O problema do rico brasileiro
A discussão sobre a riqueza das nações é uma constante. Fala-se dos países ricos e países pobres ou, de maneira mais elegante, em nações…
O problema do rico brasileiro
A discussão sobre a riqueza das nações é uma constante. Fala-se dos países ricos e países pobres ou, de maneira mais elegante, em nações desenvolvidas e nações em desenvolvimento. Contudo, a riqueza é também matéria com a qual se constrói a vida individual e familiar, e aqui falamos de pessoas ricas e famílias ricas. É claro que nem sempre existe uma sintonia entre essas riquezas — a das nações e a das pessoas –; não basta reproduzirmos ricos como coelhos para que cheguemos a um país rico, e um país rico, por sua vez, não se traduz automaticamente em cidadãos ricos.
Neste texto, quero falar da riqueza dos brasileiros ricos. Quero escrever alguns parágrafos sobre a psicologia e a sociologia desses milionários e bilionários, apontando suas características e suas visões, no mínimo estranhas, da realidade social e da ideia que possuem de riqueza. Mas cabe, inicialmente, uma pergunta: quem é rico? Eu já introduzi uma quantidade de dinheiro — milionários ou bilionários –, mas isso é insuficiente, pois uma pessoa pode ter uma casa no valor de 1 milhão e ainda ser um membro da classe média, ou um indivíduo pode herdar milhões sem nunca ter trabalhado, por meio de herança.
Há ricos que, na acepção marxista, são donos dos meios de produção, isto é, pessoas que possuem os meios de se produzir algo (fábricas, terras, equipamentos) e que contratam trabalhadores por um salário. Há hoje, sobretudo hoje, financistas que adquirem sua fortuna com aplicações financeiras inteligentes e, por que não, selvagens. Há pessoas que se tornam milionárias porque ganham na loteria; enfim, os exemplos se avolumam.
Em uma sociologia mais sofisticada, rico é aquele que possui o estilo de vida do rico. Uma pessoa pode ganhar muito dinheiro e continuar com os mesmos trejeitos de quando era classe média ou pobre; pode continuar com uma humildade que não tem nenhuma relação com sua nova realidade financeira. Desse modo, precisa — para tornar-se rico — adquirir o modo de vida específico do rico, o que significa: um tipo de roupa, carro, moradia, viagem, comida, objetos, trejeitos, amizades, eventos, desejos. Depois de conquistar esse modo de viver, e não apenas a riqueza, a pessoa se integra à sua nova classe.
Diante de tudo isso, quem é o rico? Ora, é melhor deixarmos a questão em aberto, advogando por visões diversas de riqueza. Contudo, apelo aqui para o simples bom senso popular, que olha para alguém endinheirado e diz: esse sujeito é rico. Rico é rico; intuitivamente sabemos e assim consideramos. Não há por que sairmos caçando, no dia a dia, uma definição sofisticada, quando sabemos quem é quem; nós simplesmente sabemos.
Bem, neste país chamado Brasil, existem ricos. Historicamente, o Brasil é um país de desenvolvimento burguês tardio; a terra aqui foi por muito tempo, e ainda o é, o principal meio de produção e riqueza, e os nossos ricos eram donos de propriedades e agricultores. Industriais e, sobretudo, financistas apareceram bem recentemente no desenvolvimento nacional, e não é errado considerar que as classes dirigentes deste país sempre olharam com certa desconfiança essa burguesia.
Atualmente, como em qualquer outro lugar, a riqueza está concentrada nas mãos da elite do agronegócio, da elite industrial, da elite do comércio e dos serviços, dos banqueiros e da elite dos financistas em geral. Eles e suas famílias constituem o topo; eles são os ricos. Poderíamos acrescentar aqui outras elites menos gerais, como, por exemplo, a elite dos donos de mídia. E, quase me esquecendo, a cada vez mais poderosa e radical elite da tecnologia.
Mas meu intuito é entrar na cabeça desses caras, e não dizer propriamente de onde vêm suas fortunas. Definir o rico brasileiro é fácil, mas seria mais fácil se não fosse deprimente, eles todos pensam assim: a vida em geral no Brasil é um inferno, um caos, uma desordem; então só pode salvar-se aquele que, por mérito próprio e iniciativa individual, conseguir sair da sociedade em geral, produzindo sua riqueza própria e isolando-se da vida nacional. A riqueza no Brasil se constrói pela dissociação com a vida nacional do país, pois esta última é fator de empobrecimento.
Vencer na vida é sair, isolar-se e jamais retornar à sociedade. Na mente do brasileiro, e não apenas do rico, existe um desejo ardente de fugir do Brasil, seja pelo mecanismo de uma feudalização da riqueza, seja pelo terminal internacional do aeroporto, ou seja, ir para outro país. Você junta a maior quantidade de dinheiro possível e funda um forte armado para você e sua família, para ficarem isolados e protegidos do caos exterior. Então, ficar rico no Brasil é ganhar um passaporte e uma cidadania diversos daqueles disponíveis para todos os outros; aliás, a categoria “os outros”, ou seja, a uniformização absoluta dos não ricos, é essencial para alimentar esse mecanismo.
Os outros são pobres, violentos, incultos, perigosos, reclamões, incapazes, preguiçosos; é preciso evitá-los a todo custo e elevar-se a uma altura maior. Quando os ricos retornam momentaneamente ao chão da sociedade, eles estão lá para vender um ideal de riqueza, vendido como ópio do povo; ou seja, vou te ensinar como ficar rico, mas você não vai ficar rico; todavia, isso lhe causará algum frenesi emocionante, tal como um entorpecente. Os mais profanos e pecadores vão vender algo que, ao final do dia, deixará eles mais ricos, e não os outros, e eles fazem isso sabendo que assim vai ser. O objetivo não é socializar a riqueza; é aumentar sua riqueza pessoal.
Vi um vídeo esses dias que ilustra um sintoma desse processo no campo educacional, com algumas ressalvas, porque os participantes disso tudo já são ricos de fato. Um homem, o clássico lambe-botas e beija-mão dos ricos, foi visitar uma faculdade de empreendedorismo particular, considerada a mais cara do país (a mensalidade chega a quase 14 mil). Lá, ele entrevistou o fundador e CEO da faculdade, e esse cara disse basicamente o seguinte: a minha maior rentabilidade não está na mensalidade, mas nos lucros das empresas dos alunos. No caso, nessa faculdade, os alunos criam empresas, e estas dão algum retorno para o CEO.
Ora, ora, ora. A primeira coisa que pensei foi: seus alunos são um grande banco de sangue, e você é o vampiro que está se alimentando dele. Ele ainda chega a dizer que a sua faculdade não segue o “modelo tradicional de educação”. Não, meu querido, a sua faculdade não segue modelo nenhum, porque ela não é educação; ela é uma grande empresa onde ricos ficam masturbando ricos, até sair o precioso leite dos lucros, dividendos etc., etc.
É aquele tipo de retórica que aponta que os problemas são os outros, as outras faculdades, a outra educação, e aqui nós estamos salvos pela nossa excelsa e maravilhosa didática de ensino e prosperidade. Qual é o meu problema com esse tipo de coisa? Se pensarmos apenas na produção de riqueza, a faculdade é ótima, mas é essa retórica que me inflama, porque ela deseduca a sociedade e ataca a sociedade; por pertencer a um microuniverso muito restrito e elitizado, você não está autorizado a julgar o que existe lá fora, a condenar e a vender-se como a salvação, especialmente se essa salvação só vier se você tiver um bilhete dourado.
Voltemos. Imaginem a seguinte cena: um homem ou mulher muito ricos descem para passear com o cachorro do vigésimo andar de seu apartamento de 15 milhões. Ao andarem nas ruas próximas, são surpreendidos por um assaltante portando uma pistola e, assim, são obrigados a entregar seus relógios, celulares, carteiras ou até mesmo o cachorro (nunca se sabe) e, como muitos assaltos à mão armada acabam em ameaça à vida, podem até levar um tiro. Outra cena mais leve: um ricaço compra uma Ferrari e sai com ela pelas ruas do país, e o carro vai trotando de buraco em buraco ou fica preso em um grande alagamento às 17h de uma tarde chuvosa.
O rico brasileiro é burro. Ele é burro porque não entende uma coisa simples sobre a autêntica riqueza: você só é rico de verdade quando vive em uma sociedade que possui uma qualidade e uma estabilidade suficientes para garantir uma boa vida social geral, para todos os cidadãos. Não se pode dissociar riqueza pessoal da qualidade de vida social geral; é preciso haver uma qualidade horizontal, e não apenas vertical. Do que adianta ter milhões na conta e ser morto por um assaltante praticamente na rua de casa? Do que adianta ter uma Ferrari e tê-la destruída pela falta de planejamento urbano, de qualidade de vias e rodovias?
Os ricos brasileiros cometem a burrice de dissociar a vida deles da vida social e, desse modo, suas riquezas não valem muita coisa. Aquele medo da vida social geral deveria ter produzido um fervor pela melhoria horizontal dela, e não uma fuga, que condena o próprio rico a ser destruído. É uma estupidez tremenda. Dentro dessa perspectiva, os ricos do Brasil não são ricos de verdade; eles são basicamente poupanças ambulantes em um país quebrado.
Dessa maneira, temos aqui uma nova ideia do que seja a riqueza, uma nova conceituação possível: a riqueza é a qualidade horizontal da vida social que, a cada caso vertical, assume novos contornos e intensidades, mas todos assentados sobre a mesma coletividade estável, organizada, segura e produtiva.
Não se trata de todo mundo ter muito dinheiro no bolso ou de abolir a pobreza, não mesmo. Trata-se da qualidade da vida social como um todo, de condições de reprodutividade da vida social que tocam todos os cidadãos. Fora do Brasil, os ricos, mesmo que tenham lá seus problemas também, entendem isso, entendem que essa dissociação é perigosa. Imagine: um ricaço de Nova York viu algum problema social que o impacta (sim, tudo bem, aqui entra o tal do egoísmo, mas está valendo); a primeira coisa que faz é ameaçar não doar mais dinheiro para a campanha do prefeito, exigindo, como permanência do apoio, que o problema seja corrigido.
Por isso mesmo, quando se passeia nessas grandes capitais europeias e norte-americanas, ou mesmo no interior, o que se vê é um senso de estabilidade, organização, beleza, continuidade e paz. A mansão do ricaço se acomoda dentro de uma cidade de qualidade e, assim, cria-se a sensação bastante factível e real de que tudo funciona, tudo se acomoda bem, existe uma sintonia inteligente entre as coisas. Agora, aqui no Brasil, o que nos resta dizer, passeando por alguma rua, é o seguinte: nossa, semana passada alguém foi assaltado logo ali, mas olha, o Faustão morava naquele prédio; dizem que custou o olho da cara!
O rico brasileiro considera sua riqueza como fruto de seu talento pessoal e nada mais; por isso mesmo, ele não enxerga motivo algum para dar algo à sociedade, aos outros, porque essa sociedade é a culpada, é aquela que puxa para baixo, e ele conseguiu se livrar dela e subir. Então, por que deveria ajudar aquilo que rejeita, aquilo que é uma pedra no seu caminho? Ele não deve nada a ela. Cria-se, assim, uma perversa dialética: quanto pior a sociedade estiver, melhor, pois assim consigo afirmar com mais vigor a minha virtude pessoal de ser superior a ela.
메타데이터
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