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Ocultamento e a manifestação de termos — Análise do conto “Inventário de imóveis e Jacentes” de…

O seguinte trabalho tem como objetivo realizar uma leitura do conto de Luis Bernardo Honwana com o objetivo de analisar os aspectos…

Vitor Mendes · 2026-08-06 02:44 · 20 claps · 5.8 min read
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Ocultamento e a manifestação de termos — Análise do conto “Inventário de imóveis e Jacentes” de Luis Bernardo Honwana.

O seguinte trabalho tem como objetivo realizar uma leitura do conto de Luis Bernardo Honwana com o objetivo de analisar os aspectos narrativos do texto e a partir disso gerar uma hipótese interpretativa para compreender a organização estabelecida pelo autor, na obra.

O Conto

Ao dar início a uma tentativa de compreensão e organização do conto “Inventário de imóveis Jacentes” presente no livro Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luis Bernardo Honwana, percebe-se que se trata de um texto que funciona de modo diferente do que normalmente se espera do gênero do conto moderno, pois, a não ocorrência de ação durante toda a narrativa demonstra como o conto retorna ao seu título, pois, é uma descrição de uma casa onde moram diversos membros de uma família, como um inventário. Julio Cortázar, elabora em sua teoria sobre conto moderno debatido no texto “Alguns Aspectos do Conto”, que a intensidade narrativa é um aspecto caracterizador do gênero, mas de modo oposto a descrição dos membros da família feita pela voz narrativa e a maneira como não há um ponto A em direção a um lugar B, fazem o texto de Honwana fugir dessa lógica. Porém, condizente com Ricardo Piglia em “Teses Sobre o Conto”, o texto produz um nível de argumentação em segundo plano que opera como acontecimento anterior à narração em questão, no caso a razão pela qual o Papá teria sido preso. Logo quando esse dado salta aos olhos de um leitor, é comum realizar a interpretação de tendência biografista relacionada ao autor do texto que possui envolvimento com grupos disruptivos (FRELIMO), e que passou cerca de três anos preso a mando de autoridades coloniais portuguesas. Porém o texto não realiza nenhum alusão direta a quaisquer dos termos colonialismo ou marxismo, ele comenta sobre a prisão do Papá nunca apresentando o motivo:

“Tina diz que o pano é feio, mas quando o Papá esteve preso tirou 2 cortinas e com elas fez 1 saia que não era parecida com nenhuma saia que eu me lembrasse de ter visto” (HONWANA, pg 59)

O segundo fator que possui uma não explicação direta e vem se localizar no mesmo campo que não responde ao da prisão do Pai é a questão da quantidade de livros na casa, um tanto precária e o porque eles ficam em lugares diferentes do que outras formas de texto. No conto, as duas principais e únicas citações aos vários livros que estão presentes na casa reiteram a maneira como eles estão escondidos na casa — a primeira em uma estante sob um pano:

“Entre a porta que dá para a casa de banho e a que dá para este quarto, encostada à parede do Corredor, há uma estante com 5 prateleiras todas cheias de livro. Tem a cobri-la com uma cortina feita dum pano idêntico ao do das cortinas da sala de visitas”. (HONWANA pg 59)

E na segunda citação, mais ao final do conto, uma situação que também reforça fortemente o teor de omissão assim como demonstrado na passagem anterior:

“Há ainda mais 3 caixotes com livros. Debaixo da cama em que está o Papá há mais caixotes com livros” (HONWANA pg 60)

Essa última passagem em especial conecta os livros e o Papá de maneira quase direta, com os dois convergindo no diálogo de segundo plano do texto. Com a definição de o que se ‘esconde’ no conto sendo realizada, resta a pontuar em detrimento de quais dados isso acontece e como eles funcionam em conjunto. Essa questão recai sobre o uso de algumas palavras na obra que trazem termos estrangeiros à obra e destoam consideravelmente dos demais aspectos da narrativa. Os termos em questão são Elvis, Lifes, Times, Reader’s e Cruzeiros, sendo essa última não de grafia inglesa, mas empregada em conjunto com as demais. O primeiro termo a aparecer no texto é Elvis, no momento em que Gita e Nelito estão comendo arroz e o caril de amendoim e ao se enjoarem do prato, escrevem o nome estrangeiro numa porta de armário. A aparição dos demais termos ocorre ao final do conto, logo após a passagem na qual se fala dos livros em caixas debaixo da cama.

“Se agora quisesse ler uma revista ia direitinho à mesa do centro, porque lá é que estão as “Lifes, as “Times” a os “Cruzeiros” mais recentes. Nos outros lugares da sala de visitas estão as revistas mais antigas e as mais ordinárias.” (HONWANA pg 60)

As duas citações estão inclusas no conto como descrições de objetos e aparências da casa, no entanto, essa reunião de termos se aplicam de maneira contrária a algo, como no caso as revistas que estão expostas ao contrário dos livros que estão resguardados sob panos, ou no caso de Elvis que é escrito na parede após os personagens se enjoarem de um prato típico de Moçambique. A partir dessa diferença de tratamento é possível elaborar que os termos pontuados estão em duas categorias, uma dos termos estrangeiros e uma outra que estão Livros e Caril de Amendoim

Diagrama de Oposição: Elementos do Conto

A partir disso a definição desses dois termos se dão pelo aspecto locais, pois o caril é uma iguaria típica de Moçambique, e também ao estado ocultado que estão os livros. Com essa compreensão desenvolvida até então, relembrando que toda ela opera no diálogo de segunda linha do texto, é possível compreender que a elevação dos termos estrangeiros condiz com uma tendência de imposição da modernidade capitalista sob formas culturais tradicionais ou elementos de culturas típicos, no caso em um local na periferia do capitalismo, Moçambique. Essa chave de compreensão não responde com clareza a questão da prisão do Papá, mesmo que uma possível suposição de que a prisão teria algo relacionado a ações ‘anticapitalistas’, algo similar a guerrilha ou relacionado a marxismo. Contudo, ao pensar que esse modo de soft power presente na narrativa do conto, organiza a disposição de elementos que se tornam visíveis ou não e que a resposta para o enjoo de uma comida típica seja a palavra ‘Elvis’, percebe-se que eles ocupam um nível de prestígio acima de outros, como demonstrados no gráfico.

hipóteses para uma interpretação histórica

Ao olhar para o conto com uma perspectiva histórica e social se torna inviável não citar a condição de Moçambique no ano de lançamento da obra trabalhada, 1964, ano que se iniciou a guerra pela independência de Moçambique liderada pelo FRELIMO. Ou seja, dado o contexto em que a obra foi escrita, o país passava por grande instabilidades políticas o que constantemente se reflete na literatura produzida. A partir disso, é possível perceber duas tendências históricas refletidas no *Inventário de imóveis Jacentes. A primeira seria a imposição cultural à uma nação no terceiro mundo que ainda é colônia durante segunda metade do século XX, de modo que essa imposição colonial se reflete nas dinâmicas culturais, podendo por vezes apagar aspectos nacionais, Tal qual o caso dos livros que estão escondidos e as revistas que estão à mostra na sala. E a segunda observação histórica para compreender o conto está alocada na inserção de dinâmicas pós-modernas em indivíduos que conduzem a sua representação do mundo moderno de maneira condizente com a indústria econômica, como descrito no livro O que é Pós-Moderno*, de Jair Ferreira dos Santos:

“O modernismo é a crise da Representação realista do mundo e do sujeito na arte. A estética tradicional fracassa ao captar um mundo cada vez mais confuso e um indivíduo cada vez mais fragmentado.” (SANTOS pg 33).

Em questão, isso se aplica idealmente na passagem na qual a Gita e Nelita não gostam do Caril de Amendoim e escrevem Elvis na parede, considerando que ‘provavelmente’, se trata de uma alusão a Elvis Presley, tendo em vista que ele está numa área comum as revistas Lifes e Times. Contudo, mesmo se tratando de um conto curto e que se presta a ser somente descritivo, a quantidade de camadas que o jogo de palavras selecionado gera demonstra que é uma obra fortemente inserida na dinâmica social da metade do século.

Bibliografia

CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In: __. Valise de cronópio. Tradução de Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

HONWANA, Luís Bernardo. Nós Matamos o Cão-Tinhoso. São Paulo: Editora Ática, 1980.

PIGLIA, Ricardo. Teses sobre o conto. In: PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SANTOS. J, F. O Que é Pós-Modernismo. 04º ed. São Paulo. Editora Brasiliense. 1987.

SOUZA, Ubiratã. Entre palavras e armas: literatura e guerra civil em Moçambique / Ubiratã Souza — São Bernardo do Campo, SP: EdUFABC, 2017.

VISENTINI. P, F. As Revoluções Africanas/Angola, Moçambique e Etiópia. São Paulo, Editora Unesp. 2012.


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