“Emicida Racional” — Mesmas Cores & Mesmos Valores
Bom dia, gente.

“Emicida Racional” — Mesmas Cores & Mesmos Valores
Bom dia, gente.
Saudade é uma palavra muito loua. Ela praticamente não existe em nenhum outro lugar. Vem do português antigo soidade/soedade, registrada desde o século XIII. Essas formas derivam do latim solitas e solitatis, que basicamente significam solidão e isolamento. No início, a palavra estava mais próxima da ideia de uma solidão objetiva: estar separado, afastado, só. Com o tempo, especialmente na lírica medieval (cantigas de amigo e de amor), o significado se desloca para um campo afetivo e subjetivo — não apenas estar só, mas sentir a ausência de alguém amado. Mas por que é difícil ter “saudade” em outras línguas? Com certeza não é porque outras línguas não expressem sentimentos parecidos, mas porque nenhuma palavra reúne a mesma combinação de sentidos. Saudade articula tempo, afeto e ausência. A palavra carrega, desde sua origem, uma verdade fundamental: só sente saudade quem se relaciona profundamente com o outro e com o tempo.
É por isso que só alguém nascido no Brasil poderia ter a sensibilidade de começar um álbum com falas de um ente que se foi — nesse caso, sua própria mãe — inaugurando um estado de saudade maior, no qual os áudios dela falando sobre coisas da vida se transformam em falas dos nossos próprios amores que se foram. Quando Leandro (Emicida), após ouvir os áudios, caminha para fora do estúdio, entramos verdadeiramente em seu interior. Nesse momento, conseguimos ouvir seu choro e, nesse fragmento de tempo, o choro dele é o nosso choro.
Agostinho de Hipona entendia que o sofrimento pela morte nasce porque a alma se acostumou ao outro. A saudade não é o retorno do que passou, mas a presença afetiva do ausente na alma. Aquilo que se perdeu continua a agir, a doer, a consolar — não no mundo, mas na interioridade. E a arte transforma a saudade em presença.

Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores é o mais novo álbum de Emicida, no qual ele faz o exercício de olhar para trás, como ele mesmo já disse em sua primeira mixtape: “quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”. Mais precisamente, Emicida olha para os Racionais MC’s a partir do disco Cores & Valores (2014), entrelaçando suas próprias questões e sua vida a esse olhar.
Na música Mesmas Cores & Mesmos Valores, Emicida começa a faixa com “sociedade secreta, maçonaria preta, domador de caneta”. Aqui, ele se coloca como parte de um grupo seleto, uma espécie de elite intelectual e criativa negra. Ao dizer que “Ibiza não é minha meta”, afirma que seu sucesso não é pautado pelo exibicionismo vazio, mas por um propósito maior. No verso “estoico, lógico, bem Mahatma”, Emicida se mostra como equilíbrio entre o estoicismo (filosofia grega de controle emocional) e a espiritualidade. Ao dizer que é “Mahatma”, ele cria múltiplas interpretações: a primeira remete ao líder espiritual e ativista Mahatma Gandhi, um homem que buscou a paz e a verdade; a segunda abre o significado da própria palavra, que vem do sânscrito mahātman, que significa “grande alma”.
Emicida segue com “arrudas, enteógenos, plumas, mão de Fátima”. Isso revela um sincretismo potente. A arruda, nas religiões de matriz africana, significa proteção; basicamente, Emicida está dizendo que sua caminhada é protegida. Enteógeno, etimologicamente, significa “manifestar o divino dentro de si”: são substâncias naturais usadas em contextos religiosos para alcançar expansão da consciência. Ele coloca seus versos nesse lugar — além da superfície, como uma porta de acesso a outras interpretações do real. As plumas podem remeter à ancestralidade indígena ou egípcia, evocando leveza de espírito. Já a mão de Fátima é um símbolo usado por muçulmanos e judeus para afastar o mal e atrair sorte, força e bênçãos. Ele fecha o verso mostrando que sua “sociedade secreta” bebe de todas as fontes sagradas.
A próxima música é “O que noiz faz com essa dor?”, o primeiro interlúdio do disco. Nos interlúdios, Emicida evidencia o amálgama que cria entre suas músicas e as dos Racionais, misturando instrumentais e criando algo novo — um entrelaçamento, uma vida nova. Nos visuais do álbum aparece algo chamado curvas de Lissajous, figuras geométricas que resultam da superposição de dois movimentos harmônicos simples em direções perpendiculares. Elas dialogam profundamente com a ideia dessas músicas em três níveis: visual, técnico e metafórico.
Na música “Finado Neguim memo?” (part. Amaro Freitas), isso se evidencia ainda mais. A música é, em essência, uma curva de Lissajous sonora. Curiosamente, percebi isso graças ao vídeo de audição dos Racionais. Quando decidi escrever sobre o álbum, revi todo o material de divulgação e, no vídeo, eles reagem a um trecho da música — mais precisamente, à reação de Edi Rock aos versos e ao flow do Emicida.
No rap, existe toda uma série de códigos sobre como reagir a um som foda, a um verso ou flow cabuloso. Esses códigos me fizeram lembrar das curvas de Lissajous dos visuais: Edi Rock vai mexendo os braços e a cabeça, seguindo o Emicida; o flow oscila, sobe e desce, usando palavras proparoxítonas que criam uma espécie de onda. O flow do Emicida é um dos eixos da curva; o outro eixo é a batida, junto com o piano de Amaro Freitas. A letra de “Finado Neguim memo?” é obcecada por geometria: “seis faces no polígono”, “miro no lóbulo”, “triângulo”, “equiângulo”, “semicírculo”. As curvas de Lissajous representam o ponto exato onde caos e ordem se fundem. Emicida usa a geometria para mostrar que não é uma coisa só. Além disso, a música é uma exibição técnica e filosófica. O título é uma ironia sobre o destino do homem negro na sociedade. As formas geométricas servem para mostrar que ele está refazendo o cálculo da vida: sua trajetória não é linear, é complexa e calculada — como ele mesmo diz, “rapper vírgula”. A citação à aponia de Epicuro indica a busca por um estado de espírito superior, longe do barulho e do ego do rap (“o rap tá monótono”). Em “humilde como um átomo, grave como um barítono”, ele brinca com escalas: o átomo, como menor unidade (humildade), e o barítono, como voz profunda e poderosa (presença). Ele é ambos. Já em “mãos ao alto como um ípsilon”, transforma a imagem da abordagem policial em símbolo gráfico e celebração, ressignificando o trauma.
Tanto em Mesmas Cores & Mesmos Valores quanto em Finado Neguim memo?, Emicida se descreve como “telúrico” e “lúdico”. Embora fale de alta costura (Chanel), cinema (Coppola) e filosofia, ele ainda é o “Augusto dos Campos Limpos”. Ele reivindica o direito do artista negro à complexidade. Não quer ser apenas o rapper que faz dançar, mas o oráculo que faz refazer cálculos de vida. Por isso, mesmas cores e valores — e, na pergunta seguinte, finado memo? Com todo esse conhecimento, acho que não.
As músicas “A Mema Praça” e “Quanto Vale o Show Memo?” tratam de períodos históricos específicos. A primeira traz Emicida, Rashid e Projota construindo um storytelling sobre o show da Virada Cultural de 2007, marcado por confronto entre público e PM. As rimas partem da perspectiva do público — afinal, os três estavam lá como público. Como as outras faixas, esta também dialoga diretamente com Cores & Valores. Em Quanto Vale o Show Memo?, Emicida percorre momentos específicos da própria vida: cenário político dos anos 1990 e 2000, representatividade, vida pessoal, ouvir Racionais com o pai e o irmão, aprender daimoku na infância com dona Tamiê, o tetra da seleção narrado por Galvão Bueno, a eleição de Lula, a morte de Sabotage. A música é um inventário de sobrevivência. Seu sucesso não é sorte, mas o resultado de ter passado ileso por um campo minado histórico.
Na última música rimada, “Us Memo Preto Zica”, Emicida atravessa todas as fases dos Racionais MC’s, misturando versos e criando algo novo — uma fusão que explicita o conceito do álbum, que ele próprio define como um “obrigado”. É assim que todo fã de rap se sente em relação aos Racionais. Eles habitam o imaginário da população preta no Brasil desde os anos 1990. Poucos grupos impactaram tanto a cultura e a sociedade brasileira. São entidades que formaram milhões de pessoas, inclusive quem vos escreve. Eu diria que os Racionais MC’s são o espírito do povo negro encarnado em quatro corpos. O Brasil ainda não entendeu o tamanho deles; espero que o gesto de Emicida ajude a entender.

O álbum se encerra com o outro: “a próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora”. Ouvimos parabéns, pássaros, sons da natureza. É o momento em que Emicida diz, sem dizer, para ficarmos no presente. Desacelerar. Após a enxurrada de letras e instrumentais complexos, ele levanta a placa de “pare”. Para mim, foi isso: um momento de meditação, de digerir o que ouvi, pensar nos silêncios, estar agora. Este é um álbum sobre presença — do Racionais, do rap, e dos nossos entes queridos, os que se foram e os que ainda estão.
Na filosofia do extremo oriente, há um ditado zen: “a neve repousa sobre as panículas dos caniços à beira-d’água; é difícil distinguir onde estes começam e onde aquela termina” (Biyan Lu). Assim como o branco da flor e o da neve se confundem, tudo se dissolve. É isso que Emicida faz: não busca a essência do Racionais, porque a essência fecha e exclui. Ele prefere o vazio, que abre espaços infinitos. Um espaço dá lugar a outro. Não há fechamento definitivo (Byung-Chul Han, Ausência). O espaço do vazio é feito de transições e interstícios. Já não sei onde começa o Leandro, a Jacira, o rap, os Racionais, o Emicida. Toda a vida flui para dentro e para fora. E eu também já não sei onde começa o Emerson, a Simone (minha mãe), o rap, os Racionais, o Emicida.
Melhor ser um guerreiro no jardim, do que um jardineiro na guerra
메타데이터
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