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A academia me fez odiar meu corpo

Abro este texto em um espaço que talvez não pareça “o ideal” para quem mede tudo por alcance. Não estou atrás de visualizações. Quero…

Corpo de Texto - o que cabe em mim e no mundo · 2025-08-31 02:37 · 0 claps · 2.0 min read
#corpo #ozempic #caneta #food #magreza
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A academia me fez odiar meu corpo

Rafaela Araújo/Folhapress

Rafaela Araújo/Folhapress

Abro este texto em um espaço que talvez não pareça “o ideal” para quem mede tudo por alcance. Não estou atrás de visualizações. Quero escrever do meu jeito, sem o jargão que a formação acadêmica às vezes impõe e que me afastou do prazer de escrever.

Há cerca de dois anos, ainda estagiária de jornalismo, comecei a academia. A promessa era simples: mexer o corpo para dormir melhor (minha psicóloga e meu psiquiatra insistiam). Não funcionou — assunto para outra hora. Em três meses de treino regular, percebi outra coisa: passei a odiar meu corpo. Até então, eu “cumpria” o que a sociedade valoriza: era magra. Alta eu nunca fui; meus 1,54 m me acompanham.

A academia prometia sono; entregou comparação. Esse ambiente, vendido como saudável, muitas vezes nos faz sentir ridículas por não termos barriga chapada nem braços “perfeitos”. E quando a fibromialgia entrou na equação, a régua do desempenho virou crueldade: diferente do que o TikTok promete, não é trivial ganhar músculo sentindo dor para levantar 2 kg. A internet adora atalhos; o corpo real não.

Com as ideias ainda desembaraçando (graças a Deus existem editores), reconheço meu ponto sensível: a barriga. Em dias ruins, já cogitei buscar um médico que prescrevesse as canetas para perda de peso. Em dias bons, lembro que isso não é solução mágica e que meu corpo opera em outra velocidade. Ele não aguenta musculação cinco vezes por semana, meu ritmo é outro: pilates, eletroestimulação, hidroginástica. A massa magra talvez venha devagar. O difícil é sustentar o próprio tempo em um mundo imediatista que cobra resultados.

Um exercício simples para pensar a magreza: lembre “Laços de Família”, quando a personagem Helena vivia de salada. Dos anos 2000 da salada eterna ao 2025, das metas de proteína a cada poucas horas, a lógica é a mesma: controle. Como se um corpo vivesse apenas disso.

Penso também numa amiga da faculdade que sonhava ter o corpo da Ísis Valverde. Lindo, sem dúvida. Depois de muita terapia, ela entendeu o óbvio que nos negam: não é só dieta e exercício. Há ossos, histórias, contextos. Mais do que perseguir a Gisele Bündchen do imaginário coletivo, talvez caiba ser mais a gente. Magreza nunca foi sinônimo de saúde. Ossos, histórias e contextos não cabem em planilhas de calorias.

Tenho a sensação de que tudo virou performance: academia, corrida, natação. Muitas vezes parece que o interesse é menos saúde e mais exibição: o check-in, o relógio de treino, o tênis da moda, a garrafa personalizada. Hoje não basta ir: é preciso performar.

Para terminar, deixo a provocação que ouvi de um especialista: dá para ir à academia cinco vezes por semana e, ainda assim, ser sedentária. Talvez saúde seja escolher o próprio ritmo, não performá-lo.

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*Vanessa Araujo é jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atua em política e Judiciário; tem interesse pessoal por pautas de saúde.


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