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Sonhei com um e-mail

Sonhei com um e-mail.

Contador Solitário · 2026-07-09 14:35 · 0 claps · 2.1 min read
#email #sonhos
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Sonhei com um e-mail

Sonhei com um e-mail.

Nada de extraordinário nisso, dirão. O extraordinário era o remetente. Um nome que eu não lia havia anos apareceu na caixa de entrada com a discrição das coisas que já desistiram de pedir licença.

Não houve anúncio, nem música, nem qualquer solenidade onírica. Apenas a constatação silenciosa: chegou.

Curioso como o inconsciente escolhe tecnologias tão prosaicas para encenar seus milagres.

Em vez de uma carta perfumada ou de um encontro improvável numa estação de trem, um e-mail.

O desejo, quando amadurece, perde o gosto pelo espetáculo. Contenta-se com o plausível.

Passei algum tempo, ainda dentro do sonho, olhando para a mensagem fechada.

O assunto era banal. Duas ou três palavras sem brilho. Justamente por isso, convincentes.

Os sonhos mentem mal quando tentam parecer verdadeiros; aquele, ao contrário, economizava efeitos.

Havia anos de silêncio entre aquele nome e meus olhos. Silêncio é uma palavra enganosa.

Ela sugere ausência de som, quando na verdade costuma ser excesso de significado.

Não conversar com alguém durante muito tempo não significa, necessariamente, que essa pessoa desapareceu.

Às vezes significa apenas que encontrou uma maneira mais sofisticada de permanecer.

Abri o e-mail.

Não lembro uma única frase. Ao despertar, descobri que o sonho havia preservado o essencial e descartado o resto.

Sei apenas que o texto existia e que, enquanto eu o lia, experimentava uma sensação raríssima: nenhuma cobrança, nenhuma explicação, nenhum ajuste de contas.

Era como se o tempo, pela primeira vez, aceitasse não ser interrogado.

Talvez seja essa a fantasia mais secreta que cultivamos. Não a de recuperar o passado, mas a de encontrar alguém que atravesse os anos sem exigir que os anos sejam justificados.

A memória é uma péssima arquivista. Ela guarda recibos de ofensas mínimas e perde documentos fundamentais de ternura.

Ainda assim, insiste em acreditar que administra um patrimônio coerente.

O sonho, mais generoso, reorganiza o arquivo segundo outra lógica. Ele não pergunta o que aconteceu; pergunta apenas o que ainda pulsa.

Ao acordar, fiz o gesto automático de verificar a caixa de entrada. Naturalmente, não havia mensagem alguma.

Senti uma decepção discreta, quase elegante. Durou poucos segundos.

Depois compreendi que eu procurava no computador uma confirmação que pertencia a outro lugar.

Os sonhos não existem para anunciar acontecimentos. Existem para revelar permanências.

A pessoa daquele e-mail continuava onde sempre esteve: numa região da vida em que as despedidas nunca conseguem concluir seu trabalho.

Não porque exista esperança de reencontro, nem porque o passado peça reparação.

Apenas porque certas presenças, quando realmente nos alcançam, deixam de depender da convivência para existir.

Fechei o computador.

Por um instante, tive a impressão de que responder seria possível, embora não houvesse mensagem alguma esperando por mim.

E talvez essa seja a forma mais delicada de saudade: não desejar que o outro volte, mas descobrir, com um leve espanto, que uma parte de nós jamais deixou de escutar uma voz que já não chega.


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