Livros para resistir e seguir em frente
Biblioteca comunitária do bairro do Calabar é exemplo de mobilização e luta social
Livros para resistir e seguir em frente
Biblioteca comunitária do bairro do Calabar é exemplo de mobilização e luta social
Uma biblioteca para chamar de minha! Assim, o morador do bairro do Calabar se refere ao espaço comunitário que tem um acervo de 6,5 mil livros e atende, em média, 40 pessoas por dia. Aberta de segunda a sexta, das 8h às 17h, com intervalo para almoço das 12h às 13h, a iniciativa faz parte da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias do Brasil e integra a seleta lista dos 42 locais culturais do gênero no Estado da Bahia. “Esse espaço é usado por diversos grupos da comunidade. A ideia da gente é despertar um sentimento de pertencimento”, avalia o administrador Rodrigo Rocha Pita.

Parte do acervo da biblioteca, localizada no bairro do Calabar. Foto: Daniel Serrano
“Pertencimento”, aliás, é palavra chave para entender a história da biblioteca. Idealizado pelo grupo “Jovens em Ação do Calabar” e inaugurado em 22 de abril de 2006, o espaço é o resultado da fusão de três ingredientes: união, luta e muito suor. O local, onde antigamente funcionava uma serigrafia, foi cedido pela associação de moradores e a reforma foi custeada pela verba arrecada em ações como rifa e sessão de cinema a preços populares. Os pedreiros trabalharam de forma voluntária, mas tiveram uma ajuda muito especial: “Todo mundo meteu a mão na massa”, explica Rodrigo.
Na abertura, a biblioteca contava apenas com duas salas e mil livros, especialmente didáticos. Hoje, o local comporta também área de convivência, administração, estoque e, nas estantes, figuram muitos volumes da literatura nacional e mundial. Frequentadora do espaço desde 2009, Janete Santos, 31, uniu o útil ao agradável e transformou o amor pelos livros em trabalho voluntário. Atualmente, auxilia nas atividades administrativas e nas rodas de leitura para crianças e adolescentes. Confessa ainda que a biblioteca promoveu sua aproximação com a comunidade, revelando um universo novo para ela: “Eu não me reconhecia como uma moradora do Calabar. Com a biblioteca, conheci a história do meu bairro e vi como a minha comunidade é importante”, revela.

Biblioteca com espaço para leitura. Foto: Daniel Serrano
Diferente de Janete que nasceu no Calabar, Bruna Santana de Melo, 21, mora na região há três anos. Atraída por um grupo de dança local, Bruna adotou e foi adotada pelo Calabar e, nesse processo, a biblioteca consistiu num importante elemento de conexão. Encantada com a diversificada programação, ela é voluntária nas atividades de “contação” de história para crianças, de mediação de leitura, além de marcar presença nas rodas de conversa sobre etnia, raça e religião, entre outros. “Faço de tudo um pouco”, resume, entre sorrisos.
Entusiasmada com a iniciativa, Bruna lança ao espaço um olhar estrangeiro e reconhece nele a simbologia da luta e da resistência, características do próprio bairro. Situado em área nobre de Salvador, o Calabar nasceu das ocupações desordenadas, realizadas por pessoas de distintas origens: retirantes do interior do estado, moradores da capital baiana desalojados em políticas de urbanização nos anos de 1950 e 1960 e empregados em busca de abrigo perto do local de trabalho – casas das classes média e alta dos bairros da Graça, Barra e Ondina. Depois de muitos confrontos e lutas, em 1977, a localidade foi reconhecida como bairro e passou por obras de infraestrutura.

Rodrigo Rocha Pita. Foto: Daniel Serrano
Atualmente, o Calabar conta com mais de seis mil moradores (IBGE, 2010), tem sua história registrada em livro (Cala a boca, Calabar!, de Fernando Conceição, publicado pela Vozes em 1986) e investe na emancipação pelo conhecimento.
[embed]:: Salvador Cultura Todo Dia :: *Calabar — www.culturatododia.salvador.ba.gov.br*
Dados sobre bibliotecas comunitárias
A pesquisa “Bibliotecas Comunitárias no Brasil: Impacto na formação de leitores”, divulgada em novembro de 2018, analisou 143 organizações em 15 estados brasileiros e no Distrito Federal. Desse total, 92 são integrantes da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC).
Segundo o estudo, 86,7% dessas bibliotecas estão em zonas periféricas, nas quais são registrados altos índices de pobreza, violência e exclusão de serviços públicos. Numa demonstração de resistência e mobilização, 66,5% das bibliotecas foram criadas por coletivos (grupos de moradores da própria comunidade e/ou de movimentos sociais). Esta investigação de espectro nacional foi desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa Bibliotecas Públicas do Brasil, da Universidade Federal do Estado do Rio (Unirio), em parceria com o Centro de Estudos de Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Centro de Cultura Luiz Freire (PE).
No que tange à Bahia, segundo o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas (SEBP), ligado à Fundação Pedro Calmon/SECULT, o estado conta com 42 bibliotecas comunitárias, distribuídas em 22 municípios. O dado de 2017 foi divulgado no “Guia de Bibliotecas Comunitárias do Estado da Bahia”.
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Bem, se o assunto despertou seu interesse, vale a pena conhecer a Biblioteca comunitária do Calabar:

Fachada da biblioteca. Foto: Daniel Serrano
Onde? Rua Nova do Calabar, s/n - Praça 11 de Quando? 2ª a 6ª das 8h às 12h e das 13h às 17h Como? Agende uma vista pelos contatos (71) 3331-8085 / 98723-8665 / bibliotecadocalabar@yahoo.com.br
Por: Daniel Serrano
메타데이터
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