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Ser-para-a-Morte ou Ser-para-Deus? A Essência Revelada no Instante

A filosofia contemporânea nos ensinou a levar a morte a sério. Com Martin Heidegger, aprendemos que o ser do ser humano — o Dasein — é…

Thomas Aleknovic · 2025-05-11 19:23 · 0 claps · 2.7 min read
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Ser-para-a-Morte ou Ser-para-Deus? A Essência Revelada no Instante

A filosofia contemporânea nos ensinou a levar a morte a sério. Com Martin Heidegger, aprendemos que o ser do ser humano — o Dasein — é, antes de tudo, um ser-para-a-morte: finito, lançado no mundo, preso ao passado por sua facticidade e projetado ao futuro por suas possibilidades. Esse ser é para a morte, pois, diante da suas possibilidades futuras, em última análise, resta a possibilidade última e sempre presente do fim existencial. É nessa compreensão antecipada da morte que o Dasein encontra sua autenticidade e revela a essência de seu ser, que é existir. Portanto, a essência do ser é sempre precedida pela existência do ser.

Jean-Paul Sartre radicaliza essa leitura: se não há essência que nos preceda, então somos condenados a ser livres, livres até demais, para criar o próprio sentido diante do abismo. A existência, sem Deus, e sem uma essência, é um projeto lançado no vazio.

Mas e se o nada não for a última palavra? E se a morte não for a possibilidade final, mas o limiar de outra existência, não construída, mas revelada? O apóstolo Paulo nos confronta com uma perspectiva inversa: “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (1Co 15.19 ACF). A esperança cristã não se limita ao tempo, ela é escândalo e salvação porque rompe com o ciclo do nascer, sofrer e morrer.

Seguindo suas raízes cristãs, Kierkegaard, considerado o pai do existencialismo cristão, enxerga além do pessimismo do existencialismo fatalista, como vimos até aqui. Para ele, a essência do ser humano não é algo que construímos ao longo da existência, mas algo que nos precede e nos define. A existência autêntica, portanto, não é invenção de sentido, mas realização de um chamado essencial. (Kierkgaard, 2022, p.41–42)

Mais do que isso: essa essência não se limita à dimensão temporal ou corporal do ser. Ela é fruto de uma síntese entre corpo e alma realizada pelo espírito, uma categoria central no pensamento de Kierkgaard. O espírito é o elo que integra essas duas realidades e torna possível a existência plena. Nesse ponto, o ser humano só se torna verdadeiramente ele mesmo, quando essa síntese acontece de forma harmoniosa, ou seja, quando ele vive como unidade espiritual diante de Deus. (Kierkgaard, 2022, p.51)

Assim, a existência não é orientada apenas para a morte, como propõe Heidegger, mas para uma vida eterna que transcende o tempo. A finitude não é o fim do ser, porque o espírito o conecta ao Eterno. O ser humano, ao descobrir sua essência em Deus, encontra não apenas um sentido para a vida, mas também um fim que vai além da morte: a eternidade.

Assim, a existência do ser deixa de ser apenas temporal e assume também um caráter eterno. Kierkegaard afirma que a intersecção entre o tempo e a eternidade se dá no instante, ou seja, o agora vivido concretamente. É nesse instante que o eterno toca o tempo, e é nele que o ser humano toma decisões que têm peso não apenas na sua trajetória temporal, mas também no seu destino eterno. Assim, cada momento presente carrega uma responsabilidade dupla: ele molda tanto a vida terrena quanto a relação do ser com o eterno. (Kierkgaard, 2022, p.92–93)

Essa relação com o eterno nos obriga a pensar para além da existência temporal, a olhar não apenas para o que está dentro do tempo, mas para aquilo que o transcende e o funda: um Criador. Embora existam inúmeros tratados apologéticos que buscam demonstrar a plausibilidade intelectual da fé cristã, quanto mais profundamente caminhamos nesse terreno, mais nos aproximamos de uma decisão que não é, em última instância, racional.

Como Kierkegaard sugere, essa vida orientada para o eterno não pode ser plenamente assimilada pela razão. A passagem do ser-para-a-morte para um ser-eterno, e finalmente para um ser-para-Deus, não se dá por um argumento, mas por um salto, o salto de fé. Fé naquele que é a fonte da esperança, não apenas para esta vida, mas para a eternidade. E é por causa dessa esperança, como disse o apóstolo Paulo, que não somos os mais miseráveis de todos os homens, mas os mais vivos, mesmo diante da morte.

SOREN, Kierkgaard. O Conceito De Angustia. CPP, 2022.


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