Gula
Te enterro hoje, com o resto de terra que utilizei para te enterrar ontem, de novo.
Gula

Te enterro hoje, com o resto de terra que utilizei para te enterrar ontem, de novo. Esgota. Acredito que, quando terminar a minha terra, te deixarei em cima de um mausoléu qualquer, dessa vez de pedra, cansei. Lide com a pedra, terra minha essa que não há de ser tocada sem premissa que agrade.
Mas tenho fome, comi a terra marrom da estepe que te enterrei por anos a fio, não sobrou quase nada, comi tudo, tenho fome. Minha gula não há de se saciar.
Encontrei uma estaca fincada em meio à estepe, jorra sangue de terra em que, numa tentativa da sede acompanhar a fome, bebo com sabedoria. Não sacia.
Já não há mais terra, nem nada para beber, me sobra a pedra. Eu quem sempre abominei pedra, agora penso em comer pedra, mas há algum mal nisso? Dura, rola pela garganta, pesa no estômago e eu tenho gastrite nervosa. Quero comer.
Não há mais nada além do teu corpo, agora no vazio. Não há terra para te cobrir, nem pedra para que eu te deixe descansar. O que me resta é terminar de comer o que há de ti.
Você sumiu. Saciei.
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