A academia me fez odiar meu corpo
Abro este texto em um espaço que talvez não pareça “o ideal” para quem mede tudo por alcance. Não estou atrás de visualizações. Quero…
A academia me fez odiar meu corpo

Rafaela Araújo/Folhapress
Abro este texto em um espaço que talvez não pareça “o ideal” para quem mede tudo por alcance. Não estou atrás de visualizações. Quero escrever do meu jeito, sem o jargão que a formação acadêmica às vezes impõe e que me afastou do prazer de escrever.
Há cerca de dois anos, ainda estagiária de jornalismo, comecei a academia. A promessa era simples: mexer o corpo para dormir melhor (minha psicóloga e meu psiquiatra insistiam). Não funcionou — assunto para outra hora. Em três meses de treino regular, percebi outra coisa: passei a odiar meu corpo. Até então, eu “cumpria” o que a sociedade valoriza: era magra. Alta eu nunca fui; meus 1,54 m me acompanham.
A academia prometia sono; entregou comparação. Esse ambiente, vendido como saudável, muitas vezes nos faz sentir ridículas por não termos barriga chapada nem braços “perfeitos”. E quando a fibromialgia entrou na equação, a régua do desempenho virou crueldade: diferente do que o TikTok promete, não é trivial ganhar músculo sentindo dor para levantar 2 kg. A internet adora atalhos; o corpo real não.
Com as ideias ainda desembaraçando (graças a Deus existem editores), reconheço meu ponto sensível: a barriga. Em dias ruins, já cogitei buscar um médico que prescrevesse as canetas para perda de peso. Em dias bons, lembro que isso não é solução mágica e que meu corpo opera em outra velocidade. Ele não aguenta musculação cinco vezes por semana, meu ritmo é outro: pilates, eletroestimulação, hidroginástica. A massa magra talvez venha devagar. O difícil é sustentar o próprio tempo em um mundo imediatista que cobra resultados.
Um exercício simples para pensar a magreza: lembre “Laços de Família”, quando a personagem Helena vivia de salada. Dos anos 2000 da salada eterna ao 2025, das metas de proteína a cada poucas horas, a lógica é a mesma: controle. Como se um corpo vivesse apenas disso.
Penso também numa amiga da faculdade que sonhava ter o corpo da Ísis Valverde. Lindo, sem dúvida. Depois de muita terapia, ela entendeu o óbvio que nos negam: não é só dieta e exercício. Há ossos, histórias, contextos. Mais do que perseguir a Gisele Bündchen do imaginário coletivo, talvez caiba ser mais a gente. Magreza nunca foi sinônimo de saúde. Ossos, histórias e contextos não cabem em planilhas de calorias.
Tenho a sensação de que tudo virou performance: academia, corrida, natação. Muitas vezes parece que o interesse é menos saúde e mais exibição: o check-in, o relógio de treino, o tênis da moda, a garrafa personalizada. Hoje não basta ir: é preciso performar.
Para terminar, deixo a provocação que ouvi de um especialista: dá para ir à academia cinco vezes por semana e, ainda assim, ser sedentária. Talvez saúde seja escolher o próprio ritmo, não performá-lo.
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*Vanessa Araujo é jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atua em política e Judiciário; tem interesse pessoal por pautas de saúde.
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