#8 Caderno de Artista: Luci Sacoleira
Luci Sacoleira nasceu em Fortaleza. É graduada em arquitetura e urbanismo e atua como artista visual desde 2011. Participou de projetos de…
#8 Caderno de Artista: Luci Sacoleira

**Luci Sacoleira** nasceu em Fortaleza. É graduada em arquitetura e urbanismo e atua como artista visual desde 2011. Participou de projetos de animação, de festivais de arte urbana, de exposições coletivas e trabalha principalmente como ilustradora de livros.
Os cadernos de Luci são liberdade e diversão

Encontro Luci (e seu cachorrinho Nino) em sua casa, no bairro Benfica, em Fortaleza. Ela tem muitos cadernos e faz uma seleção de alguns, cada um carregando histórias muito particulares para me mostrar. Ao folheá-los, fica evidente que esses cadernos não funcionam apenas como suporte de desenho, mas como território de experiência, memória e afeto.
Luci tem formação em arquitetura e comenta que seu estilo de desenho, mais lúdico, de traço solto e figurativo, foi acontecendo de maneira orgânica ao longo do tempo. Como ela mesma diz: “O jeito que eu desenho é um jeito que eu não penso muito, é quase como uma criança quando vai desenhar, ela só desenha e pronto. A não ser quando tenho desenhos de trabalho, que preciso apresentar esboços e estudos prévios para aprovação. Mas eu acho que no fundo eu sempre fico buscando acessar esse lugar de quanto eu tô desenhando no caderno. Nem sempre eu consigo quando é um trabalho contratado de ilustração, eu me sinto como se existisse um ‘olho’ observando o processo, como se eu tivesse que atender àquele olhar. Não é a mesma coisa do caderno, que é mesmo um espaço de liberdade pra mim”.
“Eu sempre fico buscando acessar esse lugar de quanto eu tô desenhando no caderno.” — Luci Sacoleira, 2026.

Ela também varia muito os materiais e técnicas, como ressalta:* “Tem caderno de todo jeito. Vou testando, gosto muito da textura da esferográfica, então tem desenho que é mais mancha, tem outros que são mais linha”. *A “desobediência” é central no modo como ela se relaciona com o caderno. O que começa organizado logo se contamina com o cotidiano: anotações soltas, receitas de bolo, desenhos feitos enquanto espera em algum lugar.
O caderno acompanha a vida: vai na bolsa, passa de mão em mão, vira espaço de troca com o filho:“Tem caderno que, por exemplo, penso em fazer todo vermelho, mas depois de um tempo desrespeito a regra, eu mesma me desobedeço. Fico me desobedecendo o tempo inteiro. Então tem caderno que até pode começar organizado, mas aí vou inserindo anotações, receita de bolo, ou vou sair e ele tá na bolsa, e na hora de esperar começo a desenhar com meu filho, e aí vem a intervenção dele também, hoje ele já é um rapaz, mas têm páginas com desenhos dele de mais novo, porque desde que ele era criança temos esse hábito”.

Nesses trechos de sua fala, é possível ver que o caderno para a artista é um espaço acima de tudo de se desprender de qualquer amarra: “Quando você trabalha com o desenho, você, em algum momento, tem que ter um espaço de não levar ele tão a sério. A criação é pra ser livre. A minha busca é de ficar sempre acessando esse lugar do brincar, do não se levar tão a sério”.
“Caderno de artista, pra mim, é um espaço de brincadeira.” — Luci Sacoleira, 2026.
Quando você começou a cultivar o Caderno de Artista?

Pergunto quando ela começou a cultivar o caderno de artista, e Luci responde com certa dificuldade em precisar um início exato. O processo se mistura à criação de sua marca, Sacoleira, em 2011: “Quando eu tava pensando um nome, eu entendi que cabia tudo na sacola da sacoleira. Eu não queria me fechar numa só coisa”.
O nome já carregava a ideia de multiplicidade e liberdade: fazer bonecos, desenhar, escrever, experimentar, sem se amarrar a uma única linguagem. Antes disso, Luci trabalhava no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Durante a gestação do filho, algo mudou: “Foi uma gestação do meu filho e da Sacoleira”. Naquele período, influenciada por blogs de artistas e artesãs portuguesas, começou a se interessar por bonecos de pano, livros ilustrados e narrativas visuais ligadas à infância. Os primeiros trabalhos vinham carregados da influência dessas referências, mas aos poucos assumiram um traço próprio.
Quando deixou de trabalhar no IPHAN, a artista decidiu se arriscar. Juntou dinheiro para a transição de carreira e passou a viver de suas criações: vendia bonecos, participava de feiras, trabalhava com tecido e bordado. Em algum momento, sem perceber exatamente quando, o papel substituiu o tecido: “Depois fui fazendo pôsteres, curso de escrita criativa, já muito interessada em livro ilustrado. Passei perrengue, mas fui insistindo e as coisas foram melhorando”.
O caderno atravessa toda essa trajetória como espaço de ensaio, experimentação e sustentação do processo criativo.
O livro-caderno alemão

Luci mostra um livro-caderno de artista que diz ter ganhado justamente com a intenção de que fosse transformado nisso. O resultado não poderia ser mais interessante, uma narrativa visual com cores semelhantes e técnicas distintas.

Ela comenta que não tem o hábito de revisitar seus cadernos, faz e esquece, embora isso venha mudando aos poucos: “Eu ia para uma feira e tava querendo produzir mais material e não tava com tempo, então voltei a algumas imagens que eu tinha selecionado dos cadernos e fiz prints”.
Durante a pandemia, participou com a zine Linhaça do projeto Zines de um Ano que Não Existiu, organizado por Weaver Lima, no qual selecionou desenhos dos cadernos para a publicação. Foram momentos pontuais de retorno ao próprio arquivo, de se apropriar da própria construção: “Às vezes, eu volto e incorporo novos elementos aos desenhos”.
O caderno nascido de uma imersão de ilustração

Em 2018, a artista foi para uma imersão de ilustração em Jiquiriçá, na Bahia, chamada “Desenhar com o Coração”, que foi organizado pela editora Solisluna, o encontro foi conduzido pelos ilustradores Gusti e Ciça Fittipaldi e estruturado a partir dos quatro elementos da natureza.
Os artistas desenhavam em situações específicas: em frente à fogueira, à beira da água, usando a mão não dominante. Cada participante levou um caderno e materiais de desenho de sua preferência. Foi nesse contexto que esse caderno nasceu.
Segundo Luci, a experiência foi um divisor de águas — ela voltou diferente.

Nas primeiras páginas é possível ver um desenho ainda muito ‘preso’ e certinho, mas que aos poucos foi ficando mais solto. Ela conclui: “Foi legal eles pedirem pra gente levar um caderno porque ficaram esses registros, essa memória que é bem inesquecível”.
Quando o caderno ocupa o espaço expositivo

Em 2025, Luci participou de uma exposição na Caixa Cultural chamada “Subsequência”, com curadoria de Weaver Lima, onde a proposta era expandir o quadrinho ao espaço de ‘galeria’, uma espécie de releitura.
O projeto apresentado por Luci foi o “Revistas Caderno”. No espaço expositivo, havia 12 Revistas Caderno e um mostruário que permitia ao público folhear uma amostra dos trabalhos, ela explica: “Eu gosto de pegar revista e transformar em caderno, e pensei em criar uma “anuidade”, daí separei umas revistas Piauí que eu tinha de cada mês do ano, porque aí eu incorporei no processo criativo alguns desenhos e palavras dessas revistas”.

Nessa escolha para a exposição, a artista se viu criando os desenhos de forma muito livre, o que fez ela ter mais acesso a si mesma: “Quando eu comecei eram 12 revistas para preencher em um tempo curto, os desenhos eram produzidos o mais rápido que eu conseguia, eu não podia pensar muito, não tinha como elaborar demais. E isso eu achei massa. Era fazer um desenho e seguir em frente. Quando eu vi tudo que eu tava acessando em mim, eu achei incrível. Pensei: ‘Posso experimentar fazer isso em outras criações, lançar um prazo e jogar comigo mesma”.

“Eu não consegui completar todas as revistas para a exposição, mas eu iniciei um processo e pretendo fechá-lo. Eu fui experimentando muita coisa nas Revistas Caderno, teve muita página com resultado legal, quero fazer um livro ilustrado usando a mesma técnica”. Por exemplo, na imagem abaixo, em que ela pintou os retângulos em vermelho e passou lápis dermatográfico por cima.

Cada Revista Caderno segue o mês do ano e seus respectivos temas que foram traçados pela artista, o que a ajudou a orientar a criação dos desenhos e não deixar tudo tão solto, colocando alguns limites. Os temas foram: janeiro = metas; fevereiro = sereias e iemanjá; março = chuva e carnaval; abril = povos indígenas e a natureza; maio = mãe, feminino; junho = fogueiras, vulcões, são joão; julho = férias; agosto = ventos; setembro = primavera; outubro = crianças, brincadeiras; novembro = morte, finados; dezembro = natal. Capas das revistas abaixo:

Luci Sacoleira: entre o brincar e o gesto
Os cadernos de artista de **Luci Sacoleira são espaços de liberdade, em que o desenho se mistura à vida cotidiana, à maternidade, ao brincar e à experimentação. Longe da obrigação do resultado, o caderno surge como território sem vigilância, onde errar é permitido e a criação acontece de forma intuitiva e afetiva. Ao longo de sua trajetória, dos bonecos de pano ao papel, do privado ao espaço expositivo, o caderno permanece como um lugar de retorno a si mesma, de escuta interna e de invenção contínua**.

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