uma vez”.
Eu me sinto uma vencedora todas as vezes que consigo fazer isso. Talvez pareça pequenininho para os outros, mas, para mim, é gigante. Que alívio poder me acolher sem me acusar. E talvez você também precise sentir isso nesta nova etapa da vida.

Carrie Wells, mãe de Hannah na série
6 — Aceite ser amada e acolhida
E aqui vai outra dica importante: faça terapia. Ouça seu terapeuta e vá aceitando o amor dos seus amigos. Escute a sua família quando ela te acolher de verdade. Isso ajuda a criar julgamentos mais leves consigo mesma, para depois conseguir caminhar com mais segurança sendo quem você é.
Hoje consigo entender também que o amor das pessoas que realmente se importam ajuda a salvar a gente das consequências da violência. Isso me toca profundamente. Porque talvez seja por isso que essa série Amores Improváveis tenha me atravessado tanto. Essa travessia demonstra que nós nunca estaremos totalmente prontos para sermos amados depois das nossas “tempestades emocionais”. Que lindo é quando alguém escolhe ficar e, ainda assim, nos amar e proteger.
Quem assistiu a série viu, em uma conexão, o que a mãe de Hannah fez por ela. A Sra. Carrie Wells não sabia, mas acho que ela curou algumas pessoas quebradas naquele momento. No fim, acho que um dos caminhos mais bonitos para sobreviver ao pânico é perceber como nossos pais, irmãos, amigas e amigos podem ser nossas verdadeiras “almas gêmeas” nesta terra.

7 — Bora cuidar dos nossos vulneráveis?
Por fim, houve momentos em que eu queria colocar Hannah no colo durante os episódios. Em outros, pensei nas minhas amigas e irmãs que passaram por isso tudo e senti ainda mais amor por elas.
Então, desejo desesperadamente que homens e mulheres aprendam a proteger seus amores e as pessoas vulneráveis. O amor está em cuidar, e não em ferir, drogar, manipular ou violentar corpos, mentes e corações.
Que o amor seja o caminho, sempre!
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Você me empurra em círculos
Até a borda da Terra
Onde eu não posso ir mais longe
Até que eu comece a voltar para você
메타데이터
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