A colagem e Varda: o trajeto amoroso para as mulheres em uma sociedade patriarcal
pensar a colagem e o recorte através do filme As Duas Faces da Felicidade, de Agnès Varda
A colagem e Varda: o trajeto amoroso para as mulheres em uma sociedade patriarcal
pensar a colagem e o recorte através do filme As Duas Faces da Felicidade, de Agnès Varda

(Cena de abertura do filme. Fonte: San Francisco Museum of Modern Art)
Calhou de, na mesma semana, eu preparar as bases de uma oficina de colagem que darei no mês que vem em Brasília e assistir ao filme As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur), dirigido por Agnès Varda. Embora o longa não tenha nada a ver com cola e tesoura, uma das belezas do processo criativo é poder alimentá-lo com todo tipo de insumo para que o objetivo final não seja apenas e meramente o objetivo final.
Lançado em 1965, As Duas Faces da Felicidade conta a história dessa criatura que tem um bom trabalho, dois filhos lindos e uma esposa perfeita, Thérèse. François, o nome da criatura. Apesar de parecer muito feliz e satisfeito vivendo momentos familiares idílicos em uma cidadezinha bucólica na primavera, o homem acha por bem começar a ter um caso com Émilie, funcionária dos correios onde ele ia de vez em quando telefonar a serviço. Um crédito eu dou ao protagonista: assim que a esposa perguntou porque ele andava tão pimpão no último mês, ele contou a verdade muito tranquilo, dizendo que estava feliz a mais porque tinha uma amante, então nada estava faltando pra ninguém. Bravo, François. Acontece que depois da verdade, Thérèse aparece morta em um lago e o viúvo vai largando os dois filhos pra serem criados por parentes enquanto introduz Émilie na sua vida familiar até o ponto em que ela passa a prover a felicidade dele (e, em segundo lugar, das crianças), exercendo os mesmos papeis rotineiros da esposa falecida.
O filme traça uma analogia com as estações do ano, permitindo que Varda se utilize de cores estonteantes e arranjos florais belíssimos para fazer o paralelo com a vida desse homem tão feliz. Começamos pela primavera, passamos pelo verão, e chegamos até o outono, quando François reconstroi sua felicidade através de um núcleo familiar que nunca alcançará o inverno posto que uma mulher, seja ela quem for, sempre estará à disposição para exercer a função de mãe e esposa. As cenas iniciais e finais do longa são muito similares: quatro personagens de mãos dadas representando uma família feliz passeando em lindos campos sob o sol. Mas uma diferença gritante é a trilha sonora do final, que é bastante sombria, juntamente com uma iluminação mais fria. Repare também na diferença de cores das vestimentas, especialmente a dele, que vai conforme a banda toca.

(Cena final do filme. Fonte: The Criterion Collection)
Puta da vida com François, terminei o filme e comecei as leituras para organizar a estrutura da minha oficina de colagem. Vamos pegar ali três horinhas de um sábado pra tratar sobre o corpo poético da imagem, construindo ou desconstruindo as possibilidades de corte a partir de um diálogo com ausência/presença do corpo humano. Daí me deparei com o artigo de Fernando Fuão sobre uma abordagem amorosa para a colagem, no sentido de equiparar o processo criativo da técnica com um amor finito: a captura, o recorte, a liberdade dos fragmentos recortados, os encontros das imagens fragmentadas, a colagem e o eventual desgrudamento.
Roland Barthes explica que, no trajeto amoroso, o primeiro ato é ser raptado por uma imagem. Tipo François lá, vendo Émilie todas as vezes que ia aos correios para fazer um telefonema, a conversinha mole antes de pagar o serviço, a percepção da beleza dela, o sentimento de felicidade naquele minuto. Através da câmera, Varda recorta o interesse romântico em quadros separados: Émilie, sentada no balcão, olhando pra ele na cabine telefônica. Ele falando com alguém no aparelho enquanto olha pra ela. Imagens que se capturam mutuamente e, assim, se recortam, se separam do resto e tornam-se livres para o encontro. Daí vem o segundo ato com os encontros na praça, François ajudando na mudança de Émilie, o primeiro beijo, a compreensão dela com o casamento do parceiro (que ela soube desde o início). Os corpos presentes das personagens no processo dos encontros, recortados de tudo o que não seja aquele momento entre os dois que, justamente por isso, é feliz.
O terceiro ato barthiano, a tragédia final, seria a continuação do amor com a ameaça constante da decadência inerente a todas as picuinhas em um relacionamento a dois: a colagem e o provável desgrudamento. No filme, François foi esperto. Seu casamento perfeito com Thérèse se manteve idílico até o fim e o fato de ele iniciar um caso extraconjugal não representou nenhuma decadência — pra ele. Pelo contrário, ele passou a viver mais alegrinho, recortando-se na companhia de cada uma das mulheres da sua vida, mas jamais libertando-as dele mesmo ou sequer imaginando que elas poderiam querer essa liberdade. Enquanto ele se manteve na possibilidade dos encontros, elas permaneceram coladas à felicidade dele, incapazes de buscar a própria satisfação em outras capturas e encontros. O vazio deixado por Thérèse no seu ato derradeiro de desgrudamento, o suicídio, é imediatamente substituído pela imagem de Émilie, recortada para caber no exato espaço em branco da esposa morta. Entretanto, o método manual do recorte na colagem impossibilita a reprodução exata de um corpo se as imagens fragmentadas são diferentes (ou até muito similares, como no caso de Émilie e Thérèse, duas jovens brancas, magras e loiras). O encerramento sombrio do filme de Varda deixa claro que embora tudo pareça bem, as coisas não são as mesmas e a estrutura nuclear da família é uma farsa sustentada pela performance da mulher sob o domínio masculino.

(Thérèse felizinha recebendo a notícia da amante. Fonte: Cinema Club)
“Ah bom, mas a amante sempre soube do casamento desde o princípio e provavelmente quis de bom grado assumir o lugar da esposa”, contra-argumenta meu interlocutor imaginário. De fato, Émilie não parece ser forçada a nada, e quando conhece François se mostra ser uma mulher independente e decidida. Antes do primeiro beijo entre eles, ela fala: . A forma como ela diz isso beira a hilariedade porque é exatamente o que François precisa ouvir para manter sua própria felicidade. Aqui, lembro o que Alba de Céspedes nos ensina em seu maravilhoso Na voz dela: “o papel de uma mulher que tem um homem ao seu lado é muito diferente daquele que uma mulher interpreta quando está sozinha”. Os comportamentos das duas mulheres no filme aparentam muita placidez e sim, há a possibilidade de que elas estejam de fato felizes, mas em suas performances. Mesmo com componentes de independência financeira (Thérèse faz costuras para fora), toda a vida dela foi condicionada a gravitar ao redor da de François. Quando informada da amante, Thérèse se recusa a desempenhar qualquer outro papel e se joga em um lago, tal o nível de domínio que o homem exerce sobre a vida de uma mulher.
No experimento do recorte, a um corpo dominado não é permitido conhecer suas próprias capturas e possibilidades de encontros, apesar de já fragmentado. O corte não ocorre inteiramente e a imagem permanece presa à sua primeira composição, mesmo em decadência. Considerando essa perpétua prisão da mulher dominada, não é à toa que Françoise d’Eaubonne, uma das pioneiras do ecofeminismo, equipara as mulheres a prisioneiras políticas na ditadura do patriarcado. Dentro dessa estrutura, o único recurso da mulher em seu trajeto amoroso é compreender o corte como elemento primordial para o encontro, ou seja, a ruptura, e não a captura. Precisamos compreender os instrumentos de domínio que nos mantêm coladas a imagens construídas pelos não-mulheres (“a melhor definição do macho”, segundo d’Eaubonne) para cortá-los com métodos que não sejam derradeiros como o de Thérèse. Acima de tudo, precisamos construir e descontruir nossas próprias imagens a partir de uma diversidade de recortes — vulgo interseccionalidade — que apresente múltiplas possibilidades de encontros. Para isso, temos que afiar bem nossas tesouras.
Referências:
FUÃO, Fernando. A collage como trajetória amorosa e o sentido de hospitalidade: acolhimento em Derrida. Ensaios Filosóficos, Volume IX — Maio/204.
CÉSPEDES, Alba de. Na voz dela. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
D’Eaubonne, Françoise. Feminismo ou morte. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025.
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- 2026-06-09 15:37:30