A cultura de massa como morte do conceito de cultura popular e extermínio da sensação de…
Segundo Marilena Chauí, a cultura popular sofre com algo que ela chama de “Consciência Trágica”. O que é isso? Ela resume que existem dois…
A cultura de massa como morte do conceito de cultura popular e extermínio da sensação de pertencimento
Segundo Marilena Chauí, a cultura popular sofre com algo que ela chama de “Consciência Trágica”. O que é isso? Ela resume que existem dois tipos de saberes: o não saber que é algo que imaginamos saber e um saber que se sabe. Ainda está abstrato? Se sim, que bom, porque para mim também estava. Mas eu acredito que uma bela comunicação serve como desenho, não digo algo chulo, mas uma verdadeira arte.
Partindo então para a minha arte, quero que imagine uma manifestação de cultura popular. Você entende que nela existem símbolos de resistência, de amostras, de coletas e vivências que definem a maneira que esta classe popular defende seus valores? Quando expresso o que vivo na minha cultura, na minha arte, estou definindo os meus princípios e os defendendo.
Em contrapartida, quero que enxergue a existência, mesmo que contra nossa vontade, de um conformismo nesta cultura. Conformismo este, que aceita imposições da cultura de massa, uma cultura mercadológica e capital que usufrui da cultura popular para transformá-la em entretenimento. O que há de errado com o entretenimento? Nada! Acredito que ele também seja uma expressão cultural. Mas não estamos falando de um entretenimento qualquer, estamos apontando o apagamento de formas de resistência.
Quando a Marilena diz que a cultura de massa mata a cultura popular, estamos falando de um conceito de apropriação e apagamento. O entretenimento é causado não pela cultura popular, mas por fragmentos que não se dizem respeito à sua totalidade. E o que é uma cultura fragmentada senão justamente um apagamento? Quantas fragmentações serão precisas para levarem à sua morte? É isso o que a cultura de massa faz.
Quando entendemos esse tal conformismo da cultura popular não como uma aceitação, mas também como forma de tentar sobreviver a lógica capital, enxergamos algum sentido. Quando vamos falar de cultura de massa, passamos por uma linha mercadológica, linha esta que dialoga com a ideologia do empreendedorismo. O que isso significa? Significa que, para o neoliberalismo, somos capitais e, portanto, devemos nos empreender. Ou seja, transformamos em capital qualquer expressão que temos. E lógico, numa ideia de mercado, temos que vender e, para vender, precisamos competir. Essa competição dentro da nossa cultura também é um fator de apagamento, afinal, destruímos o conceito de comunidade que nos faz ser quem somos e defender o que defendemos.
“Arte para mim não é um produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte para mim é missão, vocação e festa”. Na luta contra um apagamento de cultura, não poderia deixar de cultuar o autor desta frase, Ariano Suassuna. Me entendi como o que sou e grande parte da onde pertenço, ao escutá-lo falar pela primeira vez. Ariano Suassuna defendia tão bem o conceito de cultura brasileira que sua fala, uma arte, se fundiu em diversos espaços tornando-se a própria cultura.
A cultura brasileira não é apenas um recorte da cultura ocidental, ela possui suas características próprias, inclusive negras e indígenas. Em uma palestra, Ariano Suassuna diz que ele é criado e deformado pelo Brasil Oficial. Ele fala que este Brasil Oficial, somos nós, o que eu acredito que seja, os populares e suas expressões. Esta fala, se relaciona perfeitamente com o conceito de cultura que a Marilena Chauí defende, que é capacidade do ser humano se relacionar com o ausente. Relação essa que se interliga com o tempo, tendo esta capacidade de guardar e saudar o passado, construindo o futuro.
Então quando falamos que somos criados e deformados por nossa própria cultura, assumimos esta relação perfeita entre tempo e espaço. Assumimos que vivemos com nossos costumes porque símbolos passados nos permitiram uma elaboração de personalidade baseada no que foram antes de nós. E essa é a beleza da cultura popular.
A cultura popular brasileira é diversa, cheia de seres intelectuais com saberes que se definem no segundo saber do primeiro parágrafo deste texto. Estamos falando de um país que contempla Guimarães Rosa, Lelia Gonzalez, Ariano Suassuna, Machado de Assis, e diversos outros representantes de nossa cultura que servem como referência para ícones que são as nossas referências.
Um exemplo perfeito disso é a fala da Angela Davis, quando veio ao Brasil em 2019: “Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo”. É isso que o Ariano Suassuna passou em sua carreira afirmando, existem seres na nossa cultura popular que nos preenche de simbolismos de representatividade e resistência.
Embora a cultura de massa tente industrializar e capitalizar estes conceitos, se propondo a apagar grande parte dos elementos que nos representam, a luta por resistir não começou ontem e vivemos com a esperança de que ela sempre irá se comunicar com o futuro através de símbolos que vamos deixar como legado.
메타데이터
- post_id
- 09edae09a6f7
- slug
- a-cultura-de-massa-como-morte-do-conceito-de-cultura-popular-e-extermínio-da-sensação-de-09edae09a6f7
- url
- https://medium.com/@memorie./a-cultura-de-massa-como-morte-do-conceito-de-cultura-popular-e-exterm%C3%ADnio-da-sensa%C3%A7%C3%A3o-de-09edae09a6f7
- canonical_url
- https://medium.com/@memorie./a-cultura-de-massa-como-morte-do-conceito-de-cultura-popular-e-exterm%C3%ADnio-da-sensa%C3%A7%C3%A3o-de-09edae09a6f7
- author_url
- https://medium.com/@memorie.
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-25 03:00:08