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Inclusão sobrecarregada em Cuiabá: impactos da divisão do atendimento no desenvolvimento de…

As profissionais de apoio (PAE) enfrentam dificuldade para acompanhar mesmo tempo até três alunos com deficiência nas salas de aula, o que…

Notas da UFMT · 2026-03-30 18:31 · 0 claps · 5.0 min read
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Inclusão sobrecarregada em Cuiabá: impactos da divisão do atendimento no desenvolvimento de estudantes com deficiência

As profissionais de apoio (PAE) enfrentam dificuldade para acompanhar mesmo tempo até três alunos com deficiência nas salas de aula, o que consequentemente afeta o desenvolvimento dos discentes

Por Maria Fernanda Braga

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 14, 4 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 7,3% da população do país. Além disso, 2,4 milhões foram identificadas como pessoas com autismo. Apesar do número expressivo, o acesso à educação para esse grupo enfrenta grandes desafios e evidencia uma grande desigualdade. Entre as pessoas com deficiência com até 25 anos, 63,1% não completaram o ensino fundamental e apenas 7,4% concluíram o ensina superior. Quando olhamos o Mato Grosso a estimativa é que aproximadamente 669 mil pessoas com deficiência moram no estado. De acordo com a SEDUC, mais de 11 mil estudantes da Rede Estadual de Ensino possuem alguma deficiência auditiva, física, intelectual, meta-psicossocial, visual múltipla, autista ou altas habilidades/ superdotação.

Um dos problemas estruturais que corroboram para a defasagem na aprendizagem de pessoas com deficiência no Estado, está relacionado com as profissionais de educação que atuam pedagogicamente com essa parcela de alunos: PAE — Profissional de Apoio Especializado, são responsáveis pela colaboração com o professor regente para realizar a mediação da aprendizagem, flexibilização e adaptações curriculares, elaborar e executar atividades pedagógicas adaptadas. No Estado do Mato Grosso, as profissionais designadas para essa função, podem acompanhar até três alunos por turma, o que dificulta o processo de aprendizagem do estudante com deficiência, que necessita de maior dedicação.

Diante desse contexto, ganha destaque o papel das Profissionais de Apoio Especializado (PAE), que atuam diretamente na mediação da aprendizagem, na adaptação curricular e no acompanhamento pedagógico desses estudantes. No entanto, no Mato Grosso, cada profissional pode atender até três alunos por turma uma realidade que impõe desafios à qualidade do acompanhamento individualizado que muitos desses estudantes necessitam.

É nesse cenário que surge a necessidade de ouvir quem vive essa rotina de perto. Como é atuar na linha de frente da educação inclusiva? Quais são os principais desafios, limites e possibilidades dessa função? Para compreender melhor essa realidade, conversamos com uma Profissional de Apoio Pedagógico Especializado (PAE), Ivanilza Braga.

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  • Psicopedagoga relata sua experiência no trabalho e sua importância

Por trás das discussões sobre inclusão, políticas públicas e estrutura escolar, existem famílias que vivenciam diariamente os desafios e as conquistas da educação inclusiva. São histórias que dão rosto e significado aos dados e mostram, na prática, o impacto que o acompanhamento adequado pode ter na vida de uma criança com deficiência. Na entrevista a seguir, Denise França, mãe de José Miguel, fala sobre o papel fundamental da Profissional de Apoio Especializado (PAE) no processo de aprendizagem do filho desde a mediação pedagógica até o fortalecimento da autonomia e da confiança. Um relato que evidencia como o acompanhamento individualizado pode transformar experiências, ampliar possibilidades e garantir que a inclusão aconteça de forma efetiva, respeitando o tempo e as potencialidades de cada criança.

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  • Denise França relata a experiência de seu filho no ambiente escolar

Um estudo publicado pela Australasian Journal Of Special and Inclusive Education, intitulado de “Building a Bridge to Learning: The Critical Importance of Teacher Aide–Student Relationships in the Primary School Classroom”, publicado em 2022, mostra a importância de auxiliares na sala para o melhor desempenho dos alunos com deficiência. A pesquisa destaca que esses profissionais estabelecem relacionamentos próximos e de confiança com os estudantes, criando um ambiente seguro e motivador. Esse apoio individualizado favorece o processo acadêmico e também o desenvolvimento socioemocional, promovendo autoestima.

A pesquisa evidencia que auxiliares e profissionais de apoio constroem vínculos próximos e de confiança com os alunos, criando um ambiente seguro, acolhedor e motivador. Esse suporte individualizado não apenas favorece o desempenho acadêmico, mas também contribui para o desenvolvimento socioemocional, fortalecendo a autoestima, a autonomia e a sensação de pertencimento.

Quando falamos de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa relação de confiança e previsibilidade se torna ainda mais essencial. O vínculo, a mediação adequada e o suporte emocional impactam diretamente na aprendizagem, na regulação emocional e na interação social. Para aprofundar esse assunto, Nathany Alvarenga do Espírito Santo Fronza, psicóloga formada pela UFMT que acompanha esses alunos explica a importância do acompanhamento individualizado dessas crianças.

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  • Psicóloga Nathany Alvarenga explica a importância do acompanhamento individual para estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA)

As entrevistas nos revelam a importância do acompanhamento individualizado para essas pessoas. Quando o aluno com deficiência possui o apoio adequado, grandes realizações podem acontecer. É o caso de José Miguel, filho de Denise França, que descobriu na escrita, por influência de Ivanilza Braga, auxiliar de apoio entrevistada, uma forma de se expressar e ganhar o mundo. Mais do que escrever um livro, ele encontrou incentivo, acolhimento e alguém que acreditou no seu potencial. E, segundo sua mãe, a professora teve papel fundamental nessa conquista.

“Sobre o livro que o Jose Miguel escreveu, esse livro nasceu lá no Ensino Fundamental na Escola Emeb Profє Ranulpho Paes de Barros, onde ele tinha uma pessoa que auxiliava ele na escola, chamada Ivanilza. Essa professora incentivou ele a leitura, ela levava ele muito a biblioteca, e incentivou ele a escrever um livro, por que não? E aí passaram-se uns anos, ele terminou o Ensino Fundamental e aí no Ensino Médio ele teve essa vontade de escrever e levou para a profissional que atendia ele, a fonoaudióloga. E aí através s de um TIX, que e um teclado inteligente, de alta performance, ele conseguiu escrever, porque ele não escreve manualmente, ele escreve com teclado, um teclado que ele consegue bater nas teclas, através de um sistema, e assim, ele faz as letras no computador, dessa forma ele consegue ficar sozinho escrevendo. E aí o Jose Miguel passou as férias de dezembro escrevendo. Todos os dias ele escrevia, ele ate falava assim, ‘ah, eu vou trabalhar’ E ia para o teclado. Nisso nasceu o livro dele, uma autobiografia. Assim que retomou os atendimentos no início do ano, ele mostrou para a fono, e ela ficou muito feliz, com o tanto que ele tinha produzido. E aí ele só deu continuidade, ele terminou o livro dele no ano passado.”

Denise França e seu filho José Miguel

Denise França e seu filho José Miguel

Mais do que uma mediadora em sala de aula, a Profissional de Apoio Especializado representa a ponte entre o direito formal e a aprendizagem real. É por meio desse acompanhamento individualizado que muitos estudantes com deficiência conseguem desenvolver autonomia, autoestima e desempenho acadêmico. Quando o suporte adequado existe, histórias como a de José Miguel deixam de ser exceção e passam a ser possibilidade concreta. No entanto, garantir essa presença não pode depender do esforço individual das educadoras ou da sorte das famílias. A Constituição Brasileira assegura a educação básica obrigatória gratuita dos 4 aos 17 anos e garante o atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência. Em paralelo, na realidade das escolas de Cuiabá, existe um impasse: as PAE (antigas PAPE) não conseguem proporcionar o apoio que deveria ser garantido por lei, tendo em vista que a atenção pode estar dividida em até 3 alunos por turma.

Diante desse cenário, a inclusão deixa de ser apenas uma questão legal e passa a ser um desafio estrutural. A distância entre o que está previsto na lei e o que é possível realizar na prática evidencia a necessidade de investimento, valorização profissional e revisão das condições de trabalho dessas educadoras. Garantir o direito à educação inclusiva não é apenas cumprir a Constituição, mas assegurar que cada criança tenha, de fato, as condições necessárias para aprender, se desenvolver e ocupar seu espaço na escola e na sociedade, direito de todo cidadão.


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