“Zona de Interesse” e a crise moral
Toda obra de arte, por via de regra, é amoral. Se não é, não pode ser considerada como tal.

The Zone of Interest (2023), dirigido por Jonathan Glazer
“Zona de Interesse” e a crise moral
Toda obra de arte, por via de regra, é amoral. Se não é, não pode ser considerada como tal.
Cito aqui um trecho de uma entrevista feita à Júlio Bressane: “Você entende a arte, a criação, como resistência?" Resposta: "Não (longa pausa) acho que não, a arte é um distúrbio social, uma sociopatia, é associal e inatural (…)” e, devo complementar, amoral:
1. moralmente neutro (nem moral, nem imoral); que não leva em consideração preceitos morais; estranho à moral.”a ciência assim como as leis da natureza são totalmente a.”
- ÉTICA
que se mantém exterior ao julgamento ou qualificação moral, como, p.ex., o animal irracional ou, em circunstâncias frequentes, a infância ou a loucura, em contraste ao caráter consciente e refletido da imoralidade.
(Definições de Oxford Languages)
“Zona de Interesse” foi rechaçado por parte da crítica nacional e internacional, alguns chamando-o de “filme de ficção-científica”, outros declarando que é “uma caixinha perfeita de anti-cinema”.
Devo dizer que acho ambas definições muito pertinentes.
A primeira, em função da forma utilizada, que causa distanciamento, como se aqueles personagens fossem, de fato, extraterrestres.
A segunda porque, novamente, o filme se assemelha aos vídeos de câmeras de segurança de lojas de comércio — que utilizam lentes grande-angulares, para maior alcance de campo — as quais se movimentam horizontalmente de maneira muito suave, de um lado para o outro, como se o elemento humano ali não estivesse presente.
Tudo isso é proposital, é claro.
Porque a idéia de “Zona de Interesse” é, a partir de tais elementos, tentar reproduzir uma espécie de espelho. Espelho cujo reflexo é insuportável — pelo menos para algumas pessoas — que preferem se retirar, em negação completa, ao se enxergarem naquelas outras pessoas, naqueles “extraterrestres”: Pois é insuportável pensar que elas mesmas foram responsáveis por crimes considerados indizíveis.
Preferem, por fim, fechar os olhos e não enxergar o reflexo proposto pela obra.
Preferem não se enxergar no cotidiano daquela família; as posições de poder provenientes da hierarquia daquela casa um tanto quanto comum, mas que guarda um segredo dentro de sua perfeita fachada.
Preferem fechar os olhos ou olhar para o outro lado, quando o patriarca vai para o seu cargo de trabalho dentro do Governo.
Preferem virar as costas enquanto a esposa fica em casa, torturando as funcionárias, por meio de pequenas ameaças.
Preferem sair correndo enquanto aquelas crianças, que poderiam ser seus filhos, brincam, felizes, com suas miniaturas de soldadinhos de guerra.
Então, por fim, essa recusa leva a reprodução de outro espelho, em relação à outro conflito. Conflito este que tem ocorrido desde o fim da Segunda Guerra Mundial e persiste até os dias atuais, com intensidade e consequências cada vez mais danosas para a humanidade.
Assim, fica mais palatável esmiuçar a questão; enxergar o reflexo… ajuda na digestão da obra.
“Zona de Interesse” é um filme para além do conceito de “banalidade do mal”.
Porque apenas o mal existe: A pulsão de morte impera dentro do contexto retratado pela obra.
Portanto, o longa nos obriga a lidar com a banalidade de tudo.
메타데이터
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