A Lenda da Pedra da Lua
Por Miguel Serrano, em “As Visitas da Rainha de Sabá”
A Lenda da Pedra da Lua
Por Miguel Serrano, em “As Visitas da Rainha de Sabá”

O anel que você vê no meu dedo é de pedra da lua. Quando a terceira lua caiu na Terra, ela mergulhou no mar. Ao afundar nas águas, soltou bolhas, como o último suspiro de um homem que se afoga. Essas bolhas se transformaram em pedras da lua. Séculos depois, quando as geleiras recuaram em direção aos polos, deixando Aryana Vaiji abandonada e a ensolarada cidade de Avalon transformada em uma cidade de morte, os primeiros seres humanos, homens de olhos azuis e cabelos loiros, arriscaram suas vidas na água para coletar pedras da lua. Eles as incrustaram em suas adagas de pedra e as colocaram em suas testas para que pudessem ver a antiga Cidade da Aurora, chamada Aryana Vaiji, e a antiga Cidade do Sol, chamada Avalon. Dessa forma, a pedra da lua se tornou o terceiro olho, mostrando aos homens o que seus olhos azuis não podiam ver. Os homens daqueles tempos antigos eram chamados de Caminhantes da Aurora, e suas mulheres, cujos cabelos também eram loiros e cujos olhos eram de um azul profundo como as águas onde a pedra da lua foi encontrada, eram chamadas de Guardiãs da Aurora. Essas mulheres colocavam a pedra da lua entre os seios. Com o tempo, os homens procuravam suas mulheres em busca da pedra da lua, para que pudessem contemplar a Cidade da Aurora e a Cidade do Sol. Se não perecessem nas torrentes selvagens de água, eles se perdiam entre os seios brancos de suas mulheres. Esta é a história de um amor eterno, que nasce entre os gelos, mas logo se mistura a sonhos de morte e a um novo amanhecer. Os primeiros heróis foram aqueles que se entregaram ao holocausto do amor. Ao morrerem, vislumbraram pela última vez a Cidade da Aurora e sentiram, derradeiramente, o brilho leitoso da lua. Já os primeiros conquistadores da terra foram aqueles que recusaram o amor, escolhendo como símbolo o lã branca do carneiro. Seguindo um messias, marcharam sobre a terra e a fizeram sua. O que buscavam era uma Avalon deste mundo. Para eles, a pedra da lua tinha um significado diferente. Simplesmente a colocavam entre os olhos, da mesma forma que seguravam suas adagas nas mãos. Seu messias, cujo nome muda com as eras, era para eles apenas o primeiro Caminhante da Aurora. Seu verdadeiro emblema era a lã branca do carneiro.
Quando olhei pela primeira vez para a pedra da lua, um sábio me revelou seu significado. “Ela aponta para dois caminhos”, disse ele. “Um, na verdade, leva à perdição, embora finja o contrário, enquanto o outro te conduz a um oásis vazio onde homens permanecem sozinhos sobre os gelos, empunhando suas espadas de batalha. Para sobreviver, é preciso ser valente; é preciso empunhar a adaga de pedra e matar o amor eterno.” Por muitos anos, segui seu conselho e tentei sufocar o amor que habita em mim. Vaguei por toda a terra. Observava a estrela da manhã e pensava ter descoberto a Cidade da Aurora. No fim, tornei-me um peregrino. Minha pele secou e meus cabelos caíram até os ombros. Juntei-me a uma antiga tribo de errantes e caminhei com eles pela terra. Todos carregavam adagas de pedra e reverenciavam a pedra da lua. Primeiro, rumamos para os gelos antárticos, próximos à minha terra natal, e lá encontramos um antigo profeta que nos guiou. Ele parecia ser a reencarnação de algum homem santo ancestral. Tínhamos também um cão conosco que nos ajudou a guiar-nos em direção ao oásis primordial. No momento crucial, porém, fraquejei. O uivar dos ventos e o lamento do cão me trouxeram à mente a voz serena do amor eterno, e fugi daquele lugar. Por um breve período, tentei encontrar paz à beira do Mar, mas no fim, reuni-me aos meus antigos camaradas. Juntos, continuamos a atravessar a terra; travamos batalhas, conquistamos cidades e visitamos templos ancestrais onde ritos pagãos ainda são praticados. Tentei abrir mão de tudo, assumi o fardo da cruz e até tentei fazê-la girar como a sagrada suástica. Finalmente cheguei à Índia, e lá comecei a adorar Shiva. Tentei submeter minha vontade à dele: prostrei-me diante de seu altar e permaneci perfeitamente imóvel por anos, em um esforço para recuperar a visão perdida da Cidade da Aurora. Embora meu corpo permanecesse imóvel, minha mente vagava pelos gelos do sul e eu estava novamente com os guerreiros-peregrinos, empunhando suas adagas de pedra. Outros também estariam comigo: alguns eram mendigos, outros reis. Mas todos na Índia antiga de Shiva sabiam que somente abandonando seus corpos poderiam alcançar a antiga Cidade da Aurora. É por isso que existem tantos corpos abandonados pelas estradas da Índia, e é por isso que, na Índia, o calor do sol queima o velo do carneiro. Muitas vezes, eu me lembrava do cão que havia entregue sua alma para nos guiar pelas vastas e geladas paisagens do sul. O uivo dos muitos cães na Índia me trazia essa lembrança. Mas agora, o uivo deles parecia diferente, como se estivessem lamentando sua lã perdida, e como se tivessem deixado de ser um símbolo e começassem a sentir, e, portanto, a chorar. Então, um dia, enquanto eu estava ajoelhado ao lado do leito de uma garota moribunda a quem contava a história da pedra da lua, o amor surgiu novamente, derrubando todo o meu asceticismo e me virando para o outro caminho sugerido pela pedra em meu anel. Senti-me roubado de tudo o que havia conquistado. Meu corpo me foi devolvido, mas minha alma estava destruída. A essa altura, porém, meu corpo já havia se definhado pela metade devido aos muitos anos que passei na montanha sagrada do Senhor Shiva. Desci até o lago sagrado chamado Manasarovar, que fica ao lado do Monte Kailash. Lá me lavei com cuidado e, movendo-me para o centro do lago, submergi meu corpo e o afundei nas profundezas das águas sagradas. À medida que o corpo se afogava, soltou seu último suspiro, exatamente como o sopro da pedra da lua. Depois de um tempo, ele subiu novamente à superfície, mas agora estava combinado com o corpo do cão que havia morrido anos antes nos gelos antárticos. Meu novo corpo tinha a cabeça daquele cão de pelos dourados. Agora não ouço mais o uivo angustiado daquele cão, lamentando por seu corpo perdido. Abandonei os ensinamentos do sábio e troquei a adaga de pedra pela flauta. Agora canto as velhas canções do sol e danço ao som da música. O anel eu já joguei no mar há muito tempo, pois agora busco a Cidade da Aurora entre os seios de belas mulheres. Estou pronto agora para o altar da deusa Kali. Estou morrendo, mas ao expirar como um herói que não busca mais Avalon à distância, descubro que, sem que eu queira e sem que eu espere, uma pedra da lua começa a aparecer entre minhas sobrancelhas.
— Miguel Serrano, As Visitas da Rainha de Sabá
A tradução foi inicialmente feita com base na versão em inglês da editora Tradition, mas está sendo atualizada para ter obter maior paridade com a versão original em espanhol.
Referência:
Miguel Serrano, Las Visitas de la Reina de Saba, Be-uve-dráis. Em Santiago entre 2002 e 2010 (espanhol). ISBN: 956–7878–20-X.
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- 2026-07-13 06:23:13