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O pesadelo

Plena luz do dia, senti-me intimidada e amedrontada pelo homem que amo. Curioso como sempre me senti pequena diante desta espécie de homem…

Ana V. R. · 2026-04-13 23:34 · 0 claps · 2.5 min read
#thoughts-and-feelings #personal-reflection #incident #life #twenties
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O pesadelo

Plena luz do dia, senti-me intimidada e amedrontada pelo homem que amo. Curioso como sempre me senti pequena diante desta espécie de homem. Não o vizinho, um violeiro afiador de facas com pouquíssimos fios de cabelo, se é que há algum. Não o professor de matemática, que era pago para me ensinar aquilo em que eu não tinha interesse. Pago para reprovar todos os indisciplinados. Como sou paga hoje. Nem mesmo meu Pai, a quem afrontei, a quem decepcionei durante toda a juventude. Os homens a quem amo. Não poderia ser diferente. Tememos perder aqueles que amamos.

Este a quem me atei me surpreende desde que nele pousei os olhos. Perturbação só. Ímpeto. Uma necessidade de pesar o clima ante os brasileiros médios ao seu redor. Soma-se a isso a perceptível fratura interna, o despedaço emocional e a pena que suscita das pessoas normais. Um outsider. Como eu. Ainda assim, completamente distinto. Não que isso não seja a regra: um outsider difere de outro por motivo simples. Mesmo que impelidos a certa padronização social, muito rechaçada pelos meus, somos ainda espantosamente ímpares nesta condição de indivíduos. Desconfio deste individualismo alienado, que coloca uns contra outros como competidores indo a lugar nenhum, ou pior, indo direto para a sepultura. Ao mesmo tempo, aprecio a singularidade que nos caracteriza. Que caracteriza também todos os demais bichos.

Mas me disperso do que vim aqui relatar, como de costume. O outsider me intimidou. Ele e eu nos encontrávamos num lugarzinho repleto de outros outsiders. Houve uma roda de conversa, na qual escutei roqueiros maconheiros discutirem o significado de “anti-música”, e também de música em si. Um deles denunciou a forma como a indústria cultural se apropria de ritmos surgidos na marginalidade e os ressignifica, tornando-os acessíveis e secando-os da crítica ao doente sistema em que todos estamos inseridos, do qual não é possível escapar. Outro disse, entre outras coisas, que aquele era um local de resistência.

Um dia, há tempos, ouvi este homem que amo dizer que música boa é aquela feita no bueiro, fora do alcance da indústria cultural. O admirei por isso. Ri muito, sabendo que aprecio tanto músicas famosas e acessíveis quanto a chamada anti-música. Mas… de tempos pra cá o vejo rechaçar tudo. Raivoso, não ficou nem um minuto na roda. Quando me aproximei, lá ele estava, puto da vida, porque “aqueles bêbados drogados acham que estão resistindo a alguma coisa nesse lugar. Isso não é resistência, isso é puro entretenimento! Nada mais. Nunca ouvi tanta merda na minha vida.”. Como se o suspiro daqueles esquisitos num local no qual podem gritar, se montar, fazer moshpits, não significasse nada. Como se não se tratasse dum espaço onde estivessem, sim, fugindo da padronização e domesticação imposta pelos de cima. Me irritei. Não é óbvio que essa gente não vai mudar muita coisa no status quo? Não é evidente que mesmo assim, sua existência é linda? Mas, é claro, não é do meu feitio discutir agressivamente. Nada tinha eu a ver com sua raiva de tudo. Além do mais, o acanhamento…

Nos entendemos, veio a noite, deitei a cabeça no travesseiro, o travesseiro na cama, a cama no chão, a mente no domínio do inconsciente. Logo, uma serpente está na casa de minha avó. Minha avó indefesa num dos quartos dos fundos, o réptil implacável adentrando o local, um ataque quase mortal no qual forço o animal a expelir sangue pela boca asquerosa, só para descobrir, segundos depois, que o bicho sobreviveu. E que manda um ser do qual não lembro a forma, à maneira dos videogames, vir me atacar. Estou num jogo, arte que não domino e que me intimida, prestes a morrer pra um ser que aquela cobra enviou para me matar. Depois (ou antes, não sei), estou às cinco da manhã no portão da casa da minha melhor amiga, conversando com sua mãe e com meu ex-colega de trabalho maconheiro.

Acordei com medo. Posteriormente, no estado de vigília, a Raiva. A vida e seus incidentes.


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2026-06-09 15:37:30