Da participação no Ser ao chamado para viver o belo
(Ensaio da Tutoria Filosófica do Invisible College — escrito em maio de 2025)
Da participação no Ser ao chamado para viver o belo
(Ensaio da Tutoria Filosófica do Invisible College — escrito em maio de 2025)
Em meio a critérios utilitaristas à nossa volta, em que as coisas ganham um valor a mais por função ou produtividade, o mundo clama por contemplação. Segundo Tomás de Aquino, a beleza é sacramental, participando, de alguma forma, da verdade divina. O autor oferece, em sua obra Verdade e Conhecimento, fundamentos para compreendermos a beleza como uma manifestação da realidade divina. Ao entender que tudo que é belo participa do Ser, Aquino nos permite pensar na beleza como linguagem do divino: “As criaturas são palavras”.
Ao afirmar que a arte precisa de um mundo redimido, e o mundo redimido precisa de arte, Rookmaaker, imediatamente, aproximou o conceito de beleza à nossa realidade comum. Afinal, não sendo apenas um adorno nem luxo, o belo também participa da redenção. Nesse mesmo sentido, Jonathan Edwards também escreveu: “A beleza é a excelência do ser.” Ou seja, compreendemos que a noção de participação na beleza é um reflexo da excelência divina. Isto posto, elucidamos um ponto de partida para pensar que a presença do próprio Deus, sempre nos atrai, inquieta e transforma com a verdadeira beleza. Como esses pensamentos podem orientar nossos dias comuns ou tocar em questões filosóficas e teológicas importantes para a nossa vida?
Nesse contexto, vale destacar que Tomás de Aquino opera dentro de uma estrutura amplamente racionalista. O que significa que a beleza participa do divino por meio de uma estrutura ontológica e objetiva, não tocando na necessidade de redenção. Para o autor, a graça, que aperfeiçoa a natureza, é essencial à salvação, mas não implica em uma transformação total do ser, e sim, sua elevação. Embora ofereça uma base importante para reconhecer a beleza que ecoa da verdade divina, é necessário ir além, chegando a uma concepção de beleza que faz parte de uma história, também contida no quebrado e no redimido. Aquino até nos faz enxergar o mundo cotidiano como um espelho em que cada fragmento reflete algo da Fonte de tudo, mas a grande questão, então, é reconhecer a beleza que não apenas reflete, mas também anuncia e antecipa o Reino.
A beleza como participação no ser divino
Desse modo, o que significa dizer que a beleza participa do ser? Para Tomás de Aquino, essa pergunta conduz à própria estrutura da realidade. Além de refletir uma ordem divina, a beleza não é um fim em si mesma, mas um sinal de participação no Ser que origina todas as coisas criadas. Logo, toda beleza é derivativa. Aquino segue Aristóteles ao compreender que o universo é governado por uma ordem lógica. Ao contemplarmos uma paisagem ou obra de arte, somos convidados a perceber essa ordem cósmica, e por meio dela, reconhecer a presença do divino. Por vários instantes, em nossos dias, somos abraçados por um esplendor de beleza que remete a pequenos sinais de transcendência. E nossa relação com Deus também envolve a interação com a realidade.
Nesse aspecto, a partir de uma visão de mundo sacramental, a criação deixa de ser meramente útil para ser reveladora, abrindo espaço para a contemplação e reverência. “Não percebemos os atributos de Deus diretamente porque não experimentamos Deus em si mesmo, mas podemos deduzir do mundo criado que essas características do ser devem estar presentes em Deus de uma maneira mais elevada a partir de uma analogia.” Embora apresente uma percepção do Criador que traz mais sentido à nossa vida cotidiana, é importante compreender que, em seu pensamento, a beleza é, sobretudo, um bem deleitável pelo conhecimento. Estando ligada à verdade, torna-se acessível por nossas faculdades cognitivas.
Essa mesma ideia de ordem divina e participação também nos direciona ao pensamento de Jonathan Edwards, só que de um jeito diferente, compreendendo a beleza como expressão da Santidade. Se Aquino destaca a racionalidade como caminho de contemplação, Edwards nos leva à experiência de integrar os afetos. Somos tocados, movidos e atraídos. A beleza desperta o amor. Assim, encontramos a ponte entre a estrutura ontológica de Tomás de Aquino e uma teologia centrada na pessoa de Cristo, o sacrifício vivo e amoroso que se fez carne. Em Cristo, o que era apenas sinal de transcendência do belo se encarna como verdade. A partir da narrativa bíblica, essa mesma criação que não está condenada à destruição final, caminha para sua plena restauração. A redenção, como lembra Bruce Waltke, não se limita ao ser humano, mas abrange toda a ordem criada, substituindo o que foi corrompido.
Criação-Queda-Redenção
Se por um lado, a tradição tomista nos oferece um bom referencial para relacionar beleza e ordem, por outro, acaba levando o ser humano a uma elevação da alma de forma natural, que prescinde da Queda e da necessidade da redenção. Em contraponto, encontramos em autores reformados como Kuyper, Dooyeweerd e Calvin Seerveld, um olhar mais abrangente sobre o assunto e mais coerente com o que conhecemos nas Escrituras. Afinal, a beleza, assim como toda a criação, foi afetada pelo pecado e necessita de redenção. Se a soberania de Cristo redime até mesmo o nosso ordinário, precisamos entender os sinais de beleza como dimensões de um chamado que é antes de tudo, criacional.
A graça comum pode permitir que a beleza continue a ser enxergada mesmo em meio ao que é quebrado, remetendo principalmente à bondade de Deus. Porém, é apenas por meio da graça redentora que respondemos ao belo divino de forma mais profunda, como vocação. Longe da perfeição estética que conduz a experiência do belo como caminho de fuga ou de uma vivência meramente transcendental, a beleza também habita em nosso cotidiano redimido. Do dia que começa com o choro do bebê aos filhos que aprendem a pedir perdão. Ou mesmo do trabalho que produz arte, a soberania de Cristo é contemplada em todas as esferas da vida.
Seguindo esse raciocínio, estamos diante de um sinal concreto do Reino de Deus. Em sua obra Rainbows for the Fallen World, Calvin Seerveld argumenta que a estética é uma dimensão da realidade criada por Deus e que deve ser vivida com responsabilidade e obediência.
A beleza como chamado
A arte ou as experiências do cotidiano, além de terem a capacidade de nos emocionar, apontam para algo muito maior: uma história que se baseia num relacionamento perfeito, habitação mútua, do qual derivam todas as nossas experiências comuns e inter-relacionadas. Nesse sentido, como lembra Kevin Vanhoozer, a própria criação está encenando o drama da Trindade, e mais do que espectadores, somos chamados a responder em amor e obediência. Entendemos que se a beleza tem origem nesse relacionamento, logo nos convida.
Nesse contexto, a doutrina da participação em Tomás de Aquino pode até enriquecer a nossa percepção de beleza ao oferecer uma estrutura ontológica coerente com a ordem de criação. Contudo, à luz da tradição reformada, é impossível enxergar essa definição como suficiente. Precisamos de Cristo para uma vida transformada pela graça, em que o deleite é pela redenção, e não pelo que alcançamos pelo intelecto.
Por fim, ao compreender a sua dependência da revelação, a igreja tem um papel fundamental que vai além do cuidado estético dos cultos ou de artes produzidas por cristãos: a instrução de uma comunidade para torná-la capaz de perceber e acolher a beleza em todas as esferas da vida. Como Seerveld sugere em suas reflexões: a estética cristã não precisa símbolos explícitos da fé para ser cristã, mas precisa evidenciar fidelidade à verdade encarnada. O Senhor da criação que se fez homem em Cristo, não apenas nos permite ver o belo, mas nos chama todos os dias a responder o seu chamado com obediência. Assim, participemos com reverência e alegria da beleza que revela e redime.
Referências Bibliográficas
EDWARDS, Jonathan. The Nature of True Virtue. Disponível em: https://depts.washington.edu/lsearlec/TEXTS/EDWARDS/VIRTUE.HTM. Acesso em 20 de maio de 2025.
SEERVELD, Calvin. The Freedom & Responsibility of the Artist.* ArtWay. *Disponível em: https://www.artway.eu/posts/the-freedom-responsibility-of-the-artist. Acesso em: 21 maio 2025.
SILVA, Bianca Martins da. Santo Tomás de Aquino e a analogia do ser. FASBAM, 16 out. 2020. Disponível em: https://fasbam.edu.br/2020/10/16/santo-tomas-de-aquino-e-a-analogia-do-ser/. Acesso em: 21 maio 2025.
TOMÁS DE AQUINO, Santo. Verdade e conhecimento. Tradução, estudos introdutórios e notas de Luiz Jean Lauand e Mario Bruno Sproviero. 1ª ed. São Paulo: Editora Martins fontes, 1999. 390 p.
VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução: Daniel de Oliveira. 1.ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2016. 512 p.
WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento: Uma abordagem exegética, canônica e temática. Tradução. Editora Vida Nova, 2024. Edição Kindle.
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