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A fragilidade do transporte marítimo de gado vivo

Se o consumidor conhecesse essa realidade suportada pelos animais, consumiria essa carne?

Sabrina Klein · 2026-01-07 14:33 · 0 claps · 3.2 min read
#agribusiness #carne #logistica #animais #direitos-animais
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A fragilidade do transporte marítimo de gado vivo

Se o consumidor conhecesse essa realidade suportada pelos animais, consumiria essa carne?

Cerca de 3 mil vacas, muitas delas prenhas, além de bezerros, foram embarcadas no navio Spiridon II, no porto de Montevidéu, com destino à Turquia. Cargas vivas circulam pelos oceanos em operações comerciais de exportação entre diversos países, inclusive o Brasil, movimentando milhões de dólares. O rebanho vindo do Uruguai realizou uma travessia oceânica de cerca de 13 mil quilômetros até o porto turco de Bandırma — mas foi impedido de desembarcar. A documentação veterinária exigida apresentava inconsistências.

Pela lógica comercial, um produto não aceito retorna ao dono, e os animais deveriam voltar ao porto de origem. Mas o episódio ganhou repercussão internacional, com cobertura da imprensa e manifestações de organizações de bem-estar animal. O retorno da carga viva passou a ser contestado, diante da ausência de informações confiáveis sobre a disponibilidade de ração e água, o estado sanitário e o destino dado às fêmeas mortas ao longo do trajeto.

Transportar 3 mil vacas significa lidar com animais de grande porte. Uma vaca pesa, em média, 500 quilos. Necessita de 30 a 40 quilos de forragem por dia e cerca de 60 litros de água — volume que pode ser maior em condições de calor, lactação ou prenhez. Cada animal elimina aproximadamente 30 quilos de fezes por dia. Em escala, no Spiridon II, isso equivale a cerca de 90 toneladas diárias de fezes acumuladas dentro da embarcação — volume ainda maior quando se considera a urina.

O Brasil também realiza transporte marítimo de carga viva — e em escala ainda maior. Nos últimos anos, o País realizou algumas das maiores operações de embarque de bovinos vivos do mundo. No porto de Santos, foram colocados a bordo cerca de 27 mil animais numa única viagem, no MV Nada, o maior navio boiadeiro do mundo (capacidade para 30 mil animais). O porto de São Sebastião também movimentou milhares de animais, com saídas destinadas principalmente à Turquia, Egito e Arábia Saudita.

Esse tipo de transporte tem gerado controvérsias. Em 2018, o navio Nada, carregado com 25.100 bovinos, foi retido no Porto de Santos após perícia judicial constatar que parte dos animais permanecia havia dias nos decks inferiores sobre uma camada lamacenta de fezes e urina, em condições consideradas degradantes. A operação também resultou em multas da Prefeitura de Santos — pelo forte odor que atingiu a cidade. Contudo, decisões de instâncias superiores autorizaram a partida do navio, restabelecendo a continuidade da atividade, mesmo diante das evidências de violação de bem-estar.

Os navios utilizados nessa operação comercial são antigos e foram originalmente projetados para outros tipos de carga, sendo adaptados com vários andares para comportar animais vivos em longas viagens oceânicas. Os animais viajam sobre pisos metálicos sem drenagem adequada, expostos ao calor acumulado e a limitações de ventilação, confinados a espaços mínimos.

Em 2012, uma carga viva de 5.200 bovinos foi embarcada no navio Gracia Del Mar no porto de Rio Grande (RS) rumo ao Egito. Durante a travessia, uma falha no sistema de ventilação provocou a morte de aproximadamente metade dos animais, e autoridades egípcias recusaram o desembarque por questões sanitárias. Sem autorização de nenhum porto para recebê-los, os bovinos sobreviventes foram abatidos a bordo e as carcaças descartadas no mar, num episódio que repercutiu internacionalmente.

No Pará, em 2015, no porto de Vila do Conde, o navio MV Haidar naufragou com 5 mil bois e cerca de 700 toneladas de óleo, espalhando carcaças por quilômetros de praia e provocando colapso ambiental e econômico em comunidades ribeirinhas ao longo do rio Pará e de seus igarapés. A embarcação permanece submersa até hoje. Além do impacto direto sobre os animais, esse modelo logístico impõe custos ambientais e riscos sanitários às populações humanas que vivem próximas aos portos, frequentemente ausentes do cálculo econômico dessas operações.

O transporte marítimo de animais vivos expõe a não observância das Cinco Liberdades definidas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), que estabelecem padrões mínimos de bem-estar, como acesso à alimentação e água, conforto térmico e físico, prevenção de dor e doenças e possibilidade de expressão de comportamentos naturais. No caso do Spiridon II, organizações de proteção animal relatam que nenhuma dessas condições foi plenamente atendida, com oferta insuficiente de ração e água, ventilação limitada, calor acumulado e alta densidade de confinamento, fatores associados a enfermidades, abortos, estresse fisiológico e exaustão.

A logística do transporte marítimo de animais terrestres vivos opera no limite físico e biológico dos animais. O impacto não se limita ao país embarcador ou desembarcador: reverbera na cadeia produtiva, no meio ambiente, no bem-estar animal, nas populações que vivem próximas aos portos e, sobretudo, levanta uma pergunta incômoda — se o consumidor conhecesse essa realidade suportada pelos animais, consumiria essa carne?

Opinião por Sabrina Klein

Engenheira agrônoma


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