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Torcida única nos clássicos faz 9 anos: segurança ou perda da essência do futebol?

Desde 2016, jogos entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos só têm torcedores do time mandante: o que isso significou para a…

LabJor in LabJor · 2025-04-10 10:47 · 0 claps · 5.4 min read
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Torcida única nos clássicos faz 9 anos: segurança ou perda da essência do futebol?

Desde 2016, jogos entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos só têm torcedores do time mandante: o que isso significou para a violência e a emoção?

Gabriel Damaso

Em abril de 2016, o futebol paulista passou por uma grande mudança: a adoção da torcida única. A principal justificativa para a medida foi a crescente violência nos arredores dos estádios e confrontos entre torcedores organizados. Passados nove anos, a decisão segue gerando debates acalorados entre torcedores, dirigentes, especialistas em segurança pública e estudiosos da cultura do futebol.

Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo indicavam na época que os clássicos paulistas estavam entre os eventos esportivos mais violentos do País. O gatilho para que o Tribunal de Justiça de São Paulo determinasse a proibição da presença de torcidas visitantes nos clássicos ocorreu após um confronto entre torcedores do Palmeiras e Corinthians que resultou na morte de um torcedor e ferimentos em vários outros.

Foto: Sandro Schuh/ Unsplash

Foto: Sandro Schuh/ Unsplash

De acordo com Roberto Pfeiffer, procurador chefe da Consultoria Jurídica da Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo, a decisão foi tomada pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo em conjunto com o Ministério Público e a Federação Paulista de Futebol. O amparo legal veio do Artigo 144 da Constituição Federal, que trata da segurança pública, e do Artigo 217, que garante autonomia às entidades esportivas na organização dos campeonatos.

O Ministério Público de São Paulo desempenha um papel fundamental na política de torcida única, pois tem autoridade para denunciar atos de violência e investigar possíveis omissões das autoridades responsáveis.

Segundo Pfeiffer, o maior receio das autoridades é permitir a volta das torcidas visitantes e, posteriormente, ocorrer um episódio trágico que gere acusações de omissão por parte do poder público e das entidades esportivas.

Desde que os clássicos passaram a contar apenas com torcedores do time mandante, os confrontos dentro e nos arredores dos estádios reduziram-se consideravelmente. Estatísticas apontam que houve queda nas ocorrências de violência registradas nos dias de jogo. Levantamento feito pelo Instituto Sou da Paz mostrou, por exemplo, redução de 55% no número de incidentes graves relacionados a torcedores em dias de clássico.

Se por um lado a medida trouxe mais segurança, por outro também afetou a experiência de um clássico. Para muitos torcedores, a essência do futebol reside na rivalidade sadia e na atmosfera proporcionada pela presença das duas torcidas no estádio. O embate entre as torcidas sempre foi o elemento fundamental do espetáculo.

Torcedor do Palmeiras, o comerciante Gustavo Henrique Menezes, de 36 anos, é um dos que sentem falta da rivalidade no estádio. “Ficou estranho. A festa da nossa torcida continua linda, mas não tem aquele contraponto, aquela adrenalina de responder à provocação do rival no estádio. Perdeu parte da graça.”

Torcedor do Corinthians, o estudante Rodrigo Freitas de 25 anos, acredita que a medida não é a solução definitiva para o problema da violência: “Ajudou um pouco na violência nos estádios, mas fora deles continua igual. As brigas seguem acontecendo em outros lugares. Acho que o problema está mais na impunidade do que na torcida dentro do estádio.” Para ele, seria melhor permitir as duas torcidas, desde que houvesse um reforço na segurança: “Com mais policiamento, reconhecimento facial e punição para quem briga, o futebol poderia voltar a ser o que era.”

Críticos da torcida única argumentam que o futebol perdeu parte da magia e a medida não resolve a raiz do problema, que está na falta do combate eficaz à violência organizada. Muitos questionam se a medida não é um paliativo que apenas mascara a incapacidade das autoridades em garantir segurança.

A ausência da torcida visitante também afeta o espetáculo do ponto de vista financeiro. Jogos de torcida dividida costumavam gerar maior bilheteria, pois a presença de duas torcidas incentivava maior público e consumo dentro do estádio.

“Eu peguei bastante a época em que a torcida visitante ocupava 10% do estádio”, conta o editor de Esportes do Estadão, Gustavo Faldon. “Você ia ao estádio ver o jogo do seu time e como jornalista também e, quando o time visitante fazia um gol, por mais que fossem só 10% você ouvia aquele grito distante. Agora, quando é um clássico paulista e o time visitante faz um gol, fica um clima de velório.”

O editor conta que já cobriu vários eventos esportivos tanto no Brasil quanto em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele conta que já assistiu a clássicos da NFL e da NBA e não viu nenhum tipo de hostilidade entre as torcidas. Nessa rivalidade mais sadia, já presenciou as torcidas pegando transporte público juntas e torcedores conversando na volta para a casa.

“O torcedor dá aquela provocada, mas nada que passe do limite. O brasileiro é muito rancoroso, não aceita o bom humor, não aceita ser zoado. Eu acho que isso é muito mais uma coisa do torcedor paulista, porque no Rio ainda tem mais o bom humor e fica tudo no folclore, as pessoas são mais descontraídas nesse sentido.”

A torcida única pode ter efeito também sobre os jogadores. Alguns atletas já se manifestaram sobre a diferença que sentem ao jogar um clássico sem a presença da torcida rival ou sem a própria torcida. O meia Renato Augusto, ex-jogador do Corinthians, por exemplo, afirmou em entrevista ao Globo Esporte em 2023 que a ausência da torcida adversária tira parte da pressão e da emoção que torna os grandes jogos ainda mais especiais.

Em outros países, soluções diferentes foram adotadas para conter a violência no futebol. No Reino Unido, em 15 de abril de 1989 ocorreu a chamada Tragédia de Hillsborough, durante uma partida entre o Liverpool e o Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra. O local era o Estádio Hillsborough, em Sheffield. Uma superlotação na arquibancada destinada à torcida do Liverpool resultou em um grave esmagamento. Devido à má organização policial e à falta de controle na entrada do estádio, milhares de torcedores foram empurrados contra as grades de contenção, causando a morte de 97 pessoas e deixando centenas de feridos.

Além dessa tragédia, outro problema que existia nos estádios ingleses era o dos hooligans — torcedores organizados que se envolviam em atos de violência, vandalismo e confrontos dentro e fora dos estádios, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980. Após um investimento maciço em tecnologia, segurança dos estádios e campanhas de conscientização, hoje torcedores rivais frequentam estádios com segurança reforçada, mas sem a necessidade de torcida única.

Em São Paulo, há especulações sobre um possível retorno da torcida visitante em clássicos paulistas. Especialistas em segurança pública sugerem alternativas para mitigar a violência nos estádios, tais como o aumento do efetivo policial, implementação de tecnologias de reconhecimento facial e aplicação de punições mais rigorosas aos torcedores envolvidos em atos violentos.

Contudo, o Ministério Público de São Paulo mantém uma postura cautelosa. Em dezembro de 2024, o promotor Roberto Bacal recomendou à Federação Paulista de Futebol (FPF) a continuidade da política de torcida única para este ano, argumentando que, apesar das medidas já adotadas, os confrontos violentos persistem e o poder público não consegue controlá-los de forma eficaz. Em outubro de 2024, o Tribunal de Justiça de São Paulo propôs à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a ampliação da torcida única para clássicos interestaduais, como Palmeiras e Flamengo, devido a históricos de confrontos problemáticos entre suas torcidas.

Em fevereiro de 2024, o presidente do São Paulo, Julio Casares em entrevista ao portal *Metrópoles*, expressou seu descontentamento com a política de torcida única nos clássicos paulistas e gostaria de ver os clássicos novamente com as duas torcidas e que o clube está aberto a propostas que possam garantir a segurança do evento, .

Leila Pereira atual presidente do Palmeiras em uma entrevista no programa Mais Você da TV Globo em março de 2023 destacou a importância de trabalhar em conjunto com as autoridades para transformar o futebol brasileiro em um produto mais atraente, permitindo a presença de ambas as torcidas nos clássicos.

​A Supercopa do Brasil de 2024, disputada em 4 de fevereiro no Mineirão, em Belo Horizonte, teve pela primeira vez desde 2016, torcedores de Palmeiras e São Paulo nas arquibancadas em um clássico, graças à realização do jogo em território neutro.

Gabriel Damaso é aluno de Jornalismo da FAAP


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