A pipa cotó
Outro dia eu estive no médico. Num daqueles consultórios todo engomadinho, sabe? Em edifício igualmente engomado. Ao subir me deparei com…
A pipa cotó

Outro dia eu estive no médico. Num daqueles consultórios todo engomadinho, sabe? Em edifício igualmente engomado. Ao subir me deparei com uma mulher com calça jeans e bota verde, casaco de couro verde, bolsa verde e óculos… verde. Se não fosse pelo loiro, agendado e chapeado, ela toda seria um hino de louvor à floresta amazônica. Seu estilo poderia nos remeter a vastos campos verdejantes, brisas suaves e a fresca da tarde, mas, ao vê-la, fui acometida de indefinido incômodo. Ao invés de ar, meu peito parecia conter cimento.
Prédio adentro, notei como tudo era calculado. O perfume ambiente, os espelhos, o sorriso pasteurizado da recepcionista, o brilho alumínico do elevador. Lá, no décimo sétimo andar, deparei-me com o alento de um cafezinho e cadeiras, uma secretária humana ainda não substituída por uma máquina. Tudo funcionando como uma orquestra, até o ímã da porta despregou como que por encanto.
A médica me chamou. Psiquiatra? Não dessa vez. Durante a conversa, notei suas sapatilhas azuis, calça pescador azul, adornada com botões brancos nas laterais inferiores. Sua blusa branca, jaleco branco e unhas azuis me chamaram atenção. Lá ficamos por uma hora, confortavelmente encurraladas numa salinha, cuja janela tornava toda a cidade um grande Lego já montado aos meus pés. Àquela cena, neutra a tantos leitores, entendi que o cimento que ia em meu peito era na verdade chumbo: seco igual, só que mais pesado.
Ao sair, tomei a esquerda e me deparei com um quadro. Uma moldura cor de cerejeira continha dentro de si uma pipa. Sim, uma pipa com simétrica estrutura de bambú. Ao invés de papel, o brinquedo era recoberto por algo que deveria ser seda. Era um tecido. Pintado à mão, sobressaía-se um galhinho com folhinhas negras, provavelmente feitas em nanquim. Seu cordão umbilical estava cortado, da imensa rabiola que imporia respeito dançando céu afora, restava apenas um cotoco de linha careca. Nos parâmetros de uma moldura e sobre um fundo branco, a pipa propunha-se arte. Foi quando meu peito pesou de tal maneira que tive de me lembrar de respirar: meus pulmões já pesavam sobre o chão.
Na altura de dezessete andares, num consultório-pílula, num corredor apertado, estava diante de um dos epítetos do sufocamento. Não porque pairávamos à altura do céu descolorido, acima das antenas, da poluição sonora, tão acima dos fios de eletricidade, do oceano de pessoas-miniaturas. Não porque estávamos ilhados pelas centenas de carros que insistiam em passar pela mesma via ao mesmo tempo, competindo por vias esmagadas e valorizadas, bem abaixo daquele metro quadrado de ouro.
De súbito senti a leveza das asas despregadas de uma libélula pairando no ar. Uma pipa colorida contra o resplandecer infinito. O inteiro celestial anunciando sua natureza etérea e solar. Uma pipa planando azul acima, azul abaixo, fazendo da brisa seu escorregador. Fazer do céu um grande parque não é pouco. Sim, brincávamos de parque no céu. Em busca da transposição sublime do brincar, nos comunicávamos ou guerreávamos em pleno céu-aberto, com extensões de nossos próprios corpos. No papel de seda desenhavam-se cores, desenhos e até dizeres, alegres cicatrizes de cola borrada. Nossa autoria. Desde quando concordamos em abandonar o parque do céu?
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