O Sonho de um Homem Ridículo (Dostoiévski)
Participei de um bate-papo literário sobre o conto O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoiévski, apesar de não o ter lido. Devido aos temas…
O Sonho de um Homem Ridículo (Dostoiévski)
Participei de um bate-papo literário sobre o conto O Sonho de um Homem Ridículo, de Dostoiévski, apesar de não o ter lido. Devido aos temas discutidos, me senti motivado a ler o conto, que me causou um impacto bastante positivo.
Baseado apenas numa primeira leitura, o narrador-protagonista não é nomeado. Seu monólogo interior mostra um perfil introspectivo. Parece um personagem sincero em sua narração e determinado pela atitude escolhida após seu sonho lhe ter revelado a verdade.
Ele inicia a narração apresentando-se com um autoconceito negativo: um homem ridículo. O personagem é marcado pelo pessimismo por sofrer males do mundo e não encontrar um sentido da vida, pois sua mentalidade é niilista. Reflete o valor da sua existência no mundo, que diferença haveria se existisse ou não. Assim, se tornou um homem indiferente e finalmente planejou se suicidar. Pretendia dar um tiro em si próprio com um revólver na têmpora direita, mas decidiu que fosse sobre o coração.
No dia planejado para se suicidar, viu uma estrela no céu. Naquele momento da leitura, considerei contrastante o desejo de se suicidar e o olhar para a estrela, que simbolizaria melhor a esperança, semelhante a uma luz no fim do túnel. Na rua, uma menina que gritava “Mamãe! Mamãe!” queria falar com ele e ele a evitava. Esse encontro foi um evento funcional na narrativa para que o narrador não cumprisse o seu plano de suicídio. E no fim do conto a menina é lembrada.
Um conteúdo filosófico ou epistemológico presente na reflexão do narrador é o conhecimento subjetivo da existência do mundo. Há subjetivistas que argumentam que a existência objetiva do mundo está em função da consciência subjetiva (do sujeito cognoscente). O narrador acata parcialmente esse ponto de vista filosófico, mas não totalmente, reconhecendo, conforme o senso comum, a existência objetiva do mundo independentemente da sua própria consciência.
O narrador diz ter conhecido uma verdade num sonho. Dentro desse quadro narrativo onírico, ele morre e é colocado num caixão. Alguém, aparentemente a Morte, que fala muito pouco com ele, o leva a um outro mundo igual à Terra. Quando percebe os mesmos continentes, sente amor por esse novo mundo, o que índica que, no mundo no qual vivia realmente, sentia um amor pelo mundo, apesar de seu pessimismo. Seu desejo de suicídio decorreria de sofrer maldades humanas.
Aproximando-se da nova Terra, reconhece sua terra russa e é levado ao equivalente do arquipélago grego, onde encontra pessoas que vivem em harmonia, com filhos e sem famílias, sem sexualidade desregrada, enfim um paraíso no Éden. Essa imagem do Éden sugere uma inspiração teológica do autor, possivelmente católica ortodoxa, e o teor teológico se manterá. A menina que interpelou o narrador talvez possa ser interpretada como um anjo personificado e visando a evitar seu suicídio.
O narrador contrasta essa vida paradisíaca com uma noção histórica de insucessos no seu mundo. Continuando sua narração, o narrador, agindo como a serpente, gerou o “pecado original” naquele paraíso. Peca-se pela volúpia, em seguida pelo ciúme, e assim por diante.
Essa experiência (“conhecimento da verdade”) muda sua alma de modo que resolve pregar que as pessoas podem ser belas e felizes. Não quer crer que o mal seja o estado normal do homem. Sua indiferença se transforma num forte desejo de pregar a verdade que afirma ter conhecido, o que supõe uma esperança em atingir um propósito de vida, ausente anteriormente.
O narrador se torna claramente otimista pelo abandono de seu niilismo. Por um lado, a obra felicita alguns leitores e, por outro lado, o protagonista pode ser interpretado como um idealista romântico, daí o atributo “ridículo”, presente no título.
Finalmente, poderíamos qualificar esse conto como espetacular pela concretização em forma de narrativa — com precisão, clareza, ritmo ajustado — do remédio psicológico ou espiritual necessário à alma niilista ou em vias do niilismo: a esperança.
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