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O humor e suas potencialidades

Ensaio com breves apontamentos sobre nossa vida, sentimentos e sentidos diante do humor e sua característica de provocar “quiebres”, parada…

Mirra borra-telas · 2023-10-16 06:38 · 6 claps · 17.8 min read
#humor #bakhtin #sensações #sentimentos #quebra
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Wiki topics: 😂 · Humor & Satire

Geraldão, criado em 1981 pelo cartunista Glauco. Adolescente tardio, uns 30 anos, bebe, fuma e está sempre pelado. Tem relação neurótica com a mãe e tem paixão por uma boneca inflável. Boa matéria sobre o cartunista na revista Rolling Stone: Entre duas vidas. https://rollingstone.uol.com.br/artigo/entre-duas-vidas-glauco-villas-boas. Uma vez eu vi um documentário sobre os cartunistas, que também comentava sobre a vida do Glauco, um psicanalista disse que o Geraldão era maravilhoso, sob seu ponto de vista.

Geraldão, criado em 1981 pelo cartunista Glauco. Adolescente tardio, uns 30 anos, bebe, fuma e está sempre pelado. Tem relação neurótica com a mãe e tem paixão por uma boneca inflável. Boa matéria sobre o cartunista na revista Rolling Stone: Entre duas vidas. https://rollingstone.uol.com.br/artigo/entre-duas-vidas-glauco-villas-boas. Uma vez eu vi um documentário sobre os cartunistas, que também comentava sobre a vida do Glauco, um psicanalista disse que o Geraldão era maravilhoso, sob seu ponto de vista.

O humor e suas potencialidades

Ensaio com breves apontamentos sobre nossa vida, sentimentos e sentidos diante do humor e sua característica de provocar “quiebres”, parada para … pensarmos em utopias e liberdade como emancipação!

Maurício Mirra, Setembro a dezembro de 2023, bons meses com dedicações em dias em que a seriedade do mundo exigiu escrever sobre possibilidades.

Humor, sensação de “alegria”, que em sua etimologia está associada ao ânimo de estar vivo.

No decorrer de nossa vida, todos nós vamos vivenciando e registrando, como se fôssemos acumulando num “livro caixa”, as sensações agradáveis ou desagradáveis como forma de compreender o mundo e elaborar respostas para as inúmeras situações a que somos expostos. Vamos montando nosso “mapa” com avaliações, comparações e atribuição de elementos que definam padrões de interpretação e permitam diferenciar o que nos causa prazer, alegria ou o que nos incomoda, causa repulsa e deve ser evitado.

Os primeiros registros destes sentimentos, invariavelmente, tornam-se memórias indeléveis, marcas que nos acompanham por toda a vida. Os sentimentos de “medo”, ou “alegria”, por exemplo, são associados a situações singulares, vivenciadas com maior ou menor intensidade por cada indivíduo e conforme classificação de nossas apreensões a partir de nossas referências históricas e culturais.

Jerry Lewis, multiartista que se destacou como comediante com lugar de destaque no cinema americano entre os anos 50 a 1970. Mas com atuação até 2016, um ano antes de sua morte aos 91 anos.

Jerry Lewis, multiartista que se destacou como comediante com lugar de destaque no cinema americano entre os anos 50 a 1970. Mas com atuação até 2016, um ano antes de sua morte aos 91 anos.

Emoções, sensações e sentidos positivos que o humor representa

Um investigação sobre o tema, pode considerar para efeito de entendimentos e reflexões, as noções de complexidade e sofisticação com que interagimos com os fenômenos da vida, especialmente as noções ou conceitos de “sensações” e “sentidos”.

As “sensações”, podemos convencionar no presente texto, fazem parte da apreensão composta por elementos simples e basilares, compreensões inatas, pois se originam da mente “sem qualquer mescla com a experiência sensível nem influência da ideação”. No outro polo, podemos assumir que os “sentidos” representam uma noção de maior discernimento, um certo grau de abstração que resulta da associação de ideias e que é interpretação elaborada a partir de impressões sensoriais, transformando-as em representações mais complexas e significativas.

Se com as sensações, temos uma análise e interpretação muito próxima de “reflexos” aos estímulos, “reações involuntárias”, no campo dos sentidos, o gênero humano se manifesta em sua singularidade e patamar transformado ao revelar a capacidade apurada de discernimento, mais intricada com o que nos afeta, na qual a percepção se encontra mais sintonizada com a cognição que é nossa faculdade de adquirir conhecimento. São promovidas avaliações e respostas conscientes, resultantes de um processamento superior de informações e sofisticação. Um movimento que torna a atribuição de “sentido” como a capacidade de atribuir significado e intenção ao que se observa, bem como traz consigo a forma reativa, ou como se deve interagir com o mundo e os estímulos da vida de forma geral.

A ‘Sociologia da Vida Cotidiana’, teorizada por Agnes Heller, entre outros autores, nos oferece uma abordagem sobre os estímulos e influências do cotidiano e da história em nossas vidas. Heller destaca a relevância das práticas e rotinas diárias na formação de identidades e na compreensão do mundo, afirmando que

“o cotidiano é o lugar onde a história acontece, onde o social é vivido”.

[embed]11.310 visualizações 22 de mai. de 2018 O COTIDIANO E A HISTÓRIA — ÁGNES HELLER O vídeo, voltado para alunos de graduação, tem por finalidade fornecer elementos para um maior entendimento sobre texto do livro “O Cotidiano e a História”, de Ágnes Heller, no qual ela procura discutir dimensões que perpassam a estrutura da vida cotidiana.

Em sua obra ‘Teoria das Necessidades em Marx’, Heller demonstra a ‘materialidade’ como premissa central da abordagem marxista:

“as sensações marcantes em nossas vidas muitas vezes estão ligadas às nossas necessidades básicas, como a necessidade de amor, reconhecimento e segurança”.

Ela afirma que essas necessidades moldam nossas experiências e influenciam nossas memórias mais profundas. Vale dizer que há atributos subjetivos e até mesmo intangíveis ou abstratos como aqueles relacionados a afetos, sem contudo invalidar a referência ao sensível, ao que é determinado pela matéria, que é “algo que se pode pegar”, como nos ensinava uma professora.

Ariano Suassuna — Imagem Site Unidade Nacionalista.

Ariano Suassuna — Imagem Site Unidade Nacionalista.

Apresentadas estas condicionantes de uma das primeiras emoções que conhecemos, o texto pretende abordar o “humor” enquanto estímulo, forma de linguagem e aspectos associados à sociabilidade. Há até o debate de sua filiação ideológica. Ocorre que num breve ensaio, não cabem pretensões de delimitação conceitual, ou mapeamento exaustivo do grande campo que abarca o “humor” e suas inúmeras formas de manifestação. Mesmo que não se aprofunde a classificação de meios de sua expressão e outros atributos que esquadrinhem o universo multifacetado que preenche, certo é que é constitutivo do gênero humano, uma dimensão maior que que os homens, sua a dimensão histórica, abstrata e atemporal. É razoável supor que nos acompanha desde sempre. Na Pré -História, o filme A Guerra do Fogo, desenha uma cena em que o humor e sua novidade é portada por uma mulher de tribo evoluida, que dominava o fogo. Se é um atributo humano, uma forma de expressão e comunicação, há possibilidade de analisar a história a partir de seu emprego, suas características de interação dos homens com o mundo desde sempre.

Humor e suas intencionalidades

Compreendemos como bom ponto de partida a abordagem que Ariano Suassuna confere ao humor em sua literatura:

“(…) justificando sua curiosidade pelo humor, citou uma passagem de Aristóteles que afirmava ser ‘o cômico, uma desarmonia de pequenas proporções e sem consequencias dolorosas’. Comentou em seguida… ‘que definição maravilhosa: é a arte do feio, do desarmonioso’”

A premissa deste texto é buscar situar o “humor” como uma das primeiras experiências positivas de nossa vida. Compartilho do interesse que Ariano tinha pelo tema e posso afirmar que escrever sobre sua natureza e facetas é tão prazerozo quanto às risadas soltas, sensação confortável por dedicar tempo a descobertas, teorizações, formas de manifestação, aplicações, tudo isso com múltiplas perspectivas de análise.

Além de ser um tema sobre algo que representa memória afetiva das mais intensas, conhecer alguns atributos de suas varias formas de expressão e emprego nas relações sociais, é certamente de suma importância e até certo, em determinados momentos históricos, um aspecto a ser contido e reprovado, dado o poder de libertação de reações e interpretações. Não por acaso, o humor representa possível caminho transformador, sobretudo por suas características de contestar o real, o normal e aquilo que é convencional.

De maneira essencial e elementar, o humor pode ser compreendido como um estado de ânimo positivo, relacionado ao riso e que é uma demonstração de alegria espontânea com marca de sensação de prazer que pode se associar ao relaxamento fisico. É possivel, também observar, seu efeito de alívio às tensões mentais decorentes de cansaço físico ou seu inverso. A busca de Ariano Suassuna sobre a essência do humor e sua potencialidade transformadora também inspirou este breve compilado de observações.

As gargalhadas da infância e do humor mais elementar

Um dos primeiros contatos com o humor, se dá pelos estímulos que recebemos quando crianças, em brincadeiras com a intenção de nos fazer sorrir, emitir nossos primeiros “ruídos”1 onomatopeicos, as chamadas gargalhadas. Estes estímulos podem ser buscados em nossas memórias, com a lembrança de um breve “desconforto” e “riso imediato”, reações incontroláveis, com nossos pais nos provocando cócegas, fazendo gracejos com “caretas” ou emitindo “sons diferentes”. Todos esses elementos, de tão inusitados e estranhos, provocam nossas primeiras reações espontâneas de alegria e, de certa forma, imediatas diante dos estímulos que causam surpresa. A repetição com que se provoca o mesmo estímulo, representa a busca por reproduzir mais prazer e alegria, propiciar uma sensação agradável de contentamento de parte a parte.

Imagem da materia BBC — Pesquisa tenta desvendar por que bebês gargalham https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150729_vert_fut_bebes_gargalhadas_ml

Imagem da materia BBC — Pesquisa tenta desvendar por que bebês gargalham https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150729_vert_fut_bebes_gargalhadas_ml

Os primeiros estímulos são simples e diretos, porém o humor pode contar com elementos mais sofisticados. A linguagem cômica passa a acessar mais e diversos recursos para se transmitir uma mensagem associada à descontração e aprovação. O humor possui uma linguagem própria que se pode afirmar universal, basta lembramos do cinema mudo com Charles Chaplin e as esquetes que até hoje provocam o riso de platéias pelo mundo todo, sem empregar falas. Consideremos que o chamado “humor pastelão”, um dos mais simples em termos de recursos, conquistam risadas a partir da surpresa com situações de “exageros”, grandes confusões e todo tipo de situação que surpeenda repetidamente o público e provoque o riso fácil, elementar. Um personagem que tropeça, a água que se espirra no rosto de outro personagem e até batalhas com alimentos entre atores que abusam destes recursos cômicos, como as famosas “tortas” ou “pastéis” que são lançados ao rosto de outros.

Charles Chaplin, mestre da comédia. Gênio do Humor.

Charles Chaplin, mestre da comédia. Gênio do Humor.

Geralmente, este tipo de humor, lança mão de simulações de violência desmedida, mas também pode explorar cenas com elementos absurdos. Trata-se de um tipo de humor que provoca propositadamente violações do raciocínio causal, surpresa e quebras de rotina. As situações e contextos apresentados, podem envolver cenas bizarras, situações irracionais ou absurdas e até mesmo expressões “nonsense”, de origem inglesa. Trata-se de uma forma de humor “sem sentido”, representando “contrassenso” ou situações que explicitam o “absurdo”.

“Se não se pode mudar a história real, muda-se o sentido dela. O riso, a piada é essencialmente alteração de sentido, reversão de significado”, declara Saliba. Uma mudança que pode, no fim das contas, alterar a própria história. Elias Saliba, historiador em entrevista à Revista Gama.

O humor pode representar como as sociedades vivem, suas mazelas, como são compreendidas suas épocas, contar com manifestações conforme os mais variados pontos de vista. Parte do elementar ao sofisticado e possui intencionalidade.

Além desta forma de humor, existem outros caminhos para expressão com comicidade, diversos recursos de entreter platéias e conquistar sua aprovação com gargalhadas, condição que pode ser associada à transmitir alegria e amabilidade ao público, uma sensação de bem estar.

Se considerarmos o panorama histórico, as formas de manifestação do humor na Antiguidade eram frequentemente associadas a eventos coletivos, como banquetes e festividades religiosas, sendo que, nessa época, a risada já era associada a uma forma de purificação e de escape das tensões cotidianas, uma alegria coletiva.

Durante a Idade Média, o humor ganhou mais destaque graças à figura popular dos “loucos”, pessoas que rompiam convenções, eram associados à marginalidade e à transgressão que representavam de um modo geral.

Filme do diretor italiano Ettore Scola, adaptação do romance de Théophile Gautier, “Le Capitaine Fracasse”. Retrato das origens do teatro profissiona, a chamada commedia dell’arte, popular em toda a Europa entre os séculos XVI e XVIII e caracterizada por ser uma oposição à comédia erudita.

Filme do diretor italiano Ettore Scola, adaptação do romance de Théophile Gautier, “Le Capitaine Fracasse”. Retrato das origens do teatro profissiona, a chamada commedia dell’arte, popular em toda a Europa entre os séculos XVI e XVIII e caracterizada por ser uma oposição à comédia erudita.

Humor, na Idade Média, a deselegância e o irracional da loucura

Se na Antiguidade o humor era um evento coletivo, que unia esfera pública e privada, na Idade Média ele ganhou mais relevância e importância, primeiramente associado às cortes e os respectivos “bobos” destes ambientes, pagos para fazer a nobreza rir. O grotesco estava presente, seus aspectos de exagero, representação e valorização do disforme, do ridículo e o extravagante, compunham os elementos aos quais os bufões recorriam para a comicidade e zombaria em suas apresentações. Na maioria das vezes eram os únicos que podiam ser assumidamente inoportunos e indelicados com a realeza, daí a acepção de “burla”, de poder “enganar”, serem “ardilosos” no sentido do emprego da “astúcia” , cenas jocosas, muitas vezes irreais, por isso mesmo, podiam ser compreendidos como responsáveis por “embustes” para divertir a todos.

Sua associação era fortemente ligada à figura popular dos loucos, homens expulsos ou renegados de monastérios e que, por serem desprovidos de razão aparente, eram extravagantes, totalmente opostos ao habitual, ao normal e ao comum. A etimologia, com origem no latim eclesiástico, traz a acepção extravagari no sentido de ‘andar errante’. Saliba destaca que “os loucos constituíam um universo à parte da Igreja e da sociedade, caracterizado pela vagabundagem, o crime e a diversão.

Loucos da Idade Média e Renascimento. O Charlatão, obra de Jan Steen. Domínio Público

Loucos da Idade Média e Renascimento. O Charlatão, obra de Jan Steen. Domínio Público

O palhaço, o comediante lúdico e o ator de cinema pastelão são herdeiros do descontrole corporal que se costuma associar à loucura.

Clown

Clown

O palhaço, ou clown, herdou do bobo da corte esse uso de uma forma socialmente licenciada da comédia”, declara. Portanto, o palhaço, o comediante lúdico e o ator de cinema pastelão são, de certa forma, sobreviventes dessa época, herdeiros do descontrole corporal que se costuma associar à loucura e até hoje se traduz num tipo de comédia bastante física, direta e com o objetivo de provocar riso solto e fácil. O argumento imagético é representar, através de pantomimas, a incapacidade em executar gestos simples, o tropeço no lugar do passo ordinário, movimentos imprevisíveis como tiques sem controle, aparentemente involuntários, repetitivos, exagerados por representarem parâmetros muito fora do normal.

Se a origem do teatro de rua que desafiava a comédia erudita veio da Itália, também vem de lá um humor muito característico. decorrente de uma certa utopia “brancaleonica’, expressão que foi cunhada pela obra de Mario Monicelli: “O Incrível Exército de Brancaleone”, de 1966. Este clássico de Monicelli ficaria conhecido depois como de gênero Commedia all’italiana.

Outros trabalhos marcantes de Monicelli e que sempre me deslumbravam em risos, são os filmes de 1975: Amici miei (Caros Amigos) e sua continuação de 1982: Amici miei atto II (Caros amigos 2). Dez anos depois, o emblemático Parenti serpenti (Parente é Serpente) chocava o público com a mesma surpresa de seus outros filmes.

A potencialidade critica, transformadora e libertadora do humor

Imagem do Site Pensador

Imagem do Site Pensador

“Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver”

É importante considerar que o humor articulado a sonhos, gestos com astúcia, personagens com grande poder de fazer rir com desdém, escarnecer do poder, nos atrai simpatia. São atores sociais de posição simples e engraçados, ao driblar injustiças e nos causar regozijo. A simplicidade destes personagens não é objeto de ridicularização, antes ridicularizavam as figuras sociais de maior prestígio, como o padre, o político, aqueles que possuem poder, sobretudo econômico.

Bakhitin, pesquisador que formulou elementos para compreender o “dialógico” na linguagem e o humor. Desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da teoria da linguagem, destacando a importância da interação social, da polifonia e da heteroglossia para uma compreensão mais profunda dos processos comunicativos e das manifestações humorísticas na linguagem.

Bakhitin, pesquisador que formulou elementos para compreender o “dialógico” na linguagem e o humor. Desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da teoria da linguagem, destacando a importância da interação social, da polifonia e da heteroglossia para uma compreensão mais profunda dos processos comunicativos e das manifestações humorísticas na linguagem.

O pesquisador russo Mikhail Bakhtin, é reconhecido por suas contribuições no campo da teoria literária e filosofia da linguagem. Dedicou uma parte significativa de seus estudos ao humor, buscando explorar de maneira meticulosa e profunda, as complexidades que representa, investigando não apenas suas manifestações superficiais, mas também suas raízes culturais e implicações sociais, além dos aspectos ideológicos. Sua teorização sobre o carnaval, afirmava que constituía um conjunto de manifestações da cultura popular medieval e do Renascimento. Conformava-se como um princípio, organizado e coerente, de compreensão de mundo que, quando transportado para obras literárias, chama-se ―carnavalização da literatura.

Para Bakhtin, um dos aspectos fundamentais do carnaval era a sua natureza não oficial, que permitiria uma “segunda vida do povo”, um duplo das práticas da Igreja e do Estado, em que todo o povo participava numa comunhão utópica de liberdade e fartura, de suspensão de todas as hierarquias e de dissolução da fronteira entre a arte e o mundo.

O riso como resultado da suspensão de hierarquias e a experimentação de novas sociabilidades

O riso como resultado da suspensão de hierarquias e a experimentação de novas sociabilidades

Neste caso, o riso não seria apenas uma reação física instintiva relacionada ao humor — como quando realizamos um movimento brusco em resposta à se defender, evitar a dor ou quando trememos de frio e procuramos nos aquecer. Ele exerceria, sobretudo, uma função de permitir um amalgama de positividade e boa receptividade a estímulos que causam “quebras”, momentos de reflexão, possível recurso que pode até afirmar identidades e criar laços de sociabilidade.

Encontrar potencialidades no âmbito do utópico, pesquisar caminhos experimentais com o humor é um campo incrivelmente vasto e desafiador.

Registro de impressões pessoais sobre formas de manifestação do humor que me tornam um curioso pelo tema.

Careta com chocolate, tentativa de gracejo que se configura em intenção de causar riso. Foto do autor, que já iniciou curso de Clown, adora piadas ruins (nonsense ao extremo) mas que não machuquem ninguém, conforme nos ensina Aristóteles e Ariano Suassuna.

Careta com chocolate, tentativa de gracejo que se configura em intenção de causar riso. Foto do autor, que já iniciou curso de Clown, adora piadas ruins (nonsense ao extremo) mas que não machuquem ninguém, conforme nos ensina Aristóteles e Ariano Suassuna.

Seguem algumas manifestações artísticas em que o humor se apresenta de maneira mais elaborada. Não que as formulações menos elaboradas representem menor importância para o humor. De certa forma, o essencial pode surpreender ao revelar-se como “quebra” no entendimento sobre as coisas. Os destaques que se seguem também não ambicionam rigor, mas sim registrar recortes inspiradores, através de meu prisma particular, a um autor que se define como “receptor” entusiasta do humor.

📽️No cinema, voltando às citações acima referentes ao cinema mudo, como forma de linguagem baseada na pantomima, compreendendo gestos, expressões faciais, movimentos de grande entrega física, danças ou outros movimentos corporais que provoquem o riso.

Nos EUA, o cinema mudo bastante expressivo e que registrou cenas memoráveis e que nos diverte até hoje, como as cenas repletas da gagues e acrobacias Buster Keaton, os filmes de Laurel e Hardy, mundialmente conhecidos como “O Gordo e o Magro” que, exemplificam o grande poder de engajamento e sensibilização do humor, quando atuaram para uma organização de suporte ao exército, no período da Segunda Guerra Mundial. Além destes, o consagrado e genial Chaplin e sua obra que o coloca entre os maiores cineastas de todos os tempos, com suas obras clássicas e universais.

Considerando a cronologia de sua atuação, um de seus sucessores mais marcantes no cinema falado, foi Jerry Lewis (foto acima), com filmes que fascinaram crianças e adolescentes desde os anos 50, alcançado minha infância nos anos 70. Suu humor é baseado em cenas que exploram o absurdo, o exagero, além da paródia de maneiras muito bem elaboradas. Foi um verdadeiro mestre em criar situações associadas ao riso imediato e muitas vezes contínuo, a partir de roteiros com situações muito absurdas e inesperadas. Seus personagens são caracterizados com traços notadamente caricatos e exagerados, o que contribui para este efeito cômico, ao lado de seu perfil como imitador de vozes e sotaques.

Uma das cenas mais memoráveis de Jerry Lewis, é a que ele datilografa uma carta com muita pressa, ao som de uma sinfonia. Ele tenta datilografar a carta ao mesmo tempo em que canta a sinfonia que está tocando no rádio. O resultado é uma cena hilariante, em que Lewis se atrapalha constantemente com a máquina de escrever e a música, uma cena com “coreografia” irretocável.

Frames da cena de Jerry Lews e a “máquina imaginária” que ao fim tinha redigido a carta. Fonte vídeo disponível em redes sociais.

Frames da cena de Jerry Lews e a “máquina imaginária” que ao fim tinha redigido a carta. Fonte vídeo disponível em redes sociais.

O humor de Mel Brooks foi extremamente profícuo, materializado em filmes, peças de teatro, trabalhos para a televisão e que se tornou um dos autores mais consagrados, devido ao fato singular de receber os maiores prêmios do entretenimento. O Oscar Honorário que recebeu em 2023, foi justificado por seu mérito em “iluminar nossos corações com seu humor, e seu legado teve um impacto duradouro em todas as facetas do entretenimento” — discurso lido durante a entrega da estatueta. Escreveu comédias clássicas como “O Jovem Frankenstein” e “A História do Mundo — Parte I, além do aclamado “The Producers”. Este filme clássico é frequentemente citado como um dos melhores filmes de comédia de todos os tempos. É uma sátira inteligente e mordaz do mundo do teatro musical, e é repleto de humor irreverente e situações absurdas.

Atores que trabalharam com Mel Brooks, Don Adams e Gene Wilder eternizaram seus bordões em paródias de grande successo. Maxwell Smart se consagrou em um 007 que se lia 86 e Gene Wilder protagonizou com perfil cômic de tão alucinado Young Frankenstein.

Atores que trabalharam com Mel Brooks, Don Adams e Gene Wilder eternizaram seus bordões em paródias de grande successo. Maxwell Smart se consagrou em um 007 que se lia 86 e Gene Wilder protagonizou com perfil cômic de tão alucinado Young Frankenstein.

No Brasil, o cinema ligado à comédia, tinha em Oscarito e Mazzaropi, além de outros atores como Zé Vasconcelos como principais destaques. Este último, é considerado por muitos, como o precursor do modelo de apresentação em pé, consagrado como stand-up, além de ter idealizado um projeto de parque no Brasil chamado Vasconcelândia, semelhante às referências concretizadas por Walt Disney. Fizeram parte da produção de obras conhecidas como chanchadas, um gênero cinematográfico popular nas décadas de 1930 a 1950. Estas produções eram caracterizadas por seu tom leve e descontraído, muitas vezes misturando comédia, música e dança.

Quanto aos palcos do Teatro 🎭, estabelece-se uma relação mais direta e com um público mais restrito. Neste campo de expressão, Brooks também fez enorme sucesso com a adaptação do mesmo The Producers, adaptada para um musical. As obras teatrais podem contar com experimentação e uma abordagem mais complexa, recursos como a sátira, a ironia e a metalinguagem. Os autores mais emblemáticos desta forma de expressão, são — Molière, considerado o pai da comédia clássica, que escreveu peças como “O Tartufo” e “O Misantropo”, além de Shaskapere, também referência universal. Outros autores a citar, Oscar Wilde e Neil Simon. Como este registro não pretende alcançar a dimensão enciclopedica, cito o importante autor brasileiro Cacá Rosset, que escreveu peças como “Teledeum” e “Ubu”.

Montagem com Fotos de Cacá Rosset e Alberto Boadella, acima e à esquerda, cena de grande público para a apresentação do Grupo Ornitorrinco na Colômbia, Bogotá, cenas da peça abaixo à esquerda e o surpreendente “Ketchup Christ” que foi um recurso sensacional para arrancar gargalhadas do público.

Montagem com Fotos de Cacá Rosset e Alberto Boadella, acima e à esquerda, cena de grande público para a apresentação do Grupo Ornitorrinco na Colômbia, Bogotá, cenas da peça abaixo à esquerda e o surpreendente “Ketchup Christ” que foi um recurso sensacional para arrancar gargalhadas do público.

Fui privilegiado por poder ter contato com as suas principais obras, podendo ter a dimensão de recursos como a interação com a platéia, em que uma cena, ao final de Teledeum, marcou minha memória:

Um personagem religioso, ao final da peça, vai para um púlpito diante da platéia e afirma que lerá toda a Bíblica, a partir de seu primeiro livro, o Gênesis. A situação de brincadeira com a platéia motivou um espectador a gritar “bora, quero ir pro McDonalds”. Nem preciso dizer que o ator explorou a “aparente” mediocridade em consumir uma comédia teatral elaborada e, em seguida, se render ao fast-food mais significativo do “fast” relativo à sociedade capitalista e o “food” processado que, não se orienta pela saúde de seus consumidores.

Cumprindo a proposta de apenas destacar o que se tornou referência para mim, antes de falar sobre a televisão, cumpre incluir também os destaques para o teatro, com as as peças, geralmente monólogos, de humoristas consagrados como Jô Soares e Chico Anísio, mais conhecidos por seus trabalhos na televisão.

📺A Televisão brasileira conta com uma importante história construída por grandes talentos desde sua origem, como os dois últimos citados, lembrando também de Ronald Golias. Chico Anysio é considerado o rei do humor brasileiro e Jo Soares foi apresentador de programas humorísticos durante vários anos e com sucesso em personagens criados para “Viva o Gordo” e “Programa do Jô”. Ainda, conforme meu referencial, não temos como deixar de registrar o humor datado (por que recorria a estigmatizações condenáveis nos dias de hoje) do grupo Os Trapalhões, humorístico que fez sucesso nas décadas de 1970 e 1980.

TV Pirata e o personagem Barbosa, interpretado por Ney Latorraca.

TV Pirata e o personagem Barbosa, interpretado por Ney Latorraca.

O fim dos anos 80 e início dos 90, foi período de realização da grande novidade humorística que minha geração testemunhou, a TV Pirata. Um grupo de excelentes roteiristas com atores de elenco com também muita qualidade, sob a direção de Guel Arraes, certamente foram elementos que garantiram o sucesso em seus quatro anos de produção. Há traços de inspiração em programas como Saturday Night Live dos Estados Unidos e Monty Python com Flying Circus na Inglaterra. Seus focos temáticos orientavam-se por satirizar a televisão e a cultura brasileira com quadros memoráveis e alguns personagens inesquecíveis, como “Barbosa”, interpretado por Ney Latorraca, personagem nonsense, um senhor que repetia as últimas palavras que ouvia, revelando uma certa referência a loucos ou bobos, conforme citados anteriormente.

O caminho citado de inspiração no grupo Monty Python, nos leva de volta ao cinema e ao estilo inglês de chocar o mundo todo com suas histórias extremamente surreais com alguma “sobriedade inglesa” e um humor que se tornou também muito característico.

Etapa concluída até aqui, 14/11/2023.

Revisão de tópicos a aprofundar (campo TV, internet e teatros):

  • Monty Python — citar canção… “compre o disquinho”/ Discurso morte de integrante
  • Casseta e Planeta / Planeta Diário
  • Teatro Terça Insana e esquetes memoráveis. Dona Edith, Seu Merda e …freira
  • Humor MTV — Ultimo Programa do Mundo e Choque de Cultura, programas humorísticos que se tornaram cult.
  • Internet chegando e abrindo novos espaços — Blogs, Memes, Cid Cidoso.
  • Brasil vencedor da “guerra memeal”
  • Internet — Case Porta dos Fundos
  • Enlatados — Friends, Seinfeld, mas antes disso — That 70
  • Chris Rock, vencedor de quatro prêmios Emmy.
  • Dave Chappelle, vencedor de três prêmios Emmy.

Seinfeld e sua devoção ao humor — Falar sobre Comedians in Cars Getting Coffee e o stand-up.

Pausa aqui para outras referências — doc sobre limites do humor.

Pesquisadores citados anteriormente.

Listas de melhores comédias…

Citar livro humor (enciclopédia?

APONTAMENTOS HUMOR — PESQUISAS

Encyclopedia of Humor Studies, organizada por Salvattore Attardo,

ATTARDO, Salvatore (org.). Encyclopedia of Humor Studies. Los Angeles: Sage-Reference, 2016.

335 verbetes de A a Z, escritos por 214 colaboradores provenientes das mais diferentes áreas do conhecimento, certamente é um marco na história dos estudos sobre o tema do humor e, de certa forma, vem atestar, após décadas de um renitente desprestígio ou indiferença no meio acadêmico, a difícil consolidação de um campo de pesquisas

abordagens da antropologia, da linguística, da psicologia, da neurociência cognitiva e de inúmeras outras disciplinas, sem contar as surpreendentes interconexões disciplinares, as quais provocam um saudável deslocamento de fronteiras no sentido de captar a crescente complexidade do universo de estudos humorísticos.

  • Rick Gervais, autor da série “The Office” — fala sobre apresentação Cinema e o humor ao vivo que incomodou. Discurso morte …
  • I Think You Should Leave with Tim Robinson | Season 3 … YouTube · NetflixHumor do absurdo: **Zach Galifianakis**/ two samambaias…
  • Irreverência
  • Brasil — Clássicos, (Rafinha Bastos, Rabin e Programa A culpa é do Cabral). Nichos específicos, Marco Luque, João Pimenta e O humor chega na Quebrada — Thiago Ventura, mas também na sala dos professores — questão (+) indicação reflexão sobre os limites do humor.
  • Cauê Moura e seus gritos
  • Programas YouTube — UFT, Galãs Feios
  • O PodCast que provou que o humor é muito mais que mero entretenimento, Medo e Delírio em Brasília
  • Humor engajado, Thiago Santineli e a referência a Bastardos inglórios.

OUTRO ESCOPO, CONSIDERAR — PIADAS POPULARES, HUMOR REGIONAL

Caminho de linguagem…

ILUSTRAÇÕES — CARTUNS, CHARGES, CARICATURAS

Angeli, Laerte e Glauco, Adão (4º amigo)/ cartum para clipping de notícias grupo de esquerda.

MEMES — IMAGEM POR ÍCONES.

HUMOR DE DIREITA

HUMOR PARA HOSPITAIS — DOUTORES DA ALEGRIA — PACH ADAMS

UNIVERSO DO HUMOR — TANTA COISA FICOU DE FORA

ANIMAÇÕES — Desenhos de antigamente, de agora… universo à parte

FECHAR COM O QUE COMEÇOU — ILUSTRAÇÕES — CARTUNS, CHARGES, CARICATURAS

Angeli, Laerte e Glauco, Adão (4º amigo)/ cartum para clipping de notícias grupo de esquerda.

MEMES — IMAGEM POR ÍCONES.

Considerações finais

O humor é uma manifestação artística complexa e versátil, que pode ser explorada de diversas formas. Os autores citados neste texto são apenas alguns exemplos dos muitos artistas que se dedicaram a explorar o humor de forma DEDICADA A EXPERIMENTAR.

TEXTO EM FASE DE FINALIZAÇÃO

TEXTO EM FASE DE FINALIZAÇÃO

Caricatura de Leonardo da Vinci, que se aproveitou dos avanços da tipografia para difundir sátiras imagéticas. Imagem: Reprodução

Caricatura de Leonardo da Vinci, que se aproveitou dos avanços da tipografia para difundir sátiras imagéticas. Imagem: Reprodução

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Capa

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Capa

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 1 de Estatísticas e afirmações sem qualquer precisão ou rigor. “È que não precisava mesmo!”

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 1 de Estatísticas e afirmações sem qualquer precisão ou rigor. “È que não precisava mesmo!”

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 2 de Estatísticas e afirmações sem qualquer precisão ou rigor. “È que não precisava mesmo!” — Detalhe da captura da imagem, o meni abaxo veio e não era… foi engraçado notar a comida de bola agora…

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 2 de Estatísticas e afirmações sem qualquer precisão ou rigor. “È que não precisava mesmo!” — Detalhe da captura da imagem, o meni abaxo veio e não era… foi engraçado notar a comida de bola agora…

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 3 — Algumas formas de manifestação do humor

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 3 — Algumas formas de manifestação do humor

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 4, afirmações sobre o benefício do humor, sem qualquer precisão ou rigor. Melhor Remédio — MAIS UMA RATEADA

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 4, afirmações sobre o benefício do humor, sem qualquer precisão ou rigor. Melhor Remédio — MAIS UMA RATEADA

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 5 Mapa Mental do Humor, base deste pretenso Almanaque.

Pequeno Almanaque Mal Humorado — Página 5 Mapa Mental do Humor, base deste pretenso Almanaque.

1 — Sons primitivos, parecidos com os que são emitidos por pássaros ou outros animais; Pode ser associado também a onomatopéiras parecidas com o “gargarejo” com água.


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