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Vandal e a verdade de Salvador

Na defesa da arte real, Vandal expõe opiniões, sentimentos e realidades escanteadas da cidade

Ícaro Lima · 2025-02-11 02:46 · 1 claps · 7.6 min read
#vandals #rap #salvador #música #bahia
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Vandal e a verdade de Salvador

A palavra “verdade” é muito importante para Vandal. Além de ser parte do complemento ao nome artístico (Vandal de Verdade), o significado dela age como condutor de boa parte das músicas do rapper.

Foto: reprodução

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Na defesa da arte real e sem rodeios, o cantor expõe opiniões, sentimentos e realidades geralmente escanteadas. É a busca pelo reforço de aspectos que, muitas vezes, ainda que sejam populares, recebem um tratamento inferiorizado por fazerem parte da cultura periférica.

Quase toda essa obra tem Salvador como cenário. Soteropolitano do bairro de Cidade Nova, ele demonstra, desde o início da carreira, que referências dos locais em que vive são parte essencial do seu trabalho. Pode ser no uso excessivo de um xingamento, na roupa que veste ou na mistura de ritmos musicais. Salvador está sempre por ali.

A verdade do visual

A etiqueta de uma roupa ou acessório pode ser um item pequeno, mas pode transmitir algo grande. Ao deixá-las nos itens que veste quando se apresenta, demonstrando que são artigos originais e conservados, transmite uma mensagem de autoestima, poder e crescimento para o público.

Foto: reprodução

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E nas variadas combinações, bonés da Nike assumem sempre um lugar de destaque. É a TROPAH DAH VÍRGULAH:

É a tropa da vírgula Verde-cana, SSA Dos pés à cabeça, puxando de Nike É o “V” da vitória É a tropa da vírgula Minha deusa grega Hoje é fartura Nós tamo vivendo num tempo de glória

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Vandal é nostálgico. A época de sucesso desses bonés passou, mas ele sabe o que isso ainda representa para quem o usava, por isso, faz esse resgate.

Provas dessa febre podem ser vistas em registros de grandes shows que aconteceram em Salvador na década passada, como o banda de pagode A Bronkka, em 2014, no Salvador Fest.

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Mais assinaturas estão presentes no vestuário de Vandal. Indo além das músicas, ele, constantemente, no Instagram, menciona outras marcas que fazem parte da estética periférica soteropolitana.

Foto: reprodução

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Camisa Aleatory, bermuda Seaway e Kenner no pé. Exemplo de kit presente em muitos dos corpos que cresceram nas favelas de Salvador. E isso segue sendo exaltado.

A verdade da linguagem

“Desgraça” soa negativo em qualquer lugar do Brasil, mas em Salvador carrega um peso ainda maior, simbolizando forte atração de energias negativas. Por isso, é do tipo de palavra que, por maior que seja a rebeldia de um filho, ele buscará evitá-la na presença dos pais.

Mas Vandal faz rap para incomodar. Desgraças permeiam várias composições, sempre com uma carga pesada na voz, deixando cada sílaba evidente. Em INTRUH, ele abre se apresentando e comprovando isso:

Minhas faixas é tudo hardcore Todo mundo agora é pop Falaram de C4bal, fizeram o mesmo, esse é o hip-hop Nessa desgraça eu tenho azar e muita sorte Sorte e muito azar eu cuspo mais que gunshot Nessa desgraça eu sou o artista que mais xinga Escrevo sem dicionário, escrevo sem ler a Bíblia Escrevo cheio de malícia, escrevo pra essas meninas Escrevo pros MC que curte tipo cocaína

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Até uma visão sobre a solidão da caminhada, algo que costuma ser versado de maneira mais formal, é dita da forma mais regional possível. Em ESSEKARAHTEM, ele larga:

Eu tenho o pôr da Lua, também tenho o pôr do Sol Sentado no improviso com uma caixa de Franol Dó-ré-mi, fá-só-lá-si, dó Sinto uma perna só, tipo saci, pó Tem um ditado, ó Puta só, ladrão só

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Em CERTOH PELOH CERTOH, logo no início, ouvimos a voz da mãe de Vandal abençoando o dia dele:

Amor, que foi que eu te disse? Não se preocupe, não Então, segunda-feira, na fé de Deus, estamos juntos e misturados Viu? Vai dá tudo certinho Viu, amor? Fica na paz, fica com Deus, viu? Que deus abençoe E vá pra sua correria que Deus no comando Deus na frente, viu, papai? Te amo

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O “papai” na frase final dela carrega um elemento comum nos modos de tratamento entre familiares em Salvador, e que causou, recentemente, um debate viral no TikTok. É o tio que chama o sobrinho de “tio”, a vó que chama a neta de “vó”…

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PUXUTRIUH apresenta já no título uma expressão conectada aos trios elétricos do carnaval de Salvador. A partir disso, Vandal defende ter sido o primeiro no Brasil a explorar ritmos internacionais que, hoje, fazem sucesso pelo país.

Primeiro trap de verdade do Brasil Primeiro grime de verdade do Brasil Primeiro drill de verdade do Brasil Vandal de Verdade, puxa o trio, varonil

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A verdade dos lugares

Vandal costura bairros, avenidas e locais para expôr características de Salvador. Em DELTAH, ele apresenta a cidade como um famoso quadro trágico em que as divisões sociais são nítidas:

Picasso pinta Salvador, tipo Guernica Paralela pista, Paralela pista Tá dividida, cidade tá dividida Castro Alves grita, Castro Alves grita

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Em $ALCITYH, reafirma o espaço de origem, mas manda um salve para outra área:

Eu sou tão Cidade Alta mas eu amo a CBX (Cidade Baixa)

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Em EMOCIONADUH, mais um momento de nostalgia. Ele cita um shopping que não tem mais tal nome, mas que ainda representa o centro de compras preferido de grande parte da população da capital baiana.

Sabe as marcas que ele costuma vestir? Quase todas podem ser compradas lá.

Quer provar mermo, gostosa, se bobear ganha o Oscar Champanhe e rosas nunca deram pra mim Ela chorava e me cobrava em Shopping Iguatemi

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O clipe de VINGADORAH é ambientado nos arredores da Estação da Lapa, coração do fluxo de pessoas do Centro de Salvador. Na música, Vandal cita mais locais e volta a destacar divisão da cidade, enquanto caminha ao lado de vendedores ambulantes:

Nós tamo aqui de parte, mas tamo atividade Nós não mistura as coisa, UGangue é game life Salvador, minha salcity, duas cidade (duas cidade) Meu carnaval, navio pirata, stage dive (stage dive) […] Cada relógio, cada prata, cada guia Eu rezo pelo meu povo, as morte de cada dia Cidade Baixa, Cantagalo maravilha (maravilha) Cidade Alta, Santo Antônio, vista linda (bela vista) As vezes falta moeda na minha vida (minha vida) Mas nunca falta coragem na minha vida (minha vida)

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A verdade da fé e dos desejos

Vandal sempre demonstrou a grande fé que tem em Santa Dulce dos Pobres (1914–1992). Ele costuma carregar uma pequena imagem dela nos shows como forma de reverência.

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Conhecida como “Anjo Bom da Bahia”, ela deixou um legado de admiração que chega até aos não-devotos. Em COREHARDCOREH, Vandal inicia com um pedido de benção:

Oh, poderosa e gloriosa Santa Rita de Cássia Santa Rita de Cássia, poderosa e gloriosa Oh, minha irmã Dulce, rogai por nós Rogai por nós, oh, minha irmã Dulce

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Em VIDA LONGA, com o Rap Nova Era, ele evoca uma forte tradição de lares de famílias católicas de Salvador: a sintonia na rádio Piatã FM em um determinado momento do dia para ouvir a versão de “Ave Maria” da cantora Marie Deutschland.

Dezoito horas, Ave Maria, horário sagrado Dois de finados, meus parceiros na Quinta dos Lázaros

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Até quem não ligou o próprio rádio, ouve, por tabela.

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Parte dessa fé também é usada na vontade de transformar a cidade. Em SALCITYH PARTH 2 (Remix), Vandal, mais uma vez, assume a linha de frente dessa missão:

Puxo o bonde das favela de SSA (de SSA) Puxo o bonde das favela de SSA (de SSA) Puxo o bonde das favela de SSA (de SSA) Puxo o bonde das favela de SSA (de SSA)

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Em NOVAH SALVADORH PARTH 2 (Remix), segue na defesa de mudanças e critica a falta de percepção de alguns em relação a determinados temas:

Novo sentimento e voz, nova Salvador pra nós […] Minha cidade é reggae, minha cidade é rock Gourmetizaram o rap, gourmetizaram o pagode Tô aqui sentado vendo o que você não vê Um dia eu conto essa verdade, mas não sei se acordo vocês […] Ei, deixa eu falar pra Salvador Não existe porta aberta, a guerra ainda não acabou Levanta e anda, minha nova Salvador Levanta e anda que a favela ainda não conquistou

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A verdade das misturas

Vandal é um barril de referências, e apesar de explorar vários movimentos internacionais, é na Bahia que ele ainda mantém as raízes para as criações.

Em entrevista ao site Monkeybuzz, ele cita, ao responder sobre as maiores inspirações, artistas e bandas como Gal Costa, Timbalada e Olodum. Nesse caldeirão que envolve MPB, axé e samba-reggae, outro ritmo mencionado merece uma atenção especial: o pagode.

Vandal transmite esse gosto não só na voz, mas no corpo, como nesta apresentação no Festival Cajacity, realizada em 2021, em que ele dança ao som de “Só botando forte”, do MC 7KSSIO.

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Em VIDA REAL, lançada em 2017 e que conta ainda com Correria, Makonnen Tafari, Baco, Lukas Kintê e Ravi Lobo, Vandal menciona o pagodeiro Igor Kannário, um dos maiores representantes do gênero, para mandar um recado:

Eu grito alto, hardcore Minha voz eu marco Eu sou Vandal no pagode Vocês precisam de um Kannário

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Em CHINEZAH (Remix), Kannário é novamente citado, mas, agora, ao lado de Edcity, outro artista responsável por causar importantes inovações no pagode:

É o verdadeiro guerreando pra caralho Sou o novo Edcity O novo Kannário

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Em NOVAH SALVADORH, uma percussão seca é mesclada com batidas eletrônicas. Uma levada capaz de incentivar um bate-cabeça em uma casa de shows e, ao mesmo tempo, embalar o ritmo de movimentação dos braços ao lado de um trio elétrico:

Original Vandal, Vandal style Vermelho tipo Campari, amargo tipo saudade Eu gosto como elas fazem, se ela ama, ela reage Vive mil e uma noite preocupado com as miragem Superior, Salvador, eu imperador, vem que vem no flow Pagodão, Salvador, amor

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ONLINE (Remix) tem o início marcado pelo áudio de um famoso vídeo em que uma mulher aparenta enganar o companheiro ao dizer que está cuidando dos filhos, mas, na verdade, está dançando na rua como se não houvesse amanhã.

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O que ela estava ouvindo? “Online e metendo”, de Oh Polêmico.

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Nas mãos de Vandal, ficou assim:

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Em TIROH IH KEDAH, mais um recorte vindo do pagode. Dessa vez, da música “Tiro e queda”, do Swing do P.

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O resultado:

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Em GUETO LIXO, em que canta ao lado de Ruh Du Gueto, o pagode é ainda mais sentido nas batidas. Na letra, ele menciona, novamente, a maior festa da cidade, e faz uma crítica a determinados admiradores do tradicional bloco afro Ilê Ayê:

Meu bloco é afro, não gourmet Força ancestral Vocês só são Ilê quando vêm pro carnaval

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De volta à entrevista dada ao Monkeybuzz, é preciso destacar que Vandal revela uma grande admiração pelo pagodeiro Bambam, que em 2007, quando cantava no grupo Parangolé ao lado de Nenel, foi a principal voz de um CD que se tornou histórico.

Esse álbum é um dos mais inspiradores para Vandal, e é fácil entender o motivo pelo título dele: “A verdade da cidade”.

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