agora eu sou o som
Minha testa fica quente. A sensação é quase um estado febril: quente, frio, quente, frio. Danço na pista que montei na garagem de casa. É…
agora eu sou o som
Minha testa fica quente. A sensação é quase um estado febril: quente, frio, quente, frio. Danço na pista que montei na garagem de casa. É meu aniversário de trinta e um anos. Queria ter feito uma festa aos trinta; me parece mais simbólico comemorar números fechados, como se eles realmente encerrassem alguma coisa. Mas o ano passado foi um ano de tristeza. Minha mãe tinha ficado doente, e a vida inteira passou a respirar no ritmo da espera. Descobri que quem adoece nunca é uma pessoa só.

Arquivo pessoal: Caio Porciuncula mascarado. Foto: Edson Júnior.
Resolvi comemorar um ano depois, como se fosse possível devolver ao tempo aquilo que ele levou de mim, ou convencê-lo de que ainda havia alguma coisa para festejar. Pendurei luzes, empurrei os móveis para os cantos e deixei a garagem virar pista de dança. Não havia muita gente, mas havia música suficiente para ocupar os espaços vazios. Sempre achei que uma boa batida consegue sustentar um corpo quando ele já não sabe muito bem como continuar de pé.
O suor escorre pela testa, o peito acelera, o chão parece respirar junto comigo. Minha loucura tem trilha sonora. Existe um momento em que o corpo deixa de obedecer ao pensamento e passa a responder apenas ao grave da caixa de som. As luzes embaralham os rostos, e o corpo encontra uma inteligência que a cabeça nunca soube explicar. Talvez dançar seja a forma mais bonita que encontrei de enlouquecer sem assustar ninguém. Enquanto me movo, o mundo perde um pouco do volume.
Na pista de dança encontro amores: amores de longa data, amores rompidos, falsos amores. Encontro também aqueles que nunca chegaram a existir, mas insistem em voltar quando a música começa. Nada disso importa agora. Há muitas sensações e angústias correndo pelas minhas veias, memórias disputando espaço com a caixa de som, mas tudo o que meu corpo pede é movimento. Continuo dançando até que o pensamento perca o fôlego.
Não sinto mais meus pés. Estou leve, flutuando. Já não sei se sou eu quem atravessa a música ou se é ela quem atravessa meu corpo. Alguns ritmos suspendem a gravidade das coisas, fazem esquecer o peso do meu próprio nome. Enquanto a música toca, tudo continua existindo, mas deixa de pesar. É pouco, eu sei. Mas, por alguns minutos, é suficiente.
Agora eu sou o som. Não escuto a música; é ela que me escuta. Meu coração aprende outro compasso, meus braços repetem movimentos que nunca ensaiei, minhas pernas entendem uma língua que a boca não conhece. Será que dançar já curou alguém? Por uma noite inteira, pelo menos, convence o corpo de que ainda vale a pena continuar em pé.

Arquivo pessoal: Eu na pista de dança. Foto: Eric Rodrigues.
메타데이터
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