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A Delícia de Não Existir em um Sábado de Sol

Tem dias que acordar já parece um erro de cálculo. Acorda, se olha no espelho, se pergunta se hoje será o dia em que o mundo, finalmente…

Brazilian Side Hustler · 2024-09-08 13:11 · 0 claps · 2.3 min read
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A Delícia de Não Existir em um Sábado de Sol

Photo by Ian Schneider on Unsplash

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Tem dias que acordar já parece um erro de cálculo. Acorda, se olha no espelho, se pergunta se hoje será o dia em que o mundo, finalmente, desiste de te acordar. Ah, mas o marketing, esse infame, nunca falha em te vender um novo começo. “Hoje é um novo dia, de um novo tempo que começou.” Só que quem compra isso? O tempo nunca começa novo, ele é só uma eterna repetição de segundos mal usados.

O brilho da manhã de sábado penetra as cortinas como um lembrete cínico de que, sim, o sol ainda brilha para todos, até para quem preferia se esconder na sombra. E entre um gole de café amargo e um silêncio carregado de vida não vivida, surge a lembrança de que a acessibilidade das drogas, legais ou não, continua sendo o único consolo para quem prefere passar os dias sem encarar a própria existência. Mas, droga nenhuma alivia o fardo de ser quem você não pediu para ser. Nem mesmo o sábado.

Você está exausto, não de trabalhar, mas de não trabalhar. Quando se trabalha das 7 às 20, ama-se o sábado porque ele vem como um oásis no deserto. Mas quando tudo que você faz é correr de problema para problema, até o oásis vira uma miragem. O segredo é claro, está em São Paulo. Ou talvez, esteja em não estar em São Paulo. A cidade, como você, às vezes parece existir apenas para lembrar aos outros que há problemas que não se resolvem.

Mas, por favor, não se engane. Não é sabedoria que nos move, é a completa falta de opção. A sabedoria é uma ferramenta rara, um presente nunca entregue. O que nos resta são escolhas forçadas, ou melhor, a ausência delas. O truque está em sobreviver ao sábado sem enlouquecer no processo.

Então, está decretado: hoje veremos um filme, um filme sobre mentiras. Mentiras que contamos a nós mesmos. Porque no final, não há mais ninguém para enganar. Sabe, as árvores podem até não abraçar de volta, mas ao menos elas não mentem. Crescem em silêncio, observam sem julgar. Feitas para o nosso deleite ou não, elas não ligam se você as usa como desculpa para sua própria hipocrisia.

Por fim, quem somos nós, se não criadores da nossa própria desilusão? Envoltos no perfume de uma mistura barata de colônia e autocomiseração, caminhamos pela vida como se cada passo fosse uma decisão. Mas já não nos resta mais nada a decidir. O mundo está pronto para ser usado, abusado e descartado. Você pode tentar resistir, mas no fundo sabe que não há saída. Há apenas o momento, o cheiro do chão e o sabor de uma mentira bem contada.

Quem sabe, um dia, todos acordaremos dessa farsa. Ou talvez, preferiremos continuar dormindo, até que a vida resolva por nós o que sempre foi impossível decidir. Até lá, abrace suas árvores, sua rotina e, acima de tudo, abrace a mentira que te mantém de pé.

Photo by Rain Bennett on Unsplash

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