Uma mexerufada à moda antiga
Imagem gerada pelo ChatGPT resultado do meu pedido para que ilustrasse este post.
Uma mexerufada à moda antiga

Imagem gerada pelo ChatGPT. Resultado do meu pedido para que ilustrasse este post.
Plenitude
É fugaz a sensação de serenidade. De vida plena em si. Despegada de acções e razões próprias ou alheias. Tão só o sentimento de tudo estar no lugar, sem necessidade de extras; na tranquila ausência de palavras de compreensão ou reconhecimento. Nem sequer falta companhia. Há minutos de plenitude vindos sabe-se lá de onde e porquê. Tudo faz sentido sem explicação. Quem sabe consequência de seguir rumo próprio e independente com o cuidado de não criar dano de modo leviano. Quem sabe apenas sorte efémera.
Nessas alturas de calmo e simples contentamento apaga-se a ideia de falha, de desentendimento e de comparação. A vida basta-se a ela mesma, só por fluir. E é alegre consigo própria na memória, no momento vivido e sem desejo de ser recordada após a morte. Se vale por si, para quê necessidade de consagração? Consagra-se em vida. Sendo. Brotando, correndo e desaguando em nenhures.
E há os dias de incompletude. Não de remorsos pelo passado nem por desejos impossíveis de glória futuros. O que dói é o presente e a permanente consciência do erro. Traço de carácter que inviabiliza a vida fácil. O sofrimento causado pela imperfeição própria e alheia. E a zanga pela leviandade e arrogância de quem julga de ânimo leve. Todos opinamos, todos emitimos juízos de valor. O que agride é o modo frívolo com que se elogia e critica sem qualquer critério de honestidade. Expressões ofensivas que resultam antes de mera ignorância ou oportunismo. Venenos que funcionam como elixires do sucesso. Fórmulas mágicas para a aceitação, carinho e apoio das massas. À custa do prejuízo alheio. É a vida como sempre foi.
Oportunismo
É recorrente o sentimento de desfasamento do tempo dos orientadores de massas. Há vinte anos pugnava por maior equilíbrio e necessidade de dar voz à direita, que no nosso país estava de castigo por vício e preconceito. Quase solitária, já que os agora impantes ultra-conservadores, que aproveitam a onda favorável, estavam então a lamber as botas das figuraças e redes de interesse de esquerda que lhes dessem palco e estatuto. Revolve o estômago ver as voltas de cobra que esta gente dá para estar sempre na crista da onda.
Fazer a justa contra-corrente, recusando viver do oportunismo, é motivo de desconsideração. Nem percebem. Uns por simples falta de inteligência, outros por memória selectiva. Em todo o caso, puro situacionismo.
Basta ter o desprazer de ouvir um votante da extrema-direita e comparar a sua argumentação com as invectivas e o sarcasmo dos conservadores supostamente moderados para perceber os vastos pontos de contacto. Basta reparar na fragilidade premeditada nas críticas dos conservadores ditos moderados aos autocratas de direita, que passam pela divertida caricatura ou suave patético a criar simpatia pelos escroques, quando comparada às justas e demolidoras condenações dos ditadores de esquerda, para perceber o facciosismo ultra-conservador ou, em rigor, ultra-oportunista, que é o que mais caracteriza esta onda interesseira e sonsa de opinion makers com grande audiência capaz de alimentar a avalancha direitista.
Daqui a vinte anos estarão do outro lado. Navegarão sempre para onde sopra o vento favorável. E chamam a isso inteligência, pragmatismo e sensatez. Daqui a vinte anos é possível que estejam a dizer que sempre avisaram dos perigos da direita radical. Os mesmos que a alimentam diariamente a pão-de-ló bem docinho.
Espionagem
Se soubesse ficcionar, enveredaria pelo mundo emergente. A literatura de espionagem terá de se refazer tais são as mudanças impostas pelo mundo tecnológico moderno. Dificilmente o espião tradicional sobreviverá no mundo das grandes empresas tecnológicas, redes sociais e globalização instantânea da informação e desinformação.
Hoje o modo de operar dos grandes interesses económicos instalados, seja empresariais, seja de estados ou de organizações supra-estaduais, passa pelo condicionamento e manipulação dos cidadãos em geral, e peões escolhidos a dedo pelas suas especiais características. As qualidades e vulnerabilidades são exploradas, pervertidas e postas ao serviço de interesses dúbios que ultrapassam em muito o entendimento do espião de ocasião ou espião de conjuntura, usado individualmente pelas suas peculiaridades sem plena consciência da manipulação de que é alvo.
Quantos homens e mulheres feitos bonecos articulados escutam, espiam, partilham e divulgam informação às mãos de interesses cujo alcance jamais entenderão. Quantos praticam crimes, causando danos patrimoniais e morais a terceiros, sem que saibam inteiramente a razão. Quantos matam, morrem e matam-se em vão. Quantos crimes passionais ou doenças mentais servem de pretexto a práticas bem orquestradas fora do alcance do entendimento do cidadão comum. O mesmo que comenta, opina e julga tudo como se estivesse informado. São estas as tais gerações mais bem preparadas de sempre.
메타데이터
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