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A flor da Terra estancando o sangue da Estação Primeira: o Rio das negritudes no Carnaval da verde…

A Mangueira foi a última escola a anunciar seu samba-enredo para o Carnaval 2025 e eu já estava ansiosa. Com o enredo intitulado “A flor da…

Marília Alves · 2025-01-15 21:46 · 0 claps · 2.6 min read
#samba #mangueira #funk #música #carnaval
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A flor da Terra estancando o sangue da Estação Primeira: o Rio das negritudes no Carnaval da verde e rosa

O samba e o funk formando o Rio da negritude influenciado pela cultura Bantu

O samba e o funk formando o Rio da negritude influenciado pela cultura Bantu

A Mangueira foi a última escola a anunciar seu samba-enredo para o Carnaval 2025 e eu já estava ansiosa. Com o enredo intitulado “A flor da Terra — No Rio da Negritude entre Dores e Paixões”, a escola vai buscar levar para a avenida a influência da ancestralidade negra no processo de formação do Rio de Janeiro e como esta ligação une passado e presente. Ao resgatar a mística do povo Banto, a Mangueira vai além, na narrativa, e busca um Rio que bebe constantemente das práticas e vivências enraizadas pela cultura afro.

O samba-enrendo não podia ser diferente, a letra de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Júlio Alves, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim dialoga, a todo tempo, com essa imagem que a Estação Primeira pretende passar na Sapucaí. Na primeira parte, temos fortes presenças históricas e religiosas que confirmam o processo que o a letra quer mostrar: a da formação social e cultural de um Rio que teve, em sua fundação, o povo Banto como um dos pilares.

Figuras como kalungas, pretos novos de Angola e quilombos foram essenciais para criar a identidade do estado que no passado era capital do Brasil. Ao trazer esses elementos no começo, os compositores mostram não apenas a importância histórica, mas como iniciou a região da “Pequena África”, localizada na zona portuária da cidade. Acho engraçado o intercâmbio entre os diversos dispositivos audiovisuais que temos. A primeira vez que ouvi falar neste local foi na novela “Nos Tempos do Imperador”, onde esse espaço era utilizado como ponto de encontro de ex-escravizados recém ocupantes dos morros cariocas, tornando-se uma segunda África.

Logo após, temos alguns ritmos que formaram a geleia cultural de nossa brasilidade, tal qual Mário de Andrade observou e apontou em “O Turista Aprendiz”, de 1929, como macumba, jongo e capoeira. Como sabemos, a prática dessas danças típicas do continente africano foi fortemente proibida pelos grandes senhores levando-as ao preconceito que conhecemos hoje em dia, mas em nada diferente do que fora realizado no Brasil de 1800.

Porém, é ao pintar nas cores verde e rosa que os compositores ressignificam a nação de Zambi e dão a ela uma nova perspectiva: de fomento da cultura carioca e, quiçá, brasileira. No movimento da benza, com a utilização de folhas especiais e do pembelê, a saudação do candomblé bantu, os orixás incorporam-se no camutuê, ou seja, na cabeça de seus filhos, e mudam a configuração da cidade.

Com este ponto, o samba faz menção ao Zungu, as casas cariocas onde a produção de vida circulava em paralelo à tradicional existente na cidade. Nestes espaços, uma espécie de comunidade invisível aos olhos da repressão se formava, experimentando religiosidade, festa e cultura. Se forjando dentro da lei, como a própria letra diz, as Zungus são revisitadas nas inúmeras comunidades que existem hoje no Rio de Janeiro, levando para fora de suas vielas as expressões culturais e sociais de seus pares, fazendo uma ligação entre morro e asfalto.

Essa ligação é muito bem construída no primeiro “vídeo clipe”, digamos assim, do samba-enredo onde Matheus Oliverio, o principal mestre-sala da escola, dança samba com um garoto. O garoto em questão não fica nos passos de samba, mas performa o funk carioca. Este diálogo entre dois ritmos que já experimentaram e experimentam a marginalização é fundamental para entendermos a força das favelas e de seus agentes como produtores de cultura e de resistência. Não temos o samba ou o funk se sobressaindo mais, mas temos dois ritmos fundamentais para o Rio de Janeiro de hoje em constante diálogo com sua ancestralidade negra que floresce no Carnaval da verde e rosa.


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