Sem querer esbarrei em navios!
ou quando uma música te faz investigar uma banda por completo.

Encarte do álbum de estréia da Sadistic Mika Band. (Fonte: Ameba)
Sem querer esbarrei em navios!
ou quando uma música te faz investigar uma banda por completo.
É um dia como outro qualquer: você está trabalhando em algo e resolve ouvir, aleatoriamente, um álbum de uma banda japonesa chamada Sadistic Mika Band. Enquanto as músicas tocam, você se rende e acaba gostando do som que naturalmente te faz procurar mais coisas por curiosidade. Então, percebe que uma das faixas parece na verdade ser uma grande suíte de três partes. Essa conclusão pode ser obtida só observando o título das canções no spotify, (mesmo sem saber nada de japonês) há uma lógica sequencial por conta dos números ali presentes.

Lado A do disco. 嘉永6年6月3日, 嘉永6年6月4日 e 嘉永6年6月5 são claramente uma sequência. (Fonte: Discogs)
Na verdade, o título dessa suíte é Kurofune, palavra que também dá nome ao álbum. As partes que se seguem podem ser traduzidas como:
- 嘉永6年6月3日 — Kaei 6, mês 6, dia 3;
- 嘉永6年6月4日 — Kaei 6, mês 6, dia 4;
- 嘉永6年6月5日 — Kaei 6, mês 6, dia 5.
Kaei (嘉永) é o nome de uma era do período Edo que abrange os anos de 1848 a 1854. A era é dividida em eventos, sendo o sexto evento (Kaei 6 ou 嘉永6) referente ao ano de 1853. Portanto, finalmente podemos dizer que os títulos são: 3 de Junho de 1853, 4 de Junho de 1853 e 5 de Junho de 1853.
Em julho daquele ano as frotas marítimas estadunidenses chegaram pela primeira vez ao Japão, guiadas pelo comodoro Matthew Perry. Aquela não era a primeira vez que o ocidente entrava em contato com os japoneses, anteriormente os portugueses já haviam tentado um contato mas as relações foram tensas ao ponto do Japão expulsá-los.
Isso gerou um período de isolamento do país por 200 anos, conhecido como Sakoku (鎖国; “país fechado”), onde só mantiveram relações comerciais com os nações ao redor e incluindo a Holanda que possuía colônias na região. A chegada dos navios de Perry foi bem sucedida fazendo com que o Japão novamente abrisse seus portos ao resto do mundo, um marco da definitiva penetração ocidental a ilha. As embarcações estrangeiras tinham o casco pintado de preto e isso originou o termo Kurofune (黒船; “navio preto”).

Black Ship, o nome apresentado à versão inglesa do disco. O casal Mika e Kazuhiko Katō voam ao ocidente na capa, e o restante da banda os seguem na contracapa. (Fonte: RareVinyl)
Diante de tantas informações, como eu poderia ficar sem terminar de extrair o resto? Portanto, a seguir, o resultado de uma obsessão temporária.
Decifrando a Mika Band

Os recém casados Mika e Kazuhiko Katō em uma revista japonesa de 1970, a manchete anuncia que a cerimônia foi realizada no Canadá. (Fonte: Pinterest)
Kazuhiko Katō participava do grupo The Folk Cruzaders, relativamente popular na segunda metade dos anos 60 no Japão. Mesmo tendo o apelido Tonovan, uma referência ao músico britânico de folk Donovan, acabou se encantando pelo rock britânico que na época encontrava-se expresso no glam de figuras como David Bowie e Marc Bolan. Junto da sua recém esposa Mika Fukui, agora Mika Katō, fundaram o Sadistic Mika Band. Um trocadilho entre o nome da Plastic Ono Band de John e Yoko com a forma “sádica” que Mika usava facas ao cozinhar. Antes do disco de estreia, a banda logo foi a Londres onde se inspiraram com a moda e puderam ter acesso aos outros sons do momento.
Em 1973 eles lançaram o primeiro álbum SADISTIC MIKA BAND que não foi tão bem-sucedido no Japão. Naquela altura o rock ainda tomava suas primeiras formas no país e a banda Happy End, que encerraria seus trabalhos naquele mesmo ano, foi pioneira em escrever músicas de rock em japonês. Como resultado surgiu o termo Nihongo Rokku Ronsō (日本語ロック論): a “controvérsia do rock japonês”. Havia o entendimento de que o gênero não se encaixava na cadência da língua nipônica, funcionando melhor em inglês. Assim, a não aceitação da banda pelo próprio público japonês era algo já esperado.
Porém, o disco de alguma forma foi levado ao Reino Unido (diversas fontes contam versões diferentes de como isso ocorreu, então não vou me arriscar rs.) chegando de uma vez por todas em Chris Thomas, na época produtor musical da banda Badfinger. Chris possuía um extenso currículo: atuou como assistente de George Martin durante as gravações do álbum branco (The Beatles) dos Beatles em 1968, produziu a banda Procol Harum além dos álbuns Paris 1919 de John Cale e For Your Pleasure do Roxy Music. Por fim, havia sido supervisor de mixagem de The Dark Side of The Moon do Pink Floyd.

Capa e contracapa do álbum de estréia da banda, de todas as canções as minhas favoritas são: Silver Child (怪傑シルバー・チャイルド) e Citron Girl (シトロン・ガール: 金牛流星群に歌いつがれた恋歌). (Fonte: Ella Records)
Ao receber e ouvir o disco da Sadistic Mika Band, ficou empolgado o suficiente para pedir à gravadora que fosse o produtor do próximo álbum da banda. Era inusitado ter um produtor musical estrangeiro trabalhando em um estúdio japonês, mais incomum ainda eram os métodos que foram utilizados durante as sessões de gravação.
De início, o estúdio foi reservado apenas para os envolvidos no disco sem a permissão de que outras pessoas da gravadora pudessem acompanhar o processo. Bastante influenciado por George Martin, Chris assumia o papel de um membro a mais da banda onde não só comentava sobre a estrutura ou arranjos das músicas, mas também demonstrava as técnicas de gravação que havia adquirido em sua experiência até o momento.
A maioria dessas coisas eram novidades até para os engenheiros de som japoneses que ao vê-lo cortar fitas de gravações e emendar em outras (algo proibido pelas gravadoras no país) ficaram supostamente com as mãos trêmulas segurando as tesouras.
Kurofune: desvendando o álbum

Encarte de Kurofune com os membros da banda: Kazuhiko Katō (vocais, guitarra), Mika Katō (vocais, percussão), Rei Ohara (vocais, baixo, percussão), Yukihiro Takahashi (bateria), Yukata Imai (teclado, saxofone) e Masayoshi Takanaka (guitarra solo). (Fonte: Universal Music Japan)
Entre as várias formações da Sadistic Mika Band, a foto acima ilustra os músicos que participaram do disco em específico. Incluindo Yukihiro Takahashi (futuro membro da Yellow Magic Orchestra), Masayoshi Takanaka (que se tornaria um dos guitarristas mais famosos do país), além do escritor Takeshi Matsuyama responsável pelas letras de cada uma das canções e colaborador de Kazuhiko Katō desde os tempos do The Folk Cruzaders.
Esse não era só mais um álbum de rock comum do Japão, sua narrativa o fazia um dos exemplos iniciais de uma obra conceitual no gênero. Para entender melhor fui atrás de traduções e artigos que pudessem contextualizar o tema. O encarte do disco consegue explicar boa parte do conceito envolto mas na versão ocidental em inglês muitos detalhes se perdem, seja pela má tradução ou desconhecimento das histórias ligadas à cultura nipônica.
墨絵の国へ (Sumie no kuni e) — Para a terra da pintura a nanquim
O primeiros segundos da canção é introduzida por um teclado que parece, aos poucos, abrir uma névoa que lentamente dissipa até nos mostrar o que seria uma pacata ilha distante rodeada pelos oceanos. E esse lugar seria a terra de Sumie. Sumi-e, ( “Sumi” = 墨; tinta e “e” = 絵; pintura) é uma técnica de pintura tradicional que mistura água e tinta nanquin. Trazida da China para o Japão por meio de monges zen-budistas, se popularizou como forma de representação da natureza e de expressão espiritual.

Um exemplo de Sumi-ê do século XVI. (Fonte: Wikimedia Commons)
Na canção ela serve como metáfora para o próprio Japão. O narrador descreve que a qualquer momento um evento irá mudar para sempre a imagem pacata e tranquila da terra de Sumie.
しんきろう めざし shinkirō mezashi 船は進む fune wa susumu 幻の国へ maboroshi no kuni e たどりつくため tadoritsuku tame
墨絵の世界の sumi-e no sekai no 眠りを揺さぶるため nemuri o yusaburu tame
暁の星が akatsuki no hoshi ga たったひとつ tatta hitotsu まだ見ぬ世界に mada minu sekai ni 輝いていた kagayuite ita
墨絵の世界に sumi-e no sekai ni 静かな夜明けが来る shizukana yoake ga kuru
Tradução:
Visando uma miragem O navio avança À terra da ilusão Para chegar
No mundo da pintura a tinta Para sacudir o seu sono
A estrela da manhã Apenas uma Brilhava no mundo ainda não visto
No mundo da pintura a tinta Uma alvorada tranquila está chegando
A letra é cantada por Kazuhiko e repetida em sussurros de Yukihiro Takahashi, anunciando o presságio da entrada dos navios pretos norte-americanos no país. Vale lembrar que para “sacudir o seu sono”, os Kurufone estadunidenses foram responsáveis por acabar com a política isolacionosta do Japão, que durava dois séculos.
A letra foi inspirada em um famoso kyōka (狂歌; “poema humorístico”) da época:
泰平の Taihei no 眠りを覚ます Nemuri o samasu 上喜撰 Jōkisen たった四杯で Tatta shihai de 夜も眠れず Yoru mo nemurezu
Taihei (泰平) significa ‘calmo’; Jōkisen (上喜撰) é o nome de uma marca de chá verde e shihai (四杯) significa ‘quatro xícaras’. Logo:
Despertado do sono de um mundo calmo e pacífico pelo chá Jokisen; com apenas quatro xícaras, é impossível dormir, mesmo à noite.
Porém, o poema é composto de trocadilhos (em japonês, kakekotoba). E Taihei também é uma forma abreviada de se referir ao Oceano Pacífico (太平洋; Taiheiyō). Jōkisen (蒸気船) pode significar navios a vapor e por fim, Shihai seria “quatro navios”. Dessa forma, o texto pode ser desvendado como:
Quebrando o sono sereno do Oceano Pacífico; estão os navios a vapor, apenas quatro embarcações são suficientes para tirar o nosso sono à noite.
Uma descrição perfeita da sensação dos habitantes do período Edo a chegada da frota estadunidense.
何かが海をやってくる (Nanika ga umi wo yattekuru) — Algo está vindo pelo mar
O clima tranquilo da canção anterior é brevemente alterada para algo mais tenso no final, culminando em “Nanika ga umi o yatteku” ou “Algo está vindo pelo mar”. Como indica o título, a premissa anterior, de que os navios a qualquer momento chegariam na terra de “Sumie”, começa a se concretizar. O ritmo frenético da percussão junto da guitarra gritante de Takanaka, são como as ondas do oceano pacífico enfrentando a expedição dos navios em meio a uma tormenta sem fim. O término abrupto nos leva de volta a introdução da faixa inicial do álbum, com os teclados voltando ao clima ameno de antes, mas deixando a situação sem uma conclusão definitiva. Todas as canções instrumentais foram creditadas no disco sob o nome Sadistics, se referindo a banda como um todo.
タイムマシンにおねがい (Time Machine ni, onegai!) — Uma máquina do tempo, por favor!
Foi o primeiro single do álbum, tendo a música “Taifu-ka” como lado B, lançado em 5 de outubro de 1974. A canção surge a partir de uma montanha de guitarras, a-lá Wall of Sound diante dos nossos ouvidos, logo no início daquela que se tornaria a música mais conhecida da Mika Band.
O encarte do álbum diz que a inspiração vem de Hiraga Gennai: inventor, pintor, farmacológico, autor e médico do período Edo. Gennai foi responsável por, através do conhecimento trocado com os holandeses que mantinham relações com o Japão, desenvolver técnicas ocidentais de pintura a óleo. Além de outras criações como um tecido a prova de fogo usando amianto e o seu próprio gerador de energia estática: o Erekiteru (エレキテル).

Retrato de Hiraga Gennai, presente no encarte do álbum, por Momuō Kimura, 1845. (Fonte: Wikimedia Commons)
Também estudou desde insetos e organismos marinhos até plantas. Ao realizar demonstrações públicas de suas invenções, criava sempre um ar de mago ou bruxo por dominar campos até então desconhecidos. A lenda diz que supostamente começou a delirar com a possibilidade de viagens temporais e que teria matado um de seus discípulos num ataque de raiva, por não ter recebido o reconhecimento que achava merecer. Outra sugestão é de que, enquanto bêbado, teria assassinado duas pessoas por suspeitar que estariam roubando algo de seu laboratório. Seja como for, morreu na prisão após contrair tétano.
Os delírios de Gennai em viagens temporais serve de gancho ao conceito de Kurofune. Se no início tivemos uma breve descrição de uma ilha pacífica sendo acordada por uma expedição marítima, agora a banda nos convida a regressar no tempo para contextualizar melhor o evento.
さあ不思議な夢と sā fushigi na yume to とおいにしえが すきなら tōi inishie ga suki nara さあ その スケッチを sā sono sukechi o とおいにしえに たどらせば tōi inishie ni tadorasewa
ジュラき の せかいが ひろがり juraki no sekai ga hirogari はるかな かせきの じだいよ haruka na kaseki no jidai yo アンモナイトは おひるね anmonaito wa ohirune ティラノザウルス おさんぽ アハハン tiranosaurusu osanpo ah-ha-han!
Tradução:
Venha, se você ama sonhos misteriosos e eras muito distantes Deixe que esse rascunho Chegue aos tempos remotos
O mundo do período Jurássico se revelará É a era dos fósseis ancestrais Amonitas estão almoçando O Tiranossauro Rex está passeando, ah-ha-han!
Os amonitas são um grupo extinto de moluscos que compartilharam sua existência com os dinossauros, já o Tiranossauro Rex surge como uma referência a banda T-Rex de Marc Bolan.

Capa do single Time Machine ni onegai! / Taifu-ka. (Fonte: Discogs)
As menções ao passado ainda contemplam os “anos dourados” da década de 50, os luxuosos carros Duesenberg ,que encerraram a produção nos anos 30, e o ator Humphrey Bogart “Bogie”. Em meio a um rock contagiante que parece antecipar bandas como PUFFY e Judy and Mary, a música acaba à medida em que Mika súplica por uma máquina do tempo.
黒船 (Kurofune) — Navio Preto
- 嘉永6年6月2日 — 2 de junho de 1853
Parece que as preces de Mika foram atendidas e voltamos a 1853, onde finalmente a expedição de Matthew Perry ancorou pela primeira vez na cidade de Uraga, no Japão. Essa é a primeira parte da grande suíte temática sobre os navios pretos, puramente instrumental. Durante a transição para a parte seguinte, a guitarra de Takanaka lembra uma gaivota. É fácil imaginar, através dessa performance os navios em um dia ensolarado, aos poucos atracando na cidade com seus tripulantes preparando as cordas para descer.

Ilustrações dos navios americanos em Kawaraban (瓦版), formato de jornal de uma folha, popular no Japão durante o período Edo. (Fonte: Nippon)
- 嘉永6年6月3日 — 3 de junho de 1853
A segunda parte da suíte remete ao choque inicial dos japoneses ao entrarem em contato pela primeira vez com os estadunidenses. Pela sessão rítmica, é perceptível a confusão e o possível medo que os habitantes nipônicos sentiram ao avistar os navios. Acompanhados de gritos de espanto, provavelmente inspirados pelo filme Operação Dragão estrelado por Bruce Lee em 1973. O final conta com barulhos de hashis descartáveis sendo esfregados.

Pintura em pergaminho de pessoas observando os navios pretos da vila de Koyasu (atualmente parte de Yokohama). (Fonte: Nippon)
- 嘉永6年6月4日 — 4 de junho de 1853
A terceira e última parte da suíte assume ares épicos, quase pink floydianos. Os solos de Takanaka evocam grandeza, sentimento descrito em relatos da época de que os navios pareciam “castelos flutuando no oceano”. Também há um tom de lamento. À medida que o medo se dissipava entre os japoneses e americanos, começava-se uma relação de curiosidade com os costumes e máquinas trazidas pelos estadunidenses, com fim de demonstrar uma superioridade industrial. Há relatos de que alguns aldeões ficaram tristes com a saída dos navios; essa última parte da suíte evidencia a retirada da frota dos portos japoneses após firmarem um tratado de comércio.

Kawabaran com uma ilustração dos kurofunes. (Fonte: Tokyo Metropolitan Library)
よろしくどうぞ (Yoroshiku dozou) — Prazer em conhecê-lo
A segunda metade do álbum começa com “Yoroshiku dozou”. O termo é uma versão abreviada de “yoroshiku onegaishimasu” e é usado para pedir um favor ou cumprimentar alguém ao conhecê-lo pela primeira vez.
Imitando as bandas marciais japonesas, ou Chindon’ya (チンドン屋), a Mika Band toca como se fossem músicos tradicionais de rua do período Edo demonstrando suas festividades aos estrangeiros. Para aumentar o clima urbano, toda a gravação foi feita no beco ao lado do estúdio, com Yu Imai (tecladista) tocando de forma improvisada um saxofone.
どんたく (Dontaku) — Domingo
A palavra vem de “Zondag” que significa domingo em holandês. O tradutor do encarte inglês do álbum não entendeu bem a lógica de usar algo vindo da língua holandesa no título.

Gravura de uma vista aérea da cidade de Dejima (出島), presente no encarte do disco, e canal principal de comércio entre os holandeses e os japoneses, 1824–1825. (Fonte: Wikimedia Commons)
Por conta da relação comercial das colônias holandesas com o Japão, é compreensível que, naturalmente, termos da língua europeia tenham sido incorporados ao idioma. Talvez por não terem os dias da semana amplamente difundidos, os japoneses atribuíram à palavra o significado de feriado. Algo bem próximo da essência de um domingo.
A canção, que já é alegre, começa com um zíper de calça sendo fechado por todos os integrantes ao mesmo tempo ao redor do microfone do estúdio.
葡萄酒を飲もうよ budōshu o nomō yo 果物の酒を kudamono no sake o 今日はどんたくの日 旗立てて kyō wa dontaku no hi hata tatete ああ愉快だねえ 街をねり歩こう ā yukai da nē machi o neri arukō
異人さん達はね 日曜日と言って ijin-san tachi wa nē nichiyōbi to itte 喇叭鳴らして 太鼓打ち rappa narashite taiko uchi 歌をうたってのんきなものさ uta o utatte nonki na mono sa
それがどんたく お祭り騒ぎ sore ga dontaku (omatsuri sawagi)
七日に一日は 仕事もお休みさ nanoka ni ichinichi wa shigoto mo oyasumi sa
Tradução:
Vamos beber vinho, Vinho de fruta! Hoje é Dia de Dontaku, hasteando as bandeiras Ah, que alegria! Vamos desfilar pela cidade!
Os estrangeiros chamam (este dia) de Domingo Tocando cornetas e batendo tambores, Cantam e vivem despreocupados
Isso é Dontaku! (a agitação da festa)
Um dia a cada sete, até o trabalho também tem folga
Os versos ilustram a celebração de um dia de folga entre os japoneses e estadunidenses. Confesso que as partes de “sore ga dontaku (omatsuri sawagi)” ficam presas na minha cabeça sempre que ouço essa música.
四季頌歌 (shiki shōka) — Ode às quatro estações
Uma canção sobre as quatro estações no Japão, que são chamadas de Haru (“春”: primavera), Natsu (“夏” : verão), Aki (“秋” : outono) e Fuyu (“冬” : inverno). A primeira estrofe traz elementos do inverno, e cada uma delas decorre sobre um dos períodos do ano.

Shiki no Uchi: Haru (四季の内 春; Das Quatro Estações: Primavera), Ukiyo-e do período Edo de Utagawa Kunisada. (Fonte: Museum of Fine Arts, Boston)
降り積む雪は音をかくし Furi-tsumu yuki wa oto o kakushi 凍えた眠りに息もひそむ Kogoeta nemuri ni iki mo hisomu
Tradução:
A neve acumulada abafa o som E até a respiração se esconde no sono congelado
A segunda estrofe fala sobre a primavera:
野を焼く煙がかすかに立ち No o yaku kemuri ga kasuka ni tachi 春告げ鳥さえ 歌を忘れ Haru-tsuge-tori sae uta o wasure
Tradução:
Uma fumaça da queima dos campos sobe fracamente E até o pássaro anunciador da primavera esquece a sua canção
A queima dos campos pode ser uma referência ao festival Wakakusa Yamayaki, onde a grama seca do monte Wakakusa é incendiada. A tradição remonta a uma disputa de fronteira entre dois templos, onde o fracasso dessa meditação levou ao incêndio do monte. Ocorre todo quarto sábado de janeiro, faltando uma semana para o início da primavera (立春; Risshun).
“Haru-tsuge-tori” é uma referência a vários pássaros que surgem nessa época do ano. Uma possibilidade é o Uguisu (鶯; “O pássaro de canto radiante”) ou toutinegra-japonesa, famoso por ser frequentemente ouvido na primavera.
A terceira estrofe tem como tema o verão:
夕立ちすぎれば 土の匂い Yuudachi sugireba tsuchi no nioi 日暮れを告げる 夕顔の音 Higure o tsugeru yuugao no oto
Tradução:
Quando a chuva passa, o cheiro da terra [surge] O som da Yuugao anuncia o anoitecer
Uma pausa seguida de um trovão sugere o marco do fim das Yuudachi (夕立; “Tempestade do entardecer”), que são chuvas fortes e repentinas típicas do verão, que aparecem no final da tarde geralmente acompanhadas de ventos e raios. Yuugao (夕顔; “Rosto do Entardecer”) é o nome para a flor-da-lua, cujas flores brancas desabrocham a noite e murcham pela manhã. A expressão “O som da Yuugao” é uma relação de duplo sentido entre a palavra “som” (音; oto) e a abreviação do termo “chegada” (訪れ; otozure), fazendo com que o florescer da yuugao seja o sinal audível da chegada da noite.
Após o solo de Takanaka a canção saúda o outono:
山すそ織りなす あやにしきに Yamasuso orinasu ayanishiki ni 澄む風はるかに 空も高く Sumu kaze haruka ni sora mo takaku
Tradução:
No brocado de padrões coloridos tecido ao pé da montanha, O vento limpo sopra ao longe e o céu também se torna alto
Para ilustrar a estação, a imagem evocada é a dos “padrões coloridos” das folhas de outono (紅葉; Kōyō), ostentadas pelas árvores ao redor das montanhas. Soma-se a sensação de que o céu fica mais vasto (高く; Takaku) no período, por conta da posição do sol junto das nuvens, assim ele fica exageradamente azul dando a impressão de estar mais alto ou elevado. A canção por fim termina com um ápice explosivo de flautas, possivelmente emuladas por um sintetizador.
Uma coincidência ou não, é que a letra da canção faz o uso recorrente de Kigos (季語; “palavras da estação”). No haicai, forma de poema tradicional japonesa com foco na natureza e estações do ano, os kigos atuam como termos sazonais. Sendo uma de suas regras estruturais incluir pelo menos um desses termos para indicar a estação do ano no poema. Um dos autores mais importantes do haicai foi Masaoka Shiki, que compartilha seu sobrenome com o título da música “Shiki Shoka”. Não encontrei registros de uma possível inspiração direta em relação ao autor, mas achei a coincidência interessante o bastante para comentar.
塀までひとっとび (hei made hitottobi) — Em um único salto até o muro
A canção não tem sentido algum, ela teria sido composta para animar a plateia durante os shows da banda. O produtor Chris Thomas viu uma dessas apresentações e gostou tanto da música que insistiu para que eles gravassem e incluíssem no disco.
大好き好きな Daisuki suki na チャチャ お茶でも Cha-cha o-cha demo 湯呑みひとつ ふたつ Yunomi hitotsu futatsu 好き好き好きな Suki suki suki na
Tradução:
Meu amor, amor preferido Que tal um chá-chá-chá? Uma xícara, duas xícaras Amor, amor, amor
Foi o segundo single do álbum com Sumie no kunie em seu lado B. Tanto na versão inglesa do disco quanto no single o título original foi alterado para “Suki, Suki, Suki”.

Vinil do single Suki, Suki, Suki / Sumie no Kuni E. (Fonte: Discogs)
O texto promocional da versão britânica do disco relata o seguinte: “Nós descobrimos que o lado A (pronunciado, incidentalmente, ‘Ski, Ski, Ski’) significa ‘Eu te amo, Eu te amo, Eu te amo’. Muito apropriado para um lançamento no Dia dos namorados”. Pela repetição marcante da palavra Suki (好; amar/gostar), o single acabou sendo lançado no dia 14 de fevereiro de 1975, dia de São Valentim.
颱風歌 (taifu-ka) — Canção do Tufão
Como o título indica, é uma canção sobre o tufões. Dentre as relações de eventos climáticos ligados à cultura japonesa, há uma obra literária icônica no imaginário do país: Genji Monogatari (源氏物語; “O Conto de Genji”), possivelmente considerado o primeiro romance da história, escrito no século XI. Em seu 28° capítulo, “Nowaki” (野分; “vento que divide as ervas do campo”) uma tempestade atinge a mansão do personagem Genji e causa danos em edifícios e vegetações. O conto era um tema popular em gravuras e pinturas do período Edo, chamadas de “Ukiyo-e” (浮世絵; “retratos do mundo flutuante”).

Nowaki, da série Genji em Traje Moderno e Elegante (風流略源氏 野分; Fûryû yatsushi Genji: Nowaki) de Isoda Koryusai, 1770–1772. (Fonte: Ukiyo-e Search)
逆まく嵐は悪魔の爪さ Sakamaku arashi wa akuma no tsume sa 大地を引き裂き うなりをあげる Daichi o hikisaki unari o ageru 鉛色の海に 滝の様な雨 Namari-iro no umi ni taki no yō na ame 吹き荒れる 颱風イェィ! Fukiareru Taifū yei!
Tradução:
A tempestade revolta, são as garras do demónio Rasgando a terra e soltando um rugido No mar cor de chumbo, uma chuva como uma cascata Soprando furiosamente, Tufão, yeah!
“Sob a Onda de Kanawaga” (神奈川沖浪裏; Kanagawa oki nami ura) é uma das xilogravuras de Ukiyo-e mais famosas do gênero; as garras das ondas me fazem lembrar do trecho onde o tufão é comparado às garras de um demônio.

Sob a Onda de Kanagawa, a primeira obra da série Trinta e seis vistas do monte Fuji (富嶽三十六景; Fugaku Sanjū-Rokkei) de Katsushika Hokusai, 1830–1830. (Fonte: Wikimedia Commons)
Outra associação dos japoneses com os ventos aparece na concepção da palavra Kamikaze (神風; “vento divino”). A história diz que duas tempestades teriam impedido a invasão do país por frotas mongóis em 1274 e novamente em 1281, evento posteriormente atribuído aos deuses. Isso deu origem ao conceito de Shinkoku (神国; “terra dos deuses”), no qual o Japão teria sido abençoado com uma proteção divina. Essa narrativa seria usada séculos mais tarde como motivação aos pilotos Kamikaze da Segunda Guerra Mundial.
さようなら (sayonara) — Adeus
A faixa que encerra é um retrato de um japonês que lida com uma sociedade profundamente transformada após a reabertura comercial do país ao contato estrangeiro.

Orandansen (オランダ船; Navio holandês) xilogravura de Utagawa Yoshitomi, 1861. (Fonte: The Metropolitan Museum of Art)
はじめて目にする物ばかりだ Hajimete me ni suru mono bakari da ギアマン瑠璃色の Giyaman ruri-iro no 切子硝子に見知らぬ花が鮮やかに Kiriko-garasu ni mishiranu hana ga azayaka ni
Tradução:
Tudo o que vejo é novo para os meus olhos Da cor de lápis-lazúli do Giyaman Flores desconhecidas brilham vividamente no vidro lapidado
Giyanam (ギヤマン) vem do holandês Diamant; inicialmente era usado como o equivalente a diamante mas passou a englobar mercadorias de vidro que os holandeses traziam em geral. Kiriko, ou Edo Kiriko (江戸切子), é um estilo de vidro lapidado do período Edo que cria padronagens presentes em copos, jarras e outros utensílios.
妖しき薫りはポルトの酒 Ayashiki kaori wa Poruto no sake この黄昏色の Kono tasogare-iro no うれいもとかす Urei mo tokasu 優しき味に酔い痴れて Yasashiki aji ni yoishirete
Tradução:
O aroma enfeitiçante é vinho do Porto Desta cor do crepúsculo Que dissolve até a melancolia Embriagado e fascinado por esse sabor suave
Apesar da menção ao vinho do Porto, não encontrei informações de que bebida portuguesa já era consumida pelos japoneses naquela época. Na verdade, eles já produziam vinho localmente e com a chegada dos portugueses antes do período de isolamento, foram introduzidos ao vinho tinto. De certa forma, entre os presentes trazidos pela frota do comodoro Matthew Perry ao xogunato haviam garrafas de vinho.
せつない恋にも似た味なら Setsunai koi ni mo nita aji nara 煙草このにがさ Tabako kono nigasa カルタ遊びにはるかな国を夢見る Karuta asobi ni haruka na kuni o yumemiru
Tradução:
Se este sabor se assemelha a um amor doloroso [Então] este amargor do tabaco… Me faz sonhar com terras distantes enquanto jogo cartas
O tabaco também havia sido introduzido pelos portugueses, assim como o vinho. Os americanos, nesse caso, o levaram já processando em forma de charutos. Karuta (かるた) vem do português “Carta”, novamente foram introduzidos pelos colonizadores no século XVII antes do período do Sakoku. Todos os elementos inseridos na cultura japonesa, sejam por holandeses, portugueses ou estadunidenses, se juntam para dar a noção de um Japão que não é mais aquela ilha pacífica de Sumie do início do disco.
E como denota a capa de Kurofune, onde os integrantes voam do leste para o oeste, a ideia é dessa vez trazer a cultura japonesa ao outro lado do mundo. Um protótipo inicial do que viria a ser nas décadas seguintes o Cool Japan, uma forma de soft power, criado para estabelecer o país como uma superpotência cultural.
Além dos navios pretos
Após mais de 400 horas de gravações de estúdio, Kurofune finalmente estava pronto e foi lançado em 5 de novembro de 1974. Apesar da recepção morna no próprio país, conseguiram chamar atenção no Reino Unido o qual acabou sendo o próximo destino da banda. O baixista Rei Ohara deixou o grupo nesse tempo, se tornando músico de estúdio nos EUA e sendo substituído por Tsugutoshi Gotō.
Em julho de 1975, haviam acabado de gravar seu terceiro álbum de estúdio, Hot Menu!. Foi quando receberam a notícia de que haviam sido escolhidos para abrirem os shows da turnê britânica do Roxy Music. Em 21 de setembro daquele ano, realizaram seu último show no Japão e no dia seguinte embarcaram para a Europa.

“Em 8 de março de 1852, a Marinha dos EUA atracou na baía de Tokyo e abriu o Japão para a cultura ocidental. 123 anos depois, a Mika Band está em turnê no Reino Unido”, página da NME em 1° de novembro de 1975.
A Sadistic Mika Band acabou se tornando um sucesso momentâneo, receberam aclamações das revistas New Music Express (NME) e Melody Maker. Em determinado ponto da turnê, chegaram a ofuscar o Roxy Music como banda de abertura, e consequentemente se apresentaram em programas de rádio e televisão locais.

Aparição da banda no programa The Old Grey Whistle Test, onde tocaram Time to Noodle (originalmente entitulada WA-KAH! CHICO!) e Suki, Suki, Suki. O título do programa teve a palavra alterada para “Gley” utilizando o estereótipo da forma com que asiáticos pronunciam a letra “R”.
Nos bastidores, porém, a relação entre Kazuhiko e Mika se desgastava. Mika mantinha um caso com Chris Thomas desde meados de 1974, durante a gravação de Kurofune. Em novembro daquele ano Hot Menu! seria lançado, com o saldo positivo resultante dos shows da turnê e dos elogios da mídia, a gravadora no Japão já planejava um show triunfante de divulgação do disco com o retorno da banda. Mika, no entanto, se recusou a voltar para ficar com Chris. Era o fim definitivo da Mika Band; o casal assinaria o divórcio ainda naquele ano. As gravações dos shows com o Roxy Music seriam lançadas em forma de álbum em 1976, intitulado Live in London.

Kazuhiko e Mika, respectivamente na capa e contracapa do álbum ao vivo Live In London. (Fonte: Universal Music Japan)
Os membros remanescentes Takahashi, Imai, e Gotō continuaram juntos usando o nome The Sadistics, lançando discos até a separação em 1979. Também trabalharam regularmente com Kazuhiko durante os anos 70 e na década seguinte. Yukihiro Takahashi se tornaria membro do Yellow Magic Orchestra, um dos grupos mais bem sucedidos do Japão, com a proposta de mesclar a música eletrônica ao som oriental. Masayoshi Takanaka consolidou-se como um dos guitarristas mais populares do país, conhecido por utilizar guitarras exóticas e chamativas, seguiu carreira solo onde experimentou gêneros diversos, como a junção de jazz fusion com samba em Brazilian Skies de 1978. Mika Fukui tornou-se amiga próxima de vários artistas ligados ao seu então marido, como Paul e Linda McCartney, além de participar de faixas como “Nice Age”, do YMO. Ela se divorciaria de Chris Thomas em 1984 e estudaria em uma escola de culinária francesa no Reino Unido, passando a atuar na área desde então.
Ao longo do tempo houveram reuniões dos membros da banda, com exceção de Mika. Em 1989, Kazuhiko, Takanaka, Rei Ohara e Takahashi formaram a Sadistic Mica Band com a vocalista Karen Kirishima, na ocasião lançaram o álbum Tenka. Em 2006, se reuniram como Sadistic Mica Band Revisited, agora com Kimura Mikaela no posto de vocalista, no mesmo ano lançaram o disco NARKISSOS. No ano seguinte, realizaram o primeiro show em 18 anos, seguido do lançamento de um documentário da banda. Desde então, não ocorreram mais encontros e certamente seria difícil haver, Kazuhiko faleceu em 2009 e Yukihiro Takahashi em 2023.
No final, Kurofune representou uma mudança de paradigmas na história da música japonesa. Não apenas por ser um disco de rock que abordava o próprio país e sua cultura, mas principalmente, pela determinação em demonstrar novas possibilidades de criação musical dentro de um estúdio de gravação. Em uma época em que era raro mulheres ocuparem o posto de vocalista no rock japonês, Mika Fukui foi pioneira na imagem de uma líder dos palcos no gênero. A Sadistic Mika Band, por sua vez, deixou um legado para outros músicos japoneses de que era possível levar seu som para o outro lado do oceano.
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