Solidão Paulistana #11 — O Orelhão
Solidão Paulistana #11 — O Orelhão

Vi um orelhão na rua. E nele vi algo pior e mais visceral: a face de meu abismo. Lembrei-me que não tenho ninguém para ligar e ninguém poderá compadecer-se de meu agônico, atômico e contínuo sofrimento.
Se eu pudesse ligar para alguém, quem sabe para o próprio Deus, lhe diria que sinto saudades. Não saberia com o ninguém que falo, dir-lhe-ia que sinto saudades da mesma forma. E que a dor que sinto é cada vez mais forte e mais cortante. Meu corpo sangra, meu espírito queima. Dir-lhe-ia contraditoriamente que sigo vivo e que isso é o que importa. E que no final, riria. E vou voltar a rir. Rir e renascer na penúria de meu infortúnio cruel. Escarrando e descartando cada louco que visa retirar meu pedacinho de céu.
Estou bêbado. Não deveria estar, mas estou. E preciso dormir, não quero, mas vou. Não sei quanto tempo tenho sobrando, porém preciso contar um segredo: estou em pedaços, tudo que sinto é dor. Tudo que me sobra são alguns cigarros e a reminiscência duma mulher que amei num passado nem tão longínquo.
Eu sou só a lembrança do que eu era. Sou a anteriodade não cumprida, o último paulistano em Araxá. Estou por acaso, numa jornada de auto ou redescoberta da essência perdida. Sinto dor e não quero remédio, sinto carência e não quero afeto, sinto ódio e não tenho inimigos.
Há pecados que um homem nunca confessa. Eu gosto de confessar os meus. Confesso-os como verdadeiramente homem e, portanto, verdadeiramente fiel de Deus: sou um baita dum babaca solitário preso numa armadilha diabólica. Desfigurado da identidade mais próxima, destituído da liberdade mais presente.
E quando cheguei nessa sociedade tão falante e tão coatuante em si mesma, desejava não sentir o abismo que sempre me queimou o peito com a frieza invernal que sempre lhe acalentou. O vento é tão forte que furacanizou-se e cortou-me em seu furacão de inglória. E agora vejo que fui tolo: o mundo não sorri para aqueles que não sorriem por não serem fortes.
E todos me odeiam. Sinto em cada olhar uma aspereza, vejo o grupo como o fator diverso que me esmaga. E eles, revoltados em seu ódio freneticamente tribal, querem me intimidar como soldados num campo de concentração nazista. Não deixarei que o façam, pois isto tirará de mim o que sobrou de mim: a fagulha do que restou do que eu era e do que sou.
Olham-me com pesar por eu ser diferente. Querem desfigurar o desfigurado. Querem provar que o grupo pode destruir a individualidade. É como se, num passe de mágica, eu voltasse ao Ensino Médio e tivesse que voltar aos demônios velhos e tardios. E eu sobrevivi a isto no passado, logo sobreviverei agora.
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