Só um homem
Olhos rasteiros e a cabeça enterrada entre os joelhos, Dália mirou o piso.
Só um homem

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Olhos rasteiros e a cabeça enterrada entre os joelhos, Dália mirou o piso.
Ao ouvir o carro do namorado dando partida, saiu do encolhimento. Ergueu a vista. O queixo. Largou as pernas. As costas deveriam estar doloridas, mas não sentia nada, não tinha corpo, era toda sangue extremoso e cabeça a mil cogitando esmurrar a porta e gritar para os vizinhos. De pé, talvez um código gravado, genético, de sobrevivência ou obediência fez com que novamente — não havia razão para o gesto — puxasse a saia para baixo. O polegar passou direto num rasgo já emendado na Banca 43 do Mercado Central. A costureira das surras mais bem vistas e mal ouvidas na vizinhança tinha advertido Fiz o que pude, mas o tecido está esgaçado, querida, não vai durar muito.
Não durou.
Ela fez por merecer. Pegou carona?! Onde já se viu mulher direita ter amigo? Ciúme é amor!
Não podia durar.
Fechou seu sustento após ter o rosto queimado a ferro quente pelo marido, homem de bem, solícito, fiel no dízimo e na morte, jamais o PSICOPATA! sentenciado pela repórter da TV.
O veredito de psicopata, exagero, sobressalto passageiro; acalmava os revoltosos todo domingo sendo visto na igreja, a justiça divina se fazia naquele ser arrependido. Infelizmente, medidas enérgicas se fazem necessárias, ela se ajeitou, sumiu das ruas e da boca do povo.
Dália mirou o rasgo na saia insinuando não as curvas, posto que seu corpo era retilíneo, mas a perna comprida, alva, nua. Não eram as pernas de uma pessoa, eram as pernas de uma gazela. O pecado original. De Eva. Segurando a maçã.
Esticou as costas. Sem dor, sem corpo, não sentia nada além do sangue margeando os trilhos traçados. Antes de Wanderley Minervino, ela se fazia valer por suas ideias nada convencionais, mas cheias de fé, era uma menina-moça atrevida, e se o careca a desqualificava, haveria outros homens interessantes a perceberem seu valor: o arrebatamento da alma vem da sede pelo justo, pelo belo, por aprender a ser humano, afinal, com exceção do careca, homens são, antes de tudo, humanos. Queria encontrar alguém que a apresentasse um jeito bonito de lidar com a vida, existente-oculto ou recém-inventado.
Ele a chamava de princesa, abria a porta do carro, dava flores após as mancadas. Tudo tão extraordinário para quem viveu cercada de não merecimento! Em pouco tempo de relacionamento, ansiosa por retribuir, percebeu que não sua sabedoria, mas a inocência ainda não quebrada, era seu capital, bastaria ser uma mulher-bibelô, como tantas à disposição na prateleira do amor. Assim se fez. Mas, agora, depois de anos, se perceber no radar do namorado, do trabalho pra casa, de casa pro trabalho, lhe azedou o âmago. Não queria terminar como sua mãe O coração, coitado…aliás, coitada, parou de desgosto…Ai, Dália, respira. Se acalma. Você é muito insatisfeita! Se acalma. Perto do careca, Minervino é sorte! Ao menos deixa claro os limites, os motivos pra se descontrolar.
Paulatinamente o sangue foi se acuando, entrando, finalmente, nos eixos. Não devo estar certa. Se até minhas amigas, outras mulheres, dão razão a ele, o que estou querendo? Ele é só um homem. Todo homem não é assim? O mundo todo não concorda que deve ser assim? O problema deve estar mesmo em mim, que não me livro dessa menina que não sabe a hora de parar! Que respira desdém, mas insiste no que não dá pra mudar. O que eu quero provar?
A temperatura cedia, se despiu da noite, se enfiou numa camisa de malha puída.
Adormeceu.
Miúda.
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