Carta a Theo
Quando sofro com a perda de pessoas próximas, costumo sentir que deveria ter sido mais grato enquanto estavam fisicamente presentes —…
Carta a Theo
Quando sofro com a perda de pessoas próximas, costumo sentir que deveria ter sido mais grato enquanto estavam fisicamente presentes — acredito ser comum este sentimento. Paralelamente me questiono também se, antes de mais nada, devo considerar quantos erros cometi com estas pessoas em vida. Erros reconhecidos por mim, alguns sabido por nós, junto de outros abafados que se foram junto dessas pessoas. Entretanto, em sua maioria, sem pedidos de desculpas; sinceras conversas ou até qualquer tipo de superação com uso da indiferença. Logo me pergunto se o correto seria praticar o perdão durante nossa trajetória e agradecer somente após? Invertendo a ideia popular sobre dar flores em vida, para assim, fazer as pessoas receberem nossas lágrimas. De forma teórica podemos afirmar de maneira geral o quanto ouvir um “eu te amo” repetidamente, surte mais efeito em vez de um “me desculpe” cotidiano, onde este se desgasta facilmente, não? Não na prática, afinal tudo requer ação, se ambos forem vazios de nada adianta. Pois falarmos bem de alguém que gostamos pode ser fácil demais, ofender pelas costas é comum além de covarde. Difícil mesmo é ver seu o reflexo encarando nas janelas aquários de gotas salgadas. Mas quem sou eu? Sendo o motivo deste texto ser exatamente minha garganta embargada com o nó pescador mais bem dado nas cordas vocais no qual não foi desfeito aos olhos de quem sentia a corda esticada demais por mim, exemplifica todo o resto. Sei lá, nosso arrependimento nem sempre traz arrebatamento no céu do corpo. Talvez a dúvida nem seja essa, e sim, por que devemos carregar culpa de nós mesmos? Tende piedade de si! Cada um com sua cruz, somos devedores de promessas com o bem e o mal na terra da lua. Uma tentativa pífia de alcançar o perfeito quando é difícil dissociar a perfeição da hipocrisia, vide esse texto começando na primeira pessoa pulando pra terceira, terceirizando a culpa. Afinal, ser perfeito é ser completo e ser completo é estar sujeito. Falando nisso, sempre tive receio de ser aquele que não se enxerga de corpo inteiro ou não vê a realidade despida, porém muito mais pavor de ser aquele que faz julgamento alheio somente pelas suas vestes. Então separar o sujeito da frase me parecia somente questão linguística, até notar bons conselhos saírem da boca de pessoas das quais ouvi serem ruins em bocas alheias. Fica o lembrete: fazer o predicado sem olhar a quem.
Comecei a escrever este primeiro parágrafo em Março, retomei somente agora, em que peguei para redigir poucas coisas a fim de (tentar) me fazer mais entendido e acredito que foi uma tentativa falha. Então a partir disso pretendo apenas escrever sem deixar meu lado caprichoso me faça ficar muito tempo pensativo na burocracias das palavras. Bom, esta primeira parte foi feita pensando muito sobre a perda de duas pessoas próximas até aquele momento, sendo a primeira uma pessoa que apesar de não ter o mesmo sangue, foi muito próxima de toda minha família, participando de diversos momentos felizes onde muitas vezes ela irradiava alegria para nós. A segunda pessoa foi minha Tia, onde já escrevi *aqui* sobre alguns sentimentos como o da culpa sentida naquele momento, estendido até hoje — não sei se essa palavra é a melhor definição, acredito ainda não saber distinguir as coisas, logo peço para não se apegarem aos vocábulos. Muito desse tal sentimento vem do modo como tudo aconteceu, minha Tia se foi sozinha na sua casa depois de passar pelo médico e ser liberada normalmente, ainda assim, minha Mãe se pôs a cuidá-la sem imaginar o pior como todos nós. Há outros detalhes, mas creio serem inoportunos ou dramáticos demais para colocar aqui, iria somente piorar o peso de sentir.
No meu último texto, justamente refletindo sobre meus *26 anos, escrevi algo sobre não temer a morte alheia, com a ideia de trazer meu lado fechado, acostumado a me afastar das pessoas — nesse caso não era literal, entretanto lidar com as consequências é sempre um processo sofrido, desta vez irreparável. Aquilo foi egoísta? Droga, se eu fosse menos egoísta você talvez ainda estaria aqui. Também ali, em outro trecho, citei as pessoas das quais não abro mão que tampouco largam de mim, são a minha família. Uma delas me referi ao [Theo](https://medium.com/@18kalil/oeht-81f414f810f5)*, meu primo/irmão. Filho da minha falecida Tia, me via como irmão pois não somente por ser o único progenitor dela, mas sim porque tínhamos apenas 2 anos de diferença, logo fomos criados de um jeito muito próximo, às vezes na casa de minha Tia, outras na casa da minha falecida Vó. Irônico hoje pensar que naquela época diversos momentos as brincadeiras foram de casinha, boneca etc., onde me sentia à vontade o bastante para nos divertirmos juntos, porém para os amigos da rua, era melhor manter certo sigilo por uma vergonha irracional muito baseada na nossa sociedade. Enfim, o tempo passou, veio o baque da separação dos seus pais onde acredito ser a premissa dos tormentos, logo depois tivemos o falecimento da minha Vó, onde veio se refletir nele igualmente. A ironia que eu havia dito rolou depois disso: ele nos revelou ser trans, a partir dali se tornou o Theo. Agora percebo: a gente sentiu o mesmo desconforto por esconder algo que deveria ser banal. No meu caso, por coisas elegidas não se sabe o motivo como “não-masculinas” mesmo assim vivendo minha infância, já no caso de meu primo por provavelmente estar renegando parte da sua, de si próprio.
Retomando ao acontecido: estava no trabalho escutando “Yebba’s Heartbreak” descobrindo ser uma música sobre a morte da Mãe de Yebba justamente por ela ter tirado a própria vida. Pouco tempo depois, recebi sua mensagem dizendo que ainda estava mal, não sabia o que fazer, mas enfatizou seu amor por mim dizendo me amar e amaria para sempre — “I do, I do, I do” . No mesmo instante senti um aperto no coração tão grande, então pensei; suspirei; refleti… todas soluções me pareciam irrisórias por todo contexto. Até me vir em mente responder para você ir até a praia e olhasse o mar, sabendo da sua admiração/conexão por tal, porém nunca obtive resposta — “You may not know right where you’re going, but…”. No dia 18/09/2025 (sim, em Setembro), por volta da 00h30, Theo estava sem vida, em sua casa, a mesma que morou minha Tia, sua Mãe, local onde também veio a falecer. Ela, de morte natural aos 61, ele aos 23, não posso dizer o mesmo. A minha Mãe encontrou minha Tia, na vez do Theo, eu — ”Can a show my love for you?”.
Esses dias vi uma passarinho pousar no topo de uma daquelas árvores ao fundo das nossas casas e ficar lá por alguns minutos, quis crer ser você dizendo estar livre, sei lá. Seguimos cambaleando entre a coragem despretensiosa e a covardia intencional (ainda assim atrapalhada). Passados os dias, agora estamos resolvendo as coisas para ajeitar as lápides, era de sua vontade escolher especialmente a da sua Mãe, do seu modo. Infelizmente ficou para nós escolhermos, e então me perguntaram qual seria a “melhor” (com muitas aspas, claro) frase para pôr no seu túmulo, porém queria mesmo era colocar um texto, não este, não é o suficiente para traduzir nossa dor misturada a beleza de ambas as vidas sobre a nossa. Possivelmente esse é meu, já mencionado, lado caprichoso? Ou seria o lado dramático? Ou melhor dizendo, meu lado egoísta? Perdão ainda não ser o suficiente Tia, não soube cuidar do Theo. Logo vocês que sempre me botaram em um altar no qual não me cabe. Perdi as duas pessoas mais fãs daquilo que fui um dia, pois não sou mais, jamais serei.
Me resta escrever aqui no mesmo site que te apresentei, mesmo sabendo que não irá mais ler ou ouvir sobre meus devaneios sobre os tais, era mais um dos nossos momento onde mais nenhum dos outros familiares tinham acesso, começamos justamente quando perdemos nossa Vó, inclusive foi minha *primeira publicação*, tentando mensurar a dor compartilhada entre a gente. Enfim, resolvi ler novamente seus dois últimos escritos, um sendo a respeito da sua saudade e o outro sobre sentir falta, diz demais, um tanto. Voltando no meu último texto bem na última frase, terminei dizendo algo sobre a saudade ser melhor que nada, porque o medo da nostalgia é maior, nela mora a possibilidade de desejar tudo novamente ignorando as ervas daninhas, logo fico com as lembranças imperecíveis. Sigo tentando não levar este texto pro lado dramático ou culposo, embora minha mente permaneça neste ciclo ininterruptamente. É difícil se manter racional ao passo que, no fundo, acredito nos restar apenas respeitar sua decisão torcendo juntamente para essa escolha ter valido a pena de alguma forma, ainda que nem todos compreendam. Bom, independentemente da religião eu rogo/rezo/clamo, do paraíso aos campos Elíseos (ou no completo nada), para você encontrar a paz e perguntar-lhe o motivo da sua demora. Tomara que ela tenha um rosto familiar ou, ao menos, seja muito simpática com sua alma pois é merecido. Ah, se puder, peça para ela dar uma passada aqui no nosso peito frágil. Se a mesma não souber o endereço venha junto para mostrá-la, você sabe o caminho, apareça na forma/espectro que lhe der na telha apenas para dizer: Estou bem, viu? Talvez suavize a dor.
Ah Theo, e quanta dor… na semana anterior havia sido meu aniversário, você disse que estaria do meu lado quando precisasse, cadê você primo? Disse também sobre eu ser uma inspiração, fez jus na prática quando no IML me entregaram o relógio no qual estava usando, era um Casio igual ao meu, ali voltei no tempo mesmo com as lágrimas rolando no presente. Aliás, você estava com o short que te dei quando partiu, eu com a blusa recebida de ti em outro aniversário. Coincidências das quais não acrescentam em nada, mas evidenciam nossos elos. No seu parabéns do meu aniversário passado você escreveu que sua vida era a maior dívida comigo, posso te cobrar primo? Além do mais no meu aniversário você foi embora falando sobre maratonar aquela série famosa de terror, nem gosto tanto assim mas cogitei assistir por você. Quantos filmes assistimos para depois conversamos sobre, hein? as últimas vezes no cinema foram contigo, quem dera esses dizeres fossem um roteiro de um final feliz. Hoje você faz aniversário, como vou comemorar primo? Amo escrever para quem amo, ainda mais em seus aniversários, pensei até em postar uma espécie de coletânea com os mais especiais e teriam uns feitos para ti. Este aqui é o pior, o mais triste, com mais desgosto. Penso que não quer bolo; parabéns; decorações apenas… descanso. Que repouse na paz absoluta, meu primo, meu amigo, meu irmão. Pelo que já transbordamos junto de todas lacunas deixadas, vou te parafrasear: nunca vou esquecer a vida de uma das pessoas mais importantes da minha vida.

perdão pela colagem mal feita
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