← Back to list

Os tempos da escrita de um artigo

Acabo de publicar um artigo intitulado “Odilon Nunes e a composição do povo piauiense: silenciamentos indígenas e ‘mamelucos’ em uma…

Camila Galan de Paula · 2026-05-15 16:10 · 0 claps · 14.1 min read
#escrita #escrita-acadêmica #antropologia #artigos-acadêmico
Open on Medium ↗

Os tempos da escrita de um artigo

Acabo de publicar um artigo intitulado “Odilon Nunes e a composição do povo piauiense: silenciamentos indígenas e ‘mamelucos’ em uma narrativa da história piauiense”. O artigo saiu no volume 21, n. 1 do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi Ciências Humanas. Este não é (somente) um texto de propaganda do artigo, é uma reflexão e uma exposição sobre o longo percurso de como ideias se tornaram um artigo. É uma história que se iniciou há oito anos. Sim, isso mesmo, faz quase uma década que iniciei o percurso intelectual e reflexivo que se materializou no artigo publicado agora.

Em tempos de vídeos curtos, em que nossos cérebros não conseguem mais se concentrar em nada que dure mais do que alguns segundos, e em que o que ocorreu na semana passada já foi esquecido, parece peculiar que alguém se dedique ao desenvolvimento de uma ideia por diversos anos. Ainda mais quando essa ideia se tornou secundária e marginal no projeto mais amplo de uma tese. De todo modo, é o que acontece com tantos de nós, pesquisadoras e pesquisadores, que não conseguimos nos desvencilhar de um projeto intelectual até vê-lo publicado. Eis aqui um resumo do percurso entre percepções iniciais e a publicação de um artigo.

É por ser também professora universitária, além de pesquisadora, que resolvi escrever este texto. A escrita acadêmica é mesmo muito complexa. Como nos lembra Robson Cruz em O mal-estar na escrita acadêmica, que ainda estou lendo, é muito comum a mistificação da escrita acadêmica, e a manutenção da noção de que a escrita flui dos nossos dedos e cérebros de forma direta para o papel. Ok, Robson Cruz não escreve isso, é uma interpretação livre que estou fazendo aqui. Bem livre. De todo modo, percebo também como professora e orientadora que muitos estudantes creem que vão ter uma ideia e escrever. Incomodam-se com a ideia de reescrita, e muitas vezes recusam-se a reescrever algum trabalho comentado ou corrigido. Muitas vezes, a necessidade de reescrita é entendida como falha. Não é. Escrever e reescrever muitas vezes é o único modo de dar forma às ideias. E, no meio do caminho, ler, ler, ler. E conversar, apresentar as ideias, receber comentários: tudo isso integra a escrita. Escrever, apagar, deixar de lado também faz parte. Se eu tivesse uma única dica para dar a quem está começando a escrever academicamente seria: não se apegue ao que escreveu. O que você escreveu não é uma materialização sua, não reflete sua capacidade de reflexão, seu valor, seu eu. É uma materialização mediada do que você está pensando; escrever não é um dom, e sua escrita amadurecerá com o tempo. Mas não com tempo parado, mas com escritas e mais escritas. Em suma: se acha difícil escrever, comece. Por qualquer lugar, de qualquer modo.

Modo coach de escrita desativado, quero começar explicando por que quis expor o processo da escrita deste artigo e sua história.

Tempos e tempos

O primeiro motivo para escrever este texto é pedagógico, como deixei claro anteriormente. Descrever de forma mais detalhada os processos da pesquisa acadêmica em antropologia é algo que defendo. O fiz em meu único outro post aqui no Medium, que se tornou um artigo publicado na revista Novos Debates.

Sempre me interessei por entender como aqueles artigos que lia nas revistas consagradas da área eram escritos. Parecia inatingível publicar em periódicos conhecidos, algo que requeria um nível além de talento ou brilhantismo. Com o tempo, aprendi que não se trata de genialidade, publicar requer bastante trabalho. E tempo. O que fez com que fosse possível publicar o artigo cujo percurso descrevo aqui foi uma questão de tempo e o que eu fiz com ele.

Isso me leva ao segundo motivo para contar os caminhos de um artigo. Assim que aprovei a prova gráfica do artigo “Odilon Nunes e a composição do povo piauiense”, os editores do periódico me pediram para gravar um vídeo de 1 minuto com o resumo, para divulgar em redes sociais e YouTube. São novas formas de divulgar os trabalhos científicos. Ok, eu sou heavy user de redes sociais desde seus primórdios, nada errado nisso. Mas será? Fiquei refletindo, a partir de conversas com colegas mais distantes das redes sociais, sobre a estranheza dos nossos tempos. Não se trata de uma crítica ao modo deste periódico em específico divulgar seus artigos. É algo que vêm se tornando corriqueiro. A questão é outra. E é uma questão de tempo.

Primeiro que nosso tempo vem sendo consumido mais e mais pelo tempo passado nas redes sociais. Incluo-me aí, estou cooptada pelos memes, reels, carrosséis de Instagram, discussões de redes sociais. Isso toma muito tempo das nossas vidas e muito espaço das nossas subjetividades.

Segundo: o crescente número de mestres e doutores sub ou não empregados, ou subfinanciados por bolsas de pesquisa, fazem proliferar as existências digitais de difusão acadêmica. Estou falando de perfis de divulgação, de cursos vendidos em plataformas online. Cursos do fulano, da sicrana. Não cursos de extensão de universidades. Claro, é legítimo que todos busquem formas de obter rendimentos a partir dos conhecimentos que construíram ao longo de anos, às vezes décadas. Mas onde fica o lastro das universidades e outras instituições acadêmicas? Falo sim de um lugar de “privilégio” — eu diria: de direitos trabalhistas assegurados — com um cargo efetivo em uma universidade federal. Sei que muitos colegas competentes, muitas vezes com mais tempo de estudo e pesquisa nas costas do que eu, vendem seus excelentes cursos e formações online. Indiscutível. Ao mesmo tempo, no universo da internet e das redes sociais, tem de tudo. E tem aqueles e aquelas especialistas criando conteúdo desde o tempo em que são “acadêmicos” em suas áreas. Ou seja, desde os tempos de estudante de graduação! (Parêntesis: por que “estudante de graduação” virou “acadêmico”?) E daí temos especialistas que não possuem algo muito fundamental: tempo. Falo do tempo acumulado de estudo, leituras, escrita, formação. A formação leva tempo. Escrever, ler, pensar: é preciso tempo para sedimentar ideias, criá-las, revisá-las.

Na busca de conseguir ocupar os poucos cargos efetivos de professor e pesquisador que existem, as pessoas precisam publicar, publicar, publicar. Na era do publish or perish, o lema é: publique, mande para revista assim mesmo. Ou seja, mais uma vez falta tempo de maturação das ideias. Escreveu, apresentou, publicou. Eu mesma já publiquei assim. Depois leio o que foi publicado e penso que precisaria ter dado mais tempo ao tempo. Trabalhado melhor aquelas ideias. Lido mais. E não estou falando de que a gente sempre achará que pode escrever melhor. Estou falando mesmo de ideias subdesenvolvidas que vão para publicação pela pressão de ter publicações para currículo, para pontuar no barema. Nada pior para a escrita do que isso.

Aqui, numa manhã de quarta-feira, estou usando um raro tempo para escrita entre preparações de aula, orientações, tarefas da coordenação de curso, cuidado com minha bebê, para escrever este texto que nada irá “contar” para minha vida acadêmica (Outro parêntesis: este texto saiu em três manhãs, parcelado entre tantas tarefas e demandas). Estou aqui gastando tempo com a escrita de algo que não conta. E isso para poder contar como se despende tempo construindo uma reflexão por escrito. Poderia estar rolando o feed de rede social, mas preferi gastar meu tempo com uma atividade em que o tempo tem outra qualidade: a escrita. E lá vamos nós, para o relato. Para 2018.

Iniciando um percurso: como conheci o ensaio de Odilon Nunes

No início de 2018, já professora concursada no Colegiado de Antropologia na UNIVASF, eu sabia que queria iniciar um doutorado no ano posterior. Desde 2017, um ano após meu início profissional como professora do magistério superior, comecei a pensar em um projeto de pesquisa para o doutorado. No mestrado (2013–2015), eu tinha feito uma pesquisa na área de etnologia indígena, realizando campo entre os Wajãpi no Amapá. Além da dissertação em si, eu publiquei reflexões sobre esta pesquisa até 2021, sob a forma de artigos — mais uma vez, o tempo da pesquisa é longo. Mas chegando ao Piauí, decidi que seria a hora de iniciar uma pesquisa inteiramente outra. Com os pés ainda na etnologia indígena, queria partir de algo que me levasse do tema indígena a outros rumos, mas não tinha muita ideia de como começar essa pesquisa. Assim, comecei a ler o que eu encontrava sobre povos indígenas no Piauí.

Em 2017 e 2018, a produção sobre história indígena e antropologia dos povos indígenas no Piauí era ainda muito mais restrita. Assim, fui levada ao volume História dos índios do Piauí, e li com muito estranhamento as produções de historiadores do século XX e sua narrativa reiterada de fim completo dos indígenas no Piauí. Também foi entre esses anos que me deparei com o ensaio que analiso no artigo “Odilon Nunes e a composição do povo piauiense”. Havia um exemplar do livro Estudos de História do Piauí, em que ele foi publicado, na biblioteca da minha instituição. Meu estranhamento com a literatura historiográfica que eu lia fez eco no capítulo “A farsa do extermínio: reflexões para uma nova história dos índios no Piauí”, de João Paulo Peixoto Costa, com o que me deparei no Academia.edu (estão vendo? não sou contra redes sociais). Pronto, achei alguém que estava achando tudo muito estranho, eu não estava só. Não se escreve só, não se pensa só, não se estuda só: esse é tema para o próximo tópico.

Antes de seguir, vou apenas continuar contando esse início, lá em 2018. Pois bem. Querendo fazer um doutorado, o que eu tinha, sem ter feito pesquisa de campo, eram leitura acumuladas de trabalhos em antropologia, história e ensino de história que me permitiam fazer algumas perguntas de pesquisa. Especificamente sobre o ensaio de Odilon Nunes que analiso, entendi que ele, junto com outros historiadores piauienses da metade do século XX, reiteravam a ideia de fim dos indígenas. João Paulo Peixoto Costa chamou esse procedimento de “farsa do extermínio”. Segui essa ideia para defender a hipótese de permanências indígenas sob formas não étnicas nos projetos de doutorado que apresentei nas seleções da USP e do Museu Nacional/UFRJ. Linkei apenas o projeto apresentado no Museu, por ser mais sintético. Eu não executei esse projeto, não apenas porque não cursei o doutorado no Museu Nacional (apesar de ter sido aprovada no processo seletivo), mas porque a pesquisa de campo seguiu rumos muito diversos. Mas essa história é a história da minha tese, não deste artigo. Quem ler o projeto verá que que eu não pretendia fazer uma análise da historiografia piauiense ou sequer de uma escrita da história específica, como fiz no artigo cuja história estou narrando. Mas o ensaio de Odilon Nunes já estava lá, citado nas referências do projeto.

Pesquisa não se faz só: estabelecendo uma rede

Como comentei, encontrei um capítulo do historiador e professor do IFPI, João Paulo Peixoto Costa no Academia.edu. Ali, entrei em contato com ele, demonstrando meu interesse em seu texto. Se não em engano, isso foi no início de 2018. Um ou dois anos depois, João Paulo me convidou a integrar o GT “Os Indígenas na História — Piauí”. (Na época o GT ainda se chamava “Os Índios na História”, como o GT nacional da ANPUH. E é possível ver que meu projeto ainda usa o termo “índio”. É preciso lembrar que o termo “índio” era muito usado por pesquisadores nos anos 2000 e até em meados dos 2010). No Piauí, iniciava-se uma ampliação dos estudos em história indígena, um fortalecimento das lutas indígenas pelo reconhecimento estatal e um aumento das pesquisas etnográficas com povos indígenas. Parte dessa história contamos em um capítulo publicado no livro Povos Indígenas do Brasil (2017–2022).

Fiz, em 2021, uma conferência de abertura do I Colóquio Internacional do GT “Os Índios na História” — ANPUH PI. Ali pude expor resultados parciais da análise do silenciamento indígena no ensaio de Odilon Nunes, pondo essa análise em paralelo a procedimentos de silenciamento na região em que fiz pesquisa de campo, no sudeste do estado. Esse caminho de comparar procedimentos de silenciamento na escrita da história do estado e na região da pesquisa foi um caminho que acabei abandonando. A tese não integrou a análise do ensaio de Nunes. Mas me adianto. Pulei para 2021. Ainda temos 2019, 2020 antes…

Quis apenas mencionar que a inserção em uma rede de pesquisadores (sobretudo de historiadores) foi fundamental para que eu pudesse levar adiante o projeto de analisar de forma detida o ensaio de Odilon Nunes, algo que eu não imaginava fazer quando ingressei no doutorado. Os encontros e as conversas refletem-se nas nossas produções e projetos intelectuais.

Disciplina no doutorado: primeira análise

Durante o doutorado em Antropologia Social que realizei na USP cursei em 2019 duas disciplinas que foram determinantes para este artigo existir. A primeira delas intitulava-se “Significado e Poder”, e era uma disciplina da Antropologia Social. O professor João Felipe Gonçalves, que trabalha com essa abordagem, comentou algumas vezes sobre a “antropologia da história”, sobretudo a partir de um artigo de Palmié & Stewart. Não lemos essa referência na disciplina, mas me interessei e li por conta própria. Achei neste artigo um vértice de sustentação do meu projeto intelectual da pesquisa de doutorado. Toda a tese alicerça-se na ideia de fazer uma antropologia da história. E o artigo sobre o qual estou aqui escrevendo, que ficou de fora da tese propriamente dita, também usa essa referência. Foi ainda no início do doutorado, por influências diversas, que li Silenciando o passado, de Trouilot, que seria um marco e uma inspiração metodológica para eu pensar os silenciamentos indígenas na escrita da história do Piauí (como faço no artigo) e em silenciamentos em histórias locais (como faço na tese).

A segunda disciplina eu cursei na História Social, e fiz uma escolha peculiar. A matéria chamava-se “Civilização e Barbárie: Manuel Gonzalez Prada e Euclides da Cunha” e era fortemente ancorada no projeto de pesquisa de pós-doutoramento no ministrante, o Dr. Ricardo Sequeira Bechelli. Como integrar as preocupações tão circunscritas deste curso com minha pesquisa? Resolvi analisar um ensaio de Odilon Nunes, “O Piauí, seu povoamento e seu desenvolvimento”, a partir das discussões sobre como as noções de civilização e barbárie aparecem no pensamento ocidental. Pude então tentar compreender “como civilização e barbárie aparecem em um artigo de Odilon Nunes.” (p. 8), como escrevi no trabalho da disciplina (que relaciono aqui, para mostrar como um escrito pouco desenvolvido e ligado a uma disciplina pode ir ganhando outros contornos até chegar ao artigo publicado). Foi nessa ocasião que consegui ler vários trechos de Os Sertões, de Euclides da Cunha, o que inspirou diretamente a análise comparada com o ensaio de Odilon Nunes. Essa análise, reescrita várias vezes, tornou-se a seção “Os Sertões ‘invertido’” do artigo publicado.

Análise inicial publicada: o lugar dos anais de congressos

A partir da escrita do trabalho da disciplina cursada no Programa de Pós-Graduação em História Social, propus um resumo para apresentar na VI Congreso de la Asociación Latinoamericana de Antropologia, que ocorreria em Montevidéu no final de 2020. Por força do vírus de COVID-19 e seus efeitos, o evento foi online. Apresentei um trabalho que não teve muitas repercussões nem gerou muita discussão. Mas resultou na publicação nos Anais do evento.

Esse texto ficou ali, só esperando ser retomado.

Relatório de qualificação e uma tentativa de capítulo

Para quem viveu 2020 (qualquer pessoa lendo este texto agora, imagino), os tempos foram estranhos. Eu iniciaria a pesquisa de campo neste ano o que foi, obviamente, impossível. Assim, fiquei em casa, relendo o que eu já tinha em mãos, procurando todo tipo de documento online possível sobre a história do sudeste do Piauí. Fiquei, ainda, refazendo um projeto de pesquisa para a Wenner-Gren Foundation. Eu tinha posto na minha cabeça que tentaria de todo jeito não fazer pesquisa de campo com dinheiro próprio. Veja: eu estava no doutorado, mas já era professora efetiva há alguns anos. Eu sabia que no lado de lá do título de doutora vinha o que temos aí: zero ou parcos recursos de pesquisa. A situação do ensino superior e da pesquisa no Brasil está desanimadora. E já estava. Então eu me fixei na ideia de tentar obter uma bolsa para pesquisa de campo nessa fundação gringa, que era um dos únicos lugares que identifiquei ser possível. Em 2020, meu primeiro projeto foi denegado. Reescrevi o projeto após uma oficina de escrita de projetos com Ana Flávia Bádue, que conhecia os meandros do mundo de projetos de financiamento dos EUA. Dessa vez, consegui os recursos. Conto isso por um motivo: este artigo sobre um ensaio de Odilon Nunes só veio a existir porque consegui esta bolsa. Parece curioso que um artigo que não versa sobre a pesquisa de campo tenha sido motivado pela obtenção de uma bolsa para fazer pesquisa de campo. Explico.

Em primeiro lugar, o dinheiro da bolsa me levou a fazer pesquisas em arquivos em Teresina, e foi no Arquivo Público do Estado do Piauí que encontrei o livro de Abdias do Nascimento que cito no artigo. Mas esse é um ponto lateral. Quando obtive a aprovação da dissertation fieldwork grant da Wenner-Gren Foundation, tive que qualificar meu doutorado. Ao menos assim entendi os requisitos da fundação: era preciso ter o status de all but dissertation (ter cumprido todas as etapas do doutorado antes da tese). No caso do programa de pós que fiz, em geral qualificamos um texto já baseado na pesquisa de campo. Mas ali, em meados de 2021, tive que improvisar e qualificar um texto pré-campo. O que eu já tinha? O texto incipiente sobre o ensaio de Odilon Nunes. Assim, li mais. Li uma bibliografia que eu não lera ainda, e que fundamentou o artigo agora publicado: Palmié & Steward, Koselleck, Hartog, Trouillot. Essas leituras acabaram levando, posteriormente, toda a tese para o caminho da antropologia da história, ainda que de um modo muito diverso do que faço neste artigo.

Qualifiquei esse capítulo inicial que, no fim das contas, não entrou na tese.

O capítulo que não coube: escrevendo o artigo em si

Em 2021 e 2022 fiz a pesquisa de campo para o doutorado. Em 2022, analisei meus dados, li mais, e dei aulas. Eu não peguei 48 meses de afastamento para o doutorado, embora eu tivesse direito, e sim um pouco menos de 3 anos, mas divididos em 18 meses, depois mais 9, depois mais 6…

Fiz doutorado em meio à pandemia. Tudo ficou incerto, os prazos se alargaram. Quando 2023 se iniciou, decidi que precisava começar a escrever a tese. Queria começar e terminar em 2023. Assim, em março, quando as férias chegaram (fora de época, o calendário de minha instituição estava atrasado), fiquei em dúvida se escrevia tese ou viajava. Fiz as duas coisas. Elaborei um plano de tese e reescrevi o relatório de qualificação para torná-lo um capítulo da tese. Este capítulo é uma versão mais próxima do atual artigo. Escrevi o capítulo, enviei para a orientadora e entrei num voo para Recife para visitar amigos ali e em João Pessoa. A vida não é só trabalho.

Ao longo de 2023, segui tateando a escrita da tese, com dificuldade em conciliá-la com as atividades docentes. Foi só em 2024 que de fato iniciei a escrita da tese de forma mais consistente e que o projeto de tese ganhou a forma mais próxima da final. Quando comecei pela escrita do capítulo 1, que se desdobrou no 2, e planejei os demais, ficou claro que o capítulo sobre o ensaio de Nunes estava fora. Em julho de 2024 me afastei para o doutorado para concluir a escrita da tese. No mesmo mês, descobri que, finalmente, estava grávida. Assim, numa corrida contra o tempo, consegui terminar os três capítulos que faltava entre julho e outubro. A tese entregue para a banca, a banca marcada para dezembro, tive tempo de olhar mais uma vez para o capítulo abandonado. Foi aí que escrevi a primeira versão do artigo e submeti ao Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas.

Os tempos do artigo, o tempo da maternidade

11 de novembro de 2024 foi a data em que submeti o artigo no periódico. No final de fevereiro de 2025, três dias após o nascimento de minha filha, recebi a resposta do periódico com o status de artigo aprovado com pequenas revisões ao manuscrito. Pediam para eu submeter as revisões até o final de março. Seria, claro, impossível seguir essa data. Escrevi à editora-chefe pedindo mais prazo, por conta da licença maternidade. Felizmente o mundo é feito de gente, e não de robôs, e acertamos de eu enviar os ajustes até agosto. Não vou mencionar os pareceres, pois não são de minha autoria. Mas o artigo precisou de ajustes pequenos. Consegui mandar em agosto a versão revisada, e em setembro de 2025 o artigo foi aceito para ser publicado no primeiro número do volume de 2026. E eis ele aqui.

O percurso para que uma ideia se torne um artigo foi longo. E, nesse caso, foi também tortuoso. Eu nunca previ analisar um ensaio de Odilon Nunes. Mas as circunstâncias do doutorado — disciplinas, relatório de qualificação, pandemia… — foram me levando a esse caminho. E temos, então, um capítulo abandonado que virou artigo.

Mais no começo deste texto, falei da minha estranheza com os tempos em que nós, pesquisadores e professores, precisamos fazer propaganda de nossos trabalhos, artigos, eventos. Se você chegou ao final deste texto, contudo, terá visto que eu não deixei de propagandear meus feitos — os programas de pós-graduação em que fui aprovada, os eventos dos quais participei, os financiamentos que obtive para a pesquisa. Sou também, afinal, filha de nossos tempos. Sempre pertencendo a eles, aos tempos de hoje, mas tentando tergiversar um pouco, fazendo uma diagonal aqui e ali, quis mostrar que publicar um artigo e se inserir de forma mais ou menos exitosa no mundo acadêmico demanda tempo e muitas páginas “gastas”, muitas páginas escritas que ficam para trás. Escrever é reescrever, ler, desistir, retomar. E em paralelo ao trabalho, corre o restante da vida e seus tempos.

Um artigo, definitivamente, não cabe num reels. O tempo de fazer um artigo, também, é todo outro.


메타데이터
post_id
0ade4faaf562
slug
os-tempos-da-escrita-de-um-artigo-0ade4faaf562
url
https://medium.com/@c.galan.depaula/os-tempos-da-escrita-de-um-artigo-0ade4faaf562
canonical_url
https://medium.com/@c.galan.depaula/os-tempos-da-escrita-de-um-artigo-0ade4faaf562
author_url
https://medium.com/@c.galan.depaula
status
ok
fetched_at
2026-06-09 15:37:30