Uma conversa íntima
Quanto tempo que não nos falamos. Há quanto tempo que não te escrevo. Faz tempo que não venho aqui e escrevo sobre mim. Para mim. Comigo…
Uma conversa íntima

Via Pexels (2024).
Quanto tempo que não nos falamos. Há quanto tempo que não te escrevo. Faz tempo que não venho aqui e escrevo sobre mim. Para mim. Comigo. Uma conversa íntima comigo, sobre mim, para mim.
Oii, minha garota. Como tem passado? Uma pergunta delicada para quem anda tão cheia — de pensamentos, de angústias, de aflições — certo?
Eu sei, muitas aflições andam dominando teus pensamentos e te deixando para baixo, né? Angústias que transbordam e apertam teu peito. Pensamentos que incendeiam e deixam esse nosso coraçãozinho batendo apertado. Coisas que, por muito tempo, vínhamos trabalhando bem, né? Tá tudo bem, faz parte do processo.
Vou deixar um meme no meio, porque por mais que estejamos meio ablue das ideias, nada melhor do que dar uma risadinha — mesmo que seja com os olhinhos lacrimejando.

Via Instagram (2024).
Desculpa por não ter nos escutado. Por não ter me escutado. Por estar negligenciando nossas sensações. Por estarmos varrendo o que não deveríamos para debaixo do tapete, tentando, de alguma forma, não ver, não racionalizar, não pensar. Eu sei, doí trabalhar em coisas que nos deixam inseguras, é dolorido remexer onde a gente queria poder somente deixar para lá. Mas é necessário, porque uma hora — como aconteceu agora — viria à tona.
Algumas coisas que achávamos estar superadas, esgotadas, voltaram com força, né? Eu sei, talvez seja interessante, novamente, com mais cuidado, mais paciência, menos vitimismo, e muito mais maturidade, olharmos para esses pontos e acolhermos tudo isso que está nos deixando assim, transbordando em pensamentos, aflições e angústias.
Me desculpe por não ver que estávamos entrando em uma espiral. A gente aprendeu, ao longo dos anos, a compreender como nossa ansiedade vem, a identificar como ela, de mansinho, chega até a gente, reconhecemos quando ela começa a se esparramar sobre nós. Às vezes a gente sabe superá-la, cortá-la antes que ela faça sua casa, bote suas malas para dentro e forme seu lar, para iniciar o estrago. Mas dessa vez, eu não consegui a tempo. Me desculpe, me perdoe, não conseguimos evitar os monstrinhos. Porém, agora, estamos conseguindo rastreá-los. E escrever este texto só mostra que esses esforços vão dar resultado, eu sei que vão.
Andávamos meio afastadas, né? Nos tornamos um pouco mais ansiosas. Um pouco mais emotivas. Um pouco mais chorona. Começamos, novamente, naquela fase espiral de comparações que só nos deixam noiadas, que fase horrorosa, Vivi. Eu deveria ter reconhecido antes, ter evitado. Ter conversado comigo antes, ter refletido e racionalizado. Ter dito uma conversa íntima entre nós. Desculpa, de novo, e de novo, por estarmos duvidando de nós mesma, outra vez. Me desculpa. Eu sei que não somos assim. Acreditamos em si. Somos aquela garota-mulher que ri, mesmo quando o mundo desaba, a gente é essa mulher que se reconstrói mesmo estando na beira do abismo. A gente cai, levanta. A gente se machuca, mas se cura. Isso que estamos vivendo agora foi só uma resvalada, uma desviada do caminho, um atalho que nos fez sair da rota. Mas que bom que agora, com essa conversa íntima, podemos, devagarinho, voltarmos a nos aproximar, a nos acolher, a nos entender. Podemos, outra vez, refletir sobre o que tanto está nos deixando aflita, ansiosa, até um pouco pessimista e emotiva. Completamente diferente do que somos, do que trabalhamos para evitar ser.
É bom lembrar, Vivi, aquilo que, frequentemente, tua psicóloga te dizia e diz: pensamentos são só pensamentos, não são coisas reais. Não são a realidade. A realidade vem de uma construção nossa. Somos maiores que qualquer pensamento, aflição e angústia que chega até nós.

Via Twitter (2024).
Se mente vazia é oficina do diabo, talvez a minha mente cheia seja o laboratório de todos os capetinhas que existem por aí. Brincadeiras a parte, eu sei o quão turbulento é pensar demais, a gente vive nessa cabecinha e tem vezes que a vontade é poder, milagrosamente, achar um botão de pausar que cesse todo e qualquer pensamento, toda e qualquer comparação, toda e qualquer ânsia de saber como será o futuro, o que se espera para o presente e o que deveria ter sido no passado.
Quantas vezes vimos que a comparação não nos levou para lugar algum? Somente para o buraco, para o fundo mais atormentado e turvo de nossa própria cabeça. E cá estamos nós de novo, nessa espiral interminável de sucessões fadadas à ansiedade e ao martírio. Eu sei, não nos julgo, nem pretendo nunca nos colocar nessa posição, entendo que é muito difícil achar uma brecha para sair quando nos colocamos nesse lugar, porque é dolorido demais sair daí de dentro, sufoca, atormenta, não nos deixa ver, claramente, caminhos. E, mesmo quando sabemos que estamos dentro desse espiral de comparações, ainda assim, muitas vezes, nos deixamos ludibriar com aquela vozinha desgraçada que insiste em dizer “talvez o outro, talvez a outra, realmente seja melhor que você”. Mas não é a verdade. É só uma voz, é só a porcaria de um pensamento que não existe, que não é real. Um recorte fajuto de uma realidade que nunca existiu e nem existirá. Essa vozinha que vem desse pensamento só serve para nos deixar tristes, confusas, reprimidas, retraídas, afetadas.
Minha pequena, minha grande, eu. Meu amor, eu. Me desculpa. Me desculpo. Me perdoa. Me perdoo. Temos muito ainda o que conversarmos. Muito ainda o que apreendermos. Acolho o que estamos passando, porém, não posso deixar que caíamos no convencimento de que esses pensamentos, essas angústias e aflições nos ceguem, não deixam ver a realidade. Não posso e nem vou deixar que elas inflamem dentro de nós e se tornem combustível para coisas horríveis que nunca serão a realidade de quem somos. Elas não fazem parte de nós.
Como pode acolhermos tão bem ao outro e esquecermos que também precisamos nos acolhermos tal qual fazemos com aquela outra pessoa? Vitória, você é uma das pessoas que mais se doa para os outros, mas me diga, quantas vezes você se doou para si mesma? Pensa aí. Acho que precisamos conversar mais sobre isso.
Parece, olhando de fora, fácil para gente sorrir e fingir que está tudo bem, mas sabemos que, por agora, muita coisa está fora do eixo. Os pensamentos continuam aqui, viajando livremente, para lá e para cá. Talvez hoje, uma chave virou, não vamos mais os alimentar, melhor, vamos tentar não os alimentar, eu sei que podemos, estamos tentando, certo? Olhar para eles, de um lugar de fora, um lugar que faz com que saíamos do contato próximo, nos dando maior distanciamento para clareza de que, nada desses pensamentos são reais. Vão ter dias que estaremos mais vulneráveis, tá tudo bem, dar uma choradinha, conversar com nós mesmas, estamos aqui por nós, sempre estivemos e sempre estaremos. Reconhecer que, por agora, não estamos no nosso melhor momento é um passo importantíssimo para compreendermos nosso processo. Sinto muito orgulho de nós e de nossos caminhos.
Eu tô comigo. Estamos juntas. Não vamos afundar. E se, por algum motivo, acharmos que estamos afundando, iremos achar um jeito de continuar boiando. Porque sempre achamos e vamos continuar e continuar a encontrá-los. Minha pequena, minha grande mulher, somos mais fortes do que achamos. Nunca iremos ficar sozinhas, sempre teremos nós. E teremos esse lugar, de conversas íntimas, para continuar sempre a nos encontrarmos.
메타데이터
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